Caos na Pandemia: haitianos desistem do Brasil

Caos na Pandemia: haitianos desistem do Brasil
Sem perspectivas de emprego, imigrantes iniciam movimento de retorno e enfrentam dificuldades na fronteira com o Peru. (Alexandre Cruz Noronha/Amazônia Real)

O sonho de viver no Brasil se foi. Mas haitianos e outros imigrantes, a maioria africanos, enfrentam agora o pesadelo de não poder sair do país. Dez anos depois de cruzarem a ponte sobre o rio Acre, na divisa com o Peru, eles desistiram de refazer a vida em uma nação mergulhada em crises, onde já não conseguem arrumar trabalho ou ganhar o suficiente para o sustento. “Vou embora do Brasil porque o dinheiro é pouco”, resume o haitiano Wislet Jules, 43 anos, que ainda assim se sente grato pela acolhida em sua chegada. “O Brasil recebe todo imigrante. Dá comida e cama. Não temos problemas aqui.”

Mas gratidão não garante a sobrevivência quando as contas não fecham. Jules morou os últimos sete anos em Cuiabá, capital do Mato Grosso. Realizando serviços gerais, ele conseguia receber apenas para sustentar mulher e filhos. Só que nos últimos três anos os trabalhos se tornaram escassos. “Eu pagava 450 reais de aluguel, mais as contas de água e luz e para comer. Não tinha dinheiro para mandar para os filhos que ficaram no Haiti”, afirma. 

Essa história tem poucas variações para cada uma das quase 400 pessoas que estão no município acriano de Assis Brasil, na fronteira com a província de Iñapari, em Madre de Dios, no Peru. O movimento de retorno dos imigrantes se iniciou há cerca de três meses, conforme as coisas foram se tornando mais difíceis no lado brasileiro. 

Se antes o Acre era a porta de entrada, agora virou a de saída. Mas por conta da pandemia da Covid-19, o governo do Peru decidiu fechar as fronteiras para os imigrantes. Policiais e soldados do Exército do país vizinho bloqueiam a entrada de estrangeiros na margem direita do rio Acre – mesmo que seja apenas para uma breve passagem. “Nós não queremos ficar no Peru, queremos apenas passar”, garante um jovem de Guiné-Bissau que passou a morar na ponte.

Durante três dias, a reportagem da Amazônia Real acompanhou o drama dos imigrantes que tentam sair do Brasil. No dia 16 de fevereiro, houve um confronto entre os imigrantes e as forças de segurança do Peru. Cansados após estarem três dias no relento sobre a ponte, eles tentaram furar o bloqueio formado por escudos e cassetetes. 

Numa luta desigual, eles acabaram sendo empurrados de volta para o Brasil. Com os corpos marcados por hematomas, os olhos vermelhos por conta do gás lacrimogêneo, mulheres e crianças também vítimas de agressão – alguns ensanguentados e outros caídos ao asfalto exauridos pelo confronto -, os imigrantes voltavam ao pesadelo de viver os dias ao sol, à chuva, aos mosquitos, além do risco de serem infectados pelo novo coronavírus, na ponte da Integração.

A grávida haitiana Maria*, de 36 anos, foi ferida no braço direito por um golpe de cassetete. Ela e o marido tentam atravessar a fronteira com nove crianças. Cinco são de Maria e os outros quatro do primeiro casamento do marido. Antes de morar na ponte, os dois trabalhavam em Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul, como diaristas. Juntos, eles conseguiam uma renda de até 2 mil reais.  Mas o dinheiro passou a ser insuficiente para fechar o mês. 

“O que a gente ganhava só dava para pagar aluguel, para comer, pagar a luz e a água. Nós estamos procurando um futuro melhor. Não é porque o Brasil é ruim que estamos mudando. Os brasileiros também estão saindo em busca de um lugar melhor. Nós vamos sair com muito respeito, e se lá não der certo vamos voltar. Amo o Brasil de coração”, diz Maria, que pretende chegar ao México. 

O eletricista haitiano Abel*, de 23 anos, morava em Guarulhos, interior de São Paulo, e trabalhava na capital paulista. Todos os dias só de transporte gastava 15 reais, entre ônibus e metrô. Ele e a mulher – uma haitiana que conheceu no Brasil –  vivem no país há três anos. Nesse período, ela nunca conseguiu trabalho. “O dinheiro que ganhava era só para sobreviver. Não sobrava nada para gente ter uma vida social, passear, ir a um shopping. Era só para pagar as contas e comer. Não conseguia nem enviar uma ajuda para minha mãe no Haiti”, relata. 

