Pandemia: Posse de prefeito de São Gabriel da Cachoeira aglomerou indígenas

Pandemia: Posse de prefeito de São Gabriel da Cachoeira aglomerou indígenas
Reeleito, Clóvis Curubão levou representantes de 23 etnias da região do Alto Rio Negro (AM) e desobedeceu protocolos de saúde de prevenção contra a Covid-19. Acima, ele está reunido com grupo do povo Yanomami

Abraços, apertos de mão, compartilhamento de objetos e autoridades sem máscaras na presença de grupos indígenas. Estas foram as cenas que marcaram a cerimônia de posse do prefeito Clóvis Saldanha (PT), ou Clóvis Curubão, no ginásio esportivo de São Gabriel da Cachoeira, município da região do Alto Rio Negro, no Amazonas.

Em plena segunda onda do coronavírus e enquanto em muitas cidades do Brasil as posses de 1º de janeiro aconteceram de maneira virtual ou sem a presença de público, o primeiro prefeito indígena reeleito na história do município com maior diversidade étnica do país optou por levar e expor representantes das 23 povos da região, que fica no noroeste do Amazonas. Houve diversas apresentações culturais no Ginásio Andrade Coimbra, que ficou lotado com milhares de pessoas.

Apesar de a Secretaria Municipal da Saúde informar em uma das postagens nas redes sociais que cuidou para que todas as medidas de prevenção ao novo coronavírus fossem adotadas, as imagens mostram convidados e autoridades sem máscaras e o descumprimento do distanciamento social. Na ocasião, já vigorava o decreto do governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), que proíbe festas e reuniões comemorativas no estado para evitar aglomerações diante da alta da pandemia. 

São Gabriel da Cachoeira é o quinto município amazonense com mais casos confirmados de Covid-19 desde o mês de março passado: 5.063 casos, até o momento. Chegou a ficar sem oxigênio na primeira onda da pandemia. Manaus está em primeiro lugar com 86.728 casos; em segundo Coari (8.382 casos ); em terceiro Parintins (7.367); e em quarto Tefé (5.131). Os dados são da Fundação Vigilância em Saúde (FVS).

Três dias depois da posse no ginásio, o prefeito Clóvis Saldanha baixou um novo decreto com regras mais rígidas para o funcionamento do comércio e o uso obrigatório de máscara em locais públicos e privados, inclusive com a possibilidade de multa no valor de R$ 65,26. 

Os vídeos da cerimônia foram divulgados nas redes sociais da prefeitura de São Gabriel da Cachoeira e mostram diferentes momentos em que os protocolos de saúde para a prevenção do coronavírus não foram respeitados pelas autoridades. Em uma dessas passagens, um grupo de indígenas Yanomami, que não utilizavam máscaras, pois tinham acabado de se apresentar, fazem fila para cumprimentar as autoridades e a primeira-dama, Jacilene Castilho Maia, que está o tempo todo sem máscara. Ela, o prefeito e a vice receberam abraços, afagos e apertos de mão dos indígenas. Desde o começo da pandemia, dez óbitos já foram confirmados entre os Yanomami, além de 1.174 casos positivos, segundo dados da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai).

Em outro momento, de um ritual de benzimento realizado pelos pajés, houve compartilhamento de objetos como cuias, cigarros e rapé. Nessas imagens, prefeito e primeira-dama aparecem novamente sem máscaras. A vice-prefeita está inicialmente com a proteção, mas depois mantém a máscara no queixo.

“Foi irresponsável”, diz a liderança André Baniwa

Marivelton Baré, presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), estava na cerimônia. Segundo ele, havia orientações para uso de máscaras e álcool em gel, mas havia mais gente  que o esperado. “São bastante perigosas essas situações”, admitiu Marivelton, referindo-se à possibilidade de contágio. 

A prefeitura patrocinou o combustível para que os grupos saíssem de suas aldeias e fossem até a cidade, segundo apurou a Amazônia Real. Os indígenas teriam ficado na cidade por três dias antes de retornarem para seus territórios. Não há informação de que fizeram quarentena. Clóvis Curubão, indigena da etnia Tariano, foi eleito com 11.197 votos e sua campanha foi focada nas comunidades. De acordo com Marivelton, ele andou por todo o território durante a campanha e teve maioria dos votos nas urnas instaladas dentro das comunidades. 

Para André Baniwa, liderança indígena do Alto Rio Negro, foi um mau exemplo realizar a cerimônia. “Vi as imagens e do ponto de vista cultural foi um evento bonito, mas no atual contexto foi irresponsável. Quem lidera o povo tem que manter a linha para dar exemplo. Se respeitassem o coletivo e a diversidade dos povos deveriam ter cuidado da prevenção”, afirmou.

