Prefeito de Manaus recua e desfaz “cabide de emprego” na área cultural

Prefeito de Manaus recua e desfaz “cabide de emprego” na área cultural
David Almeida volta a protagonizar episódio de favorecimento, mas classe artística de Manaus pressiona para acabar com nomeações de ex-vereadores
(Foto: Dhyeizo Lemos/Semcom)

A pressão da classe artística de Manaus obrigou o prefeito David Almeida (Avante) a voltar atrás nas nomeações de três ex-vereadores para cargos na Fundação Municipal de Cultura, Turismo e Eventos (ManausCult). Na tarde de quinta-feira (21), o político anunciou em entrevista coletiva que iria recuar da medida, fortemente bombardeada pela mobilização #CulturaNãoéCabide. “Eu vou dar uma notícia de primeira mão: o secretário de Cultura, Alonso Oliveira, me pediu para tornar sem efeito as nomeações de três ou quatro pessoas, eu vou atendê-lo”, afirmou Almeida.

Os artistas dizem que os ex-vereadores não têm afinidades com o setor e foram nomeados sem um debate amplo com artistas, técnicos e colaboradores da categoria. “Julgamos inapropriadas as nomeações de ex-vereadores que não se (re) elegeram em 2020 para cargos na referida secretaria”, disse em carta aberta Francis Madson, presidente da Federação de Teatro do Amazonas (Fetam).    

Na coletiva, o prefeito garantiu que não sabia das nomeações. “Olha, estou trabalhando tanto que não tenho tempo de perguntar nomes, não dá, não dá”, disse Almeida. Mas é ele quem assina o decreto publicado na quarta-feira (20) no Diário Oficial do Município (DOM) que traz as nomeações dos ex-vereadores derrotados nas últimas eleições.

O prefeito havia convocado a coletiva para falar sobre a suspensão da vacinação contra a Covid-19 depois de denúncias de servidores privilegiados que furaram a fila do grupo de prioridade, caso que está sendo investigado pelo Ministério Público Federal e o Tribunal de Contas do Estado (TCE).

Os ex-parlamentares são Reizo Castelo Branco (PTB), que teve 1.779 votos, como diretor do Departamento de Difusão Cultural da ManausCult, Carlos Portta (PSB), que obteve 946 votos, como gerente do Café Teatro, e Elias Emanuel (PSDB), derrotado com 3.646 votos, que seria diretor da área de Políticas Setoriais. Os três cargos são da categoria DAS-3 e têm salário de R$ 6.615.

Os ex-parlamentares foram colegas de legislação do atual secretário de Cultura, o ex-vereador Alonso Oliveira, que é do mesmo partido do prefeito, o Avante. Oliveira também não tem afinidade com a área cultural. Advogado trabalhista, ele é ex-superintendente da Superintendência Estadual de Navegação, Portos e Hidrovias (SNPH). David Almeida anunciou a indicação do secretário antes de assumir o cargo de prefeito, em 22 de dezembro. O salário de secretário é de R$ 15.000.

O prefeito de Manaus, David Almeida também nomeou Tarciana Marques Evangelista de Almeida, esposa do vice-governador do Amazonas, o defensor público Carlos Almeida, para o cargo de Diretora da Casa Civil do Município, ganhando um DAS-4 com salário deR$ 8.000. Durante as eleições municipais, Carlos não declarou oficialmente o apoio a candidatura de David Almeida.

O vice-governador é um dos investigados na Operação Sangria da Polícia Federal. A ação investiga crimes como fraude à licitação, desvio de recursos públicos e lavagem de dinheiro na compra de 28 respiradores importados por uma empresa de vinhos para tratar doentes de Covid-19 nos hospitais públicos do estado.

Pressão por exoneração 

Print da mobilização #CulturaNãoÉCabide

Além da Federação do Teatro do Amazonas (Fetam), os artistas pressionaram pelas exonerações dos ex-parlamentares postando notas de repúdio nas redes sociais. O segmento do hip hop classificou as nomeações dos ex-vereadores como “apadrinhamento” de cargos na ManausCult.

O movimento Mobiliza Manaus pediu que as novas indicações sejam debatidas com a classe e a elaboração do Novo Plano Municipal de Cultura.

O cineasta César Nogueira postou em sua rede social questionamentos ao prefeito David Almeida: “Quais foram os critérios dessas escolhas? Que competências técnicas eles têm para desempenhar as novas funções? Qual a relação deles com a cena cultural manauara?”

O Coletivo Difusão, organização que produz audiovisual, também se pronunciou. Elisa Maia, produtora cultural, disse que “esses postos ocupados por Reizo Castelo Branco, Elias Emanuel e Carlos Portta significa: política de balcão. Porque são pessoas acostumadas a fazer esse tipo de política e isso nos preocupa, são cargos que exigem sim uma vivência e um relacionamento com a classe artística”.

Michelle Andrews, também do Coletivo Difusão, integrante do Psol, considerou negativas as escolhas dos ex-vereadores, assim como a falta de diálogo do prefeito de Manaus com a classe, que, no momento, está envolvida com projetos da Lei Aldir Blanc. “Boa parte desses políticos não tem proximidade com o setor, não fomentam a cultura no histórico deles, não tem vivência e interação com o movimento cultural, como deveria ter. Então esses cargos são cabides políticos”, disse.

O que dizem os exonerados Segundo a Prefeitura de Manaus, as exonerações dos ex-parlamentares devem ser publicadas nesta sexta-feira (22) no Diário Oficial do Município. Conforme a assessoria de imprensa, o secretário Alonso Oliveira está mantido no cargo de presidente da Fundação ManausCult. Os outros ex-vereadores demitidos se adiantaram e postaram nota pública nas redes sociais. Eles justificaram que ajudaram o setor cultural com emendas para vários projetos.

O ex-vereador Reizo Castelo Branco disse que foi convidado pelo secretário Alonso Oliveira para o cargo de diretor do Departamento de Difusão Cultural da ManausCult. “Deixo o cargo à disposição para me dedicar na luta contra o Covid-19 e estarei sempre pronto para novos projetos para servir a população”.

O jornalista e ex-vereador Elias Emanuel também usou as redes sociais para falar da exoneração. “Houve uma grita muito grande por parte dos artistas e intelectuais. Não estou aqui para ser empecilho no canal de comunicação entre o prefeito David Almeida que está começando a gestão dele no meio de uma pandemia e qualquer categoria. Por isso, prefeito, muito obrigado pela oportunidade, mas deixo o cargo à disposição”, disse.

O humorista e ex-vereador Carlos Portta comunicou seu desligamento da ManausCult em sua rede social dizendo que “não tive e não tenho interesse em causar constrangimento à secretaria que tanto ajudei no setor cultural com emendas para vários projetos. Agradeço a oportunidade ao secretário Alonso e coloco o cargo à disposição”, afirmou.

Por: Nicoly Ambrosio
Fonte: Amazônia Real