Sem conseguir trabalhos nos últimos anos, o marfinense Soro Drissa, de 40 anos, quer chegar ao Canadá. No Brasil, ele trabalhava como ajudante de pedreiro. Sua mulher, já mãe de duas meninas, está grávida. O casal não sabe quanto tempo vai levar até um destino final, nem em qual país nascerá o próximo filho.  

Drissa e a mulher emocionaram a todos que acompanharam aquela terça-feira (16) de batalha na fronteira. A mulher não se sentiu bem e se deitou na rua.  Ao encontrar a mulher quase desacordada, ele se agarrou a ela, beijando a barriga. A cena não sensibilizou o comandante da operação peruano, que ordenou aos soldados para tirá-lo à força dali, agarrado pela blusa e calça. 

O acampamento na tríplice fronteira

Na tríplice fronteira Bolpebra (Bolívia, Peru, Brasil), os imigrantes haitianos e africanos convivem de forma harmoniosa em meio a uma Torre de Babel de dialetos e línguas diferentes. As diferenças religiosas também são respeitadas. Cinco vezes por dia, os imigrantes mulçumanos fazem suas orações. No lugar do tapete, lonas são usadas para ficar de joelho e levar a cabeça ao chão; às vezes, é no asfalto mesmo.  

A única coisa que carregam são mochilas e malas com roupas. No momento em que conseguiram romper o bloqueio policial na manhã do dia 16, os imigrantes saíram em disparada para o outro lado da fronteira, levando apenas as bagagens. Deixaram tudo para trás, incluindo as barracas de camping que eram suas moradias improvisadas. Nas muretas e hastes da ponte binacional, lençóis e colchões estavam estendidos para secar após uma madrugada inteira de chuva do “inverno amazônico”. Naquele dia não fazia sol, apenas muito mormaço com um céu carregado com nuvens de chuva.  

Enquanto os imigrantes estavam em confronto com os policiais peruanos pelas ruas de Iñapari, os funcionários da limpeza de Assis Brasil colocavam em um caminhão tudo o que estava na ponte. Além das barracas e lonas, ficou o lixo das marmitas das refeições oferecidas nos dias anteriores. De volta ao solo brasileiro, uma vez mais levantaram as lonas que sobraram para servir de abrigo. 

Do outro lado, outra imigrante não resistiu à fadiga do confronto e caiu ao chão da ponte. Sem a mínima noção do que se passava naquele momento, o seu filho (aparentando menos de dois anos), tentava reanimá-la. Logo depois, uma ambulância levou mãe e filho para o hospital de Iñapari. Assim que ela recebesse alta médica, os dois seriam deportados para o Brasil. O mesmo aconteceu com todos os que tinham ficado do lado peruano após a barreira na ponte ter sido recomposta. Transportados  na carroceria de uma picape e em ônibus da polícia, regressavam ao Brasil.

Com barracas e lonas no lixo, a única opção era ir para os abrigos oferecidos pela prefeitura em Assis Brasil. Da sede urbana do município até a ponte há uma distância de oito quilômetros. As escolas transformadas em abrigos são o local mais seguro para mulheres e crianças. Lá, recebem alimentação e água potável. Mas muitos preferiram continuar ocupando a ponte como forma de resistência para impedir a passagem de veículos de carga. Nos poucos minutos em que a ponte esteve liberada, os caminhões parados nos dois lados da fronteira conseguiram seguir viagem.

Uma tenda foi colocada pela prefeitura brasileira na cabeça da ponte. Já mais à frente, perto do limite da fronteira, outras barracas foram abertas e as lonas estendidas. Do lado de lá, perfilados em formação, os policiais peruanos continuam de prontidão 24 horas, agora afastados dos imigrantes por uma barricada. Chova ou faça sol, eles não se movem nem um instante. 

O envio da Força Nacional

Imigrantes andam na estrada debaixo de chuva
(Foto: Alexandre Cruz Noronha/Amazônia Real)

Em 2011, a Rodovia Interoceânica passou a ser usada pelos imigrantes haitianos como a forma mais fácil de se chegar ao Brasil. Depois de a ilha caribenha ter sido destruída pelo terremoto de 2010 – com milhares de mortos e sua infraestrutura destruída – o Haiti entrou em colapso social e econômico, aprofundando ainda mais a já grave situação de pobreza na ilha.

À época, o país mais pobre das Américas era ocupado pela Minustah, as forças de segurança impostas pela Organização das Nações Unidas (ONU) por conta da instabilidade política provocada pela disputa de poder no Haiti. A admiração do povo haitiano ao Brasil era anterior a esse período, mas a presença das tropas militares brasileiras fez o país se tornar a principal referência para quem queria emigrar. 

