No Pará, estudo comprova contaminação dos Munduruku por mercúrio de garimpo ilegal

Além de impactar gravemente a saúde dos povos, rios e florestas, a atividade criminosa impõe o abandono do modo de vida tradicional

Equipe de pesquisa fazendo coleta de amostra de cabelo, aldeia Sawré Muybu, TI Sawré Muybu, Pará, 2019 © Paulo Basta / Fiocruz

Enquanto o governo segue surdo ao desespero dos povos indígenas obrigados a conviver com a invasão de milhares de garimpeiros em seus territórios, os povos se articulam e buscam a ciência para demonstrar o quão absurdo é o contexto reiterado de violação do direito à vida em pelo menos 18 terras indígenas invadidas pelo garimpo.

Com o processo de demarcação da Terra Indígena (TI) Sawré Muybu paralisado na FUNAI, os Munduruku do Médio Tapajós vivem o desespero de ver seus rios e corpos contaminados por mercúrio; já não bastasse a extração ilegal de madeira que se espalhou como praga pelo sul da terra indígena.

Cansados de esperar por socorro, os Munduruku buscaram ajuda da Fundação Oswaldo Cruz  (Fiocruz), a fim de que pudessem ser avaliados os impactos da contaminação por mercúrio em três importantes aldeias do território. Amplamente utilizado para a extração de ouro nos garimpos dentro e fora do território, o mercúrio contamina as águas e os peixes, que são consumidos pela população local, provocando problemas neurológicos, sensitivos e motores. 

Equipe de pesquisa fazendo coleta de amostra de tecido muscular de peixe, aldeia Sawré Muybu
Equipe de pesquisa fazendo coleta de amostra de tecido muscular de peixe, aldeia Sawré Muybu, Pará, 2019 © Paulo Basta / Fiocruz

Focado na avaliação dos impactos da contaminação por mercúrio nos indígenas que habitam três das sete aldeias da TI Sawré Muybuo estudo revelou que todos os 200 indígenas avaliados em maior ou menor grau apresentavam traços de mercúrio no organismo, e que em 57, 9% dos indivíduos, os níveis de contaminação estão bem acima dos limites considerados como seguros. Para piorar, constatou-se que quatro em cada dez crianças menores de 5 anos apresentaram altas concentrações do metal, o que chamou a atenção dos pesquisadores, uma vez que o mercúrio afeta o Sistema Nervoso Central, que está em desenvolvimento no caso das crianças até essa idade Outro ponto preocupante é que o mercúrio também atinge o cérebro dos fetos ainda em formação no útero materno.

Considerando que a análise do pescado revelou a presença de mercúrio em todas as amostras coletadas, além de impactar a saúde dos rios e florestas, a atividade garimpeira na bacia do Tapajós impõe aos Munduruku o abandono do seu modo de vida tradicional, haja vista que altera por completo a relação dessa população com os rios; que de fonte de vida, passaram a ser a principal fonte de ameaça à reprodução física e cultural do povo.

A condescendência das autoridades brasileiras com o garimpo ilegal na Amazônia, e o desejo do governo Bolsonaro de abrir as terras indígenas ao garimpo e à mineração (PL 191), colocam em risco não só a vida dos indígenas do presente, mas também de toda uma geração que sequer pode se defender sozinha, uma vez que tem seu futuro comprometido ainda no útero materno. Por isso, rejeitar o Projeto de Lei 191, é tarefa de todos os brasileiros comprometidos com a vida e com um modelo de desenvolvimento capaz de garantir a vida em primeiro lugar. 

Clique aqui e faça o download da Nota Técnica “Impacto do mercúrio na saúde do povo indígena Munduruku, na Bacia do Tapajós”

Por: Danicley de Aguiar
Fonte: Greenpeace

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