No grupo de Whatsapp “Lutando por São Gabriel”, que reúne 234 pessoas e que foi criado há quase três anos para discutir os problemas do município, alguns integrantes consideraram como sendo uma atitude de vaidade do prefeito.

“Achamos desnecessário e um pouco impensável reunir tantas pessoas e trazer outras das comunidades dentro do cenário de saúde preocupante que estamos enfrentando por causa da Covid-19. Nas imagens vemos contato, falta do uso de máscaras por algumas pessoas e compartilhamento de utensílios levados à boca, o que faz parte dos rituais indígenas. Isso gerou preocupação”, afirmou um dos integrantes.

O médico sanitarista Douglas Rodrigues, do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que trabalha com populações indígenas e em isolamento voluntário na Amazônia há mais de 50 anos, disse que essas aglomerações são em grande parte responsáveis pelo aumento de casos, lotação dos hospitais e aumento do número de mortes em todo o País. 

“Somado ao negacionismo, comandado desde Brasília, a sensação de que ‘já passou aqui e por isso estamos tranquilos, tudo pode voltar ao normal’, é a razão principal do repique de casos”, alertou Rodrigues. “Se somarmos a isso uma mutação que aumenta a transmissibilidade do vírus e a falta de ação do Ministério da Saúde no enfrentamento da pandemia, incluindo a vacinação, temos um quadro sombrio pela frente, infelizmente.”

São Gabriel tem alta de casos de Covid-19

Ginásio lotado na posse do prefeito Curubão (Foto de PMSGC/01/01/2021)

De acordo com informações do Comitê de Enfrentamento e Combate à Covid-19 em São Gabriel da Cachoeira, pelo menos desde novembro de 2020 vem sendo registrada alta de casos da Covid-19, após o município passar por período de estabilidade. Segundo nota de 5 de janeiro, em dezembro de 2020 e neste início de 2021, a alta de casos mostrou-se acentuada. “A movimentação do período eleitoral e as festas de final de ano vêm contribuindo para esse cenário”, relatou a nota. O município tem 5.063 casos confirmados, sendo 77 recentes, e 59 óbitos.

Veja a linha da evolução da pandemia

Informativo do comitê também trouxe a mensagem que o presidente da Foirn, Marivelton Baré, alertou que pajés e conhecedores tradicionais indígenas também já manifestaram preocupação com uma segunda onda da Covid-19 e indicam que é necessário manter os cuidados.

De acordo com boletim epidemiológico, divulgado em 4 de janeiro, pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), há 2.073 casos confirmados e 13 mortes em comunidades atendidas pelo Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) Alto Rio Negro, localizadas nos municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos. 

São Gabriel da Cachoeira, que fica distante 850 quilômetros de Manaus, faz fronteira com a Colômbia e a Venezuela. O acesso à região é por via fluvial e aérea. Cerca de 25 mil indígenas vivem em 750 comunidades de 11 terras indígenas. Para o atendimento na pandemia da Covid-19, a população tem acesso apenas ao Hospital de Guarnição do Exército, que não tem Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Atendimentos de alta complexidade são feitos em Manaus, que já está com as unidades lotadas. 

Indígenas teriam “benzido” o local, diz enfermeira

Pajé Yanamomi abraça prefeito Curubão (Foto PMSGC/01/01/2021)

De acordo com Maria Adelaide da Silva Amorim, enfermeira da coordenação Covid-19, a cerimônia de posse de Clóvis Curubãofoi planejada para ser realizada em um lugar amplo e aberto e foram seguidos todos os protocolos de distribuição de uso de máscara e álcool em gel.

Segundo ela, uma equipe da saúde trabalhou com a triagem para identificar se havia pessoas com sintomas. Ao ser questionada sobre os momentos em que as autoridades aparecem sem máscaras, ela afirmou que “foi em alguns rituais que eles precisam provar ervas.” Além disso, por terem benzido o local, disse ela, os indígenas creem que estão protegidos de qualquer negatividade. 

“Fizemos e tomamos as medidas exigidas, porém não podemos impedir qualquer ritual”, disse Maria Adelaide. “E os nossos dados mostram o número de casos positivos, e todos eles até o dia 4 sem nenhuma internação, ou gravidade. Por isso, foi decidido que seguiríamos apenas com as orientações da obrigatoriedade do uso de máscaras, uso de álcool em gel, e higiene em geral.”

Nesta quinta-feira (7), o Brasil chegou a marca de 200.498 mortes em decorrência da Covid-19. Foram infectadas pelo vírus 7.961.673 pessoas desde o início da emergência sanitária.

Festa e aglomeração em posse de prefeito (Foto PMSGC/01/01/2021)

Por: Maria Fernanda Ribeiro
Fonte: Amazônia Real

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