Dispondo de uma estrada e ponte que o conectava ao Peru, o Acre passou a ser a porta de entrada dos imigrantes para o Brasil, após passarem por Colômbia, Equador e Peru – e, às vezes, Bolívia. Entre 2011 e 2014 o Acre viveu a mesma crise migratória de hoje. 

Uma reportagem da Amazônia Real mostrava que, em 2014, cerca de 40 mil haitianos já haviam entrado no país pelos estados do Acre e do Amazonas em viagens que iniciaram na capital Porto Príncipe, passando pela República Dominicana, Equador, Peru e Bolívia. Cidades de fronteira como Assis Brasil e Brasileia, no Acre, chegaram a ter milhares de imigrantes espalhados por abrigos, casas alugadas e hotéis. Em 2014, 2.500 pessoas dividiam espaço para 400 num abrigo de Brasileia.

Agora a rota de migração se inverteu. Mas agora em 2021, em meio à pandemia do novo coronavírus, a situação não é nada tranquilizadora e as aglomerações preocupam muito mais. Os hospitais do Acre estão superlotados com a explosão no número de pessoas acometidas pela Covid-19. A ocupação de leitos de UTI está perto dos 100%.

A prefeitura de Assis Brasil diz não ter recursos suficientes para bancar os custos de auxílio aos imigrantes, e pede que o governo federal assuma  a sua responsabilidade. No último dia 18, o governo Jair Bolsonaro decidiu enviar a Força Nacional de Segurança para o Acre, uma forma de evitar a chegada de mais imigrantes na região de fronteira. Teme-se que ocorra um fluxo incontrolável de retorno.

Do outro lado, o Peru não faz cerimônia em permitir que levas de imigrantes venezuelanos saiam do país e entrem no Brasil. Se o Peru está com as fronteiras fechadas, o mesmo não acontece com a Bolívia e o Brasil. Entre as cidades de Brasileia e Epitaciolândia, no Acre, com a vizinha Cobija, capital do departamento boliviano de Pando, o trânsito de veículos e pessoas flui normalmente. Oficialmente, as fronteiras terrestres do Brasil estão fechadas, mas pessoas de qualquer nacionalidade entram sem dificuldades. Até meses atrás o Exército mantinha barreiras fixas nas faixas fronteiriças, o que não se vê mais.

Na atual crise de pandemia e fluxo migratório, o governador do Acre, Gladson Cameli (PP), solicitou ao Ministério das Relações Exteriores o fechamento das fronteiras do Acre com a Bolívia e o Peru. Enquanto o Peru envia tropas para impedir a entrada de não-nacionais em seu território, no Brasil não há o mesmo controle. Apesar de não ser atribuição estadual, o governador enviou o Grupo Especial de Fronteira (Gefron) para patrulhar as regiões de limite com os países vizinhos.

Há também a presença da Polícia Federal e da Força Nacional em Assis Brasil. Às vezes, patrulhas do Exército brasileiro vão até a ponte observar a situação, depois regressam para o Pelotão Especial de Fronteira (PEF) do município. 

A arriscada travessia ilegal

Na região de Iñapari, na fronteira com o Brasil, um grupo de pessoas barradas (Foto: Alexandre Cruz Noronha/Amazônia Real)

Assis Brasil está separada de Iñapari pelo rio Acre, que é o divisor natural dos limites territoriais entre Brasil, Bolívia e Peru. Nos meses de estiagem da região, quando as chuvas ficam escassas, é possível ir de um lado ao outro da fronteira atravessando o rio a pé, com o surgimento de bancos de areia no meio do leito e praias que quase se interligam. O cenário nos meses de inverno amazônico é o oposto. O rio enche e é tomado por uma forte correnteza.

A travessia, então, só pode ser feita por embarcações – as chamadas catraias. Para ir de um lado ao outro os catraieiros cobram 5 reais por pessoa. Se for imigrante o preço vai para 40 reais. Ao chegar ao Peru, eles caem nas mãos dos coiotes, pessoas que se dispõem a facilitar a imigração ilegal nas fronteiras. Pela promessa de chegar até a Puerto Maldonado, capital do departamento de Madre de Dios, o imigrante precisa pagar 200 dólares. Parte desse dinheiro, afirmam fontes ouvidas pela reportagem da Amazônia Real, serve para subornar policiais que ficam em três bases entre Iñapari e Puerto Maldonado, separadas a 225 quilômetros pela Rodovia Interoceânica.

Há 15 dias em Assis Brasil, o senegalês Nicolas* disse ter pago 400 dólares a um coiote peruano para ele e a mulher. Outras 25 pessoas embarcaram em um caminhão em Iñapari após atravessar o rio Acre de catraia e andar alguns minutos dentro da mata. Já perto de Puerto Maldonado, o caminhão foi abordado e os imigrantes descobertos. Todos foram deportados para o Brasil.

“Eu perdi 400 dólares. Era uma boa parte do dinheiro que tinha economizado para a viagem. Agora estou aqui tendo que gastar ainda mais dinheiro para sobreviver com a família sem saber quando vão liberar nossa passagem”, afirma Nicolas. Ele morava em Joinville, Santa Catarina, onde trabalhava como pedreiro.

Evens Casimir, 27 anos, que perdeu mil dólares (Foto: Alexandre Cruz Noronha/Amazônia Real)

Além de perderem dinheiro para os coiotes, muitos dos imigrantes tiveram seus dólares tomados pela polícia peruana durante o confronto de terça. O jovem haitiano Evens Casimir, 27 anos, diz ter sido deportado para o Brasil sem os 1.000 dólares que economizou para viajar. Ele foi um dos detidos pela polícia em Iñapari. “A gente estava lá na fronteira do Peru. A polícia pegou a minha carteira que tinha mil dólares e meu CPF, e me deixaram aqui no Brasil. E agora para onde a gente vai, o que a gente vai comer agora?”, indaga ele, desconsolado. 

Evens Casimir, primeiro imigrante com quem a Amazônia Real conversou ao chegar em Assis Brasil no dia 15 de fevereiro, trabalhava como entregador em São Paulo. Apesar de ser solteiro e não ter filhos, afirma que já não dava para se manter com o salário nem enviar dinheiro para os pais no Haiti. “O real está muito desvalorizado. Quando a gente envia dinheiro para a família fica muito pouco em dólar. Está ruim a situação.” 

A violência da polícia peruana

Joaninha Honório Madeira, missionária da Rede Itknersnte da Repam (Foto: Alexandre Cruz Noronha/Amazônia Real)

“O que estamos vivendo aqui, realmente, é uma coisa cruel. Atinge o coração da humanidade. As pessoas sendo tratadas como coisas, como lixo, e aqui no Peru é a primeira vez que estamos vendo isso. Realmente é uma coisa cruel.” A frase é da missionária Joaninha Honório Madeira, da Ordem da Imaculada Conceição. Conhecida como irmã Joaninha, ela integra a Rede Eclesial Pan-Amazônia, cujo trabalho é oferecer assistência social e religiosa aos moradores das comunidades urbanas, ribeirinhas e indígenas da tríplice fronteira. 

Ao lado de outras lideranças católicas, ela ficou na linha de frente dos escudos e bombas lançadas pela polícia peruana. “A polícia foi extremamente violenta.  Antes nós só ouvíamos dizer que era violenta, mas ontem (16 de fevereiro) nós vimos. Quase apanhamos também. O primeiro bloco [de imigrantes que furou o bloqueio] foi tratado com muita violência. Três mulheres gestantes foram parar no posto de saúde”, afirma. 

Para a missionária católica, os imigrantes haitianos e africanos sofrem ainda pelo racismo. De acordo com a irmã Joaninha, imigrantes de países como Venezuela, Colômbia e Cuba conseguem transitar de um lado para o outro da fronteira. “Estamos testemunhando um racismo aqui na fronteira. Pessoas de vários países passam. Venezuela, Cuba, Brasil. Chile, Argentina. Todos passam. Agora quando é haitiano ou africano a situação é diferente e acabam caindo na mão de exploradores”, relata.  

A missionária lembra que pessoas de qualquer outra nacionalidade pagam 5 reais ou soles (a moeda peruana) para atravessar o rio Acre. Já haitianos e africanos precisam desembolsar 50 dólares, mais os 200 dólares para chegar até Puerto Maldonado. Numa viagem comum, a passagem em vans de Iñapari até a capital de Madre de Dios custa 40 soles – o equivalente a 15 dólares. Do lado brasileiro os imigrantes também são vítimas da extorsão de taxistas. Na curta viagem entre a entrada de Assis Brasil até a ponte binacional, chega-se a pagar até 100 reais num percurso inferior a oito quilômetros. 

“É uma exploração. A fronteira virou um ganha dinheiro a partir do sofrimento humano. Estamos procurando onde denunciar isso. Com o fechamento da fronteira, o rio se tornou a solução para atravessar. Estão explorando os haitianos por conta da cor da pele. A gente está vendo isto a olho nu”, diz a missionária Joaninha. 

Por: Fabio Pontes
Fonte: Amazônia Real

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