“A Amazônia deve viver”: fotógrafo Sebastião Salgado volta para a floresta em seu novo livro

  • O fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado viajou pela Amazônia durante seis anos para capturar a natureza e as pessoas da maior floresta tropical do mundo, agora retratada em seu novo livro: “Amazônia”.
  • Salgado, um dos fotógrafos documentaristas mais respeitados do mundo, voltou à região quatro décadas depois de ganhar fama fotografando a Serra Pelada e seus milhares de garimpeiros.
  • O livro é também um grito de preservação do que resta da Amazônia: “Meu desejo é que dentro de 50 anos este livro não seja o registro de um mundo perdido”, diz Salgado.
Capa do livro Amazônia, publicado pela Taschen em maio, à venda por US$ 150 (capa dura, 35,8 x 26 cm, 4,19 kg, 528 páginas).

O fotógrafo Sebastião Salgado, que já registrou pessoas e paisagens em mais de 100 países, voltou à maior floresta tropical do mundo para realizar seu último livro, Amazônia. A obra é uma homenagem à beleza da região e, ao mesmo tempo, um grito por sua preservação.

Salgado, hoje com 77 anos, viajou pela Amazônia durante seis anos para retratar árvores, rios, montanhas, florestas e pessoas em fotografias preto-e-branco, numa tentativa de capturar o coração e a alma de uma região que, para muitos segue desconhecida.

“Para mim, é a última fronteira, um universo misterioso próprio, onde o imenso poder da natureza pode ser sentido como em nenhum outro lugar da Terra”, escreve Salgado no prefácio. “Aqui está uma floresta que se estende até o infinito e contém um décimo de todas as espécies de plantas e animais vivos, o maior laboratório natural do mundo.”

Ao longo de mais de 500 páginas, Amazônia apresenta uma vasta seleção de imagens, de imagens aéreas a retratos intimistas, que, graças ao olhar de Salgado para a luz e os detalhes, transformam-se em registros de qualidade atemporal.

Homens Zo’é na Terra Indígena Zo’é, no Pará. Foto: Sebastião Salgado.

Em uma das páginas, vemos o Rio Maiá serpenteando pela terra como uma veia de prata, sombreado por formações de nuvens imponentes que descarregam uma coluna de chuva que, de longe, parece maciça. A Amazônia evapora tanta água que chega a produzir os chamados rios aéreos, trazendo chuva e vida às populações e terras a milhares de quilômetros de distância.

Uma parte importante do livro é dedicada à vida, costumes e rituais de uma dúzia de povos amazônicos, incluindo os Yanomami, Asháninka, Yawanawá, Zo’é, Korubo, Marubo e Awá, dando nomes e rostos às pessoas da floresta, essas que são frequentemente reduzidas a genéricos e anônimos “índios”.

Assim conhecemos Ino Tamashavo, uma jovem Marubo coberta de colares feitos de caracóis brancos, segurando um filhote de ave que ela criará como animal de estimação. Já os caçadores Pinu Vakwē Korubo e Xuxu Korubo posam atrás de dois bugios recém abatidos com suas zarabatanas.

Também vemos Yara Asháninka e Bela Yawanawá, jovens que vivem no Acre. Enquanto a primeira usa apenas algumas penas em seu cabelo e tem desenhos modestos pintados em seu rosto, o que indica que ela ainda não está comprometida, a segunda pintou uma máscara negra ao redor de seus olhos e usa uma enorme cabeça de penas que chega até sua cintura.

Pinu Vakwë Korubo, à esquerda, e Xuxu Korubo posam com uma jacutinga e dois bugios que mataram utilizando dardos envenenados na Terra Indígena Vale do Javari, no estado do Amazonas. Foto: Sebastião Salgado.

Mais de 40 anos fotografando o mundo

Salgado nasceu em 1944 em Aimorés, no sudeste de Minas Gerais. Formou-se em economia antes de viajar para Paris, em 1969. Sua esposa, Lélia Wanick, passou a estudar Arquitetura, enquanto ele conseguiu um emprego no Conselho Internacional do Café, que o levou regularmente para a África.

Foi lá, com a antiga câmera Leica de Lélia, que Salgado descobriu sua verdadeira paixão: a fotografia. Embora já tivesse 33 anos, ele decidiu seguir seu coração e desistiu de seu emprego para tentar se tornar um fotógrafo em tempo integral.

A escolha provou ser um sucesso. Em pouco tempo, ele estava tirando fotos para agências como Gamma e Sygma e, em 1979, foi convidado a se tornar membro da Magnum, a lendária cooperativa de fotógrafos fundada por profissionais como Robert Capa e Henri Cartier-Bresson.

Os primeiros livros de Salgado tratavam do Sahel africano, da América Latina e dos trabalhadores manuais do mundo, mas ele realmente atingiu a fama com um projeto ambientado na Amazônia: Serra Pelada, o maior sítio de garimpo a céu aberto do mundo, onde dezenas de milhares de homens cobertos de lama passaram anos embrenhados em uma enorme cratera na esperança de encontrar ouro.

Em 2013, Salgado publicou aquela que é tida como sua obra-prima: Gênesis. O resultado de uma viagem de oito anos por todos os cantos do globo para redescobrir montanhas, desertos, oceanos, animais e pessoas que de alguma forma escaparam das garras da sociedade moderna e ainda mostram um vislumbre da vida como ela, talvez, já foi um dia.

Como Salgado disse a respeito do livro, “cerca de 46% do planeta ainda é como era na época do Gênesis. Devemos preservar o que existe”. Amazônia nasceu e foi registrado com o mesmo viés dessa obra.

Tempestade no Parque Nacional da Serra do Divisor, no Acre. Foto: Sebastião Salgado.

4 milhões de árvores plantadas na fazenda da família

Salgado não é religioso. No entanto, profundamente convencido de que todas as criaturas da Terra são iguais, ele é um humanista e um ambientalista tanto dentro como fora de seu trabalho.

“Cada movimento no braço da iguana é o mesmo que temos em nosso braço – eu me identifico com a iguana como minha prima. Todos nós viemos das mesmas células. Em um momento foi possível ser uma iguana e a iguana ser eu”, disse sobre seu retrato de 2004 de uma iguana marinha nas Ilhas Galápagos.

Em 1998, ele e Lélia retornaram à fazenda de seu pai em Aimorés, um municipio de cerca de 25 mil habitantes no Vale do Rio Doce, em Minas Gerais. Como tantas outras pessoas da região, seu pai criou gado. Os anos de sobrepastoreio tinham erodido fortemente o que há 150 anos ainda era uma parte muito verde da Mata Atlântica.

Foi ideia de Lélia tentar trazer a terra de volta à sua antiga glória. Assim nasceu o Instituto Terra. Em 1999, eles plantaram as primeiras sementes de cerca de 300 espécies diferentes de árvores. Hoje, mais de quatro milhões de árvores foram cultivadas, metade das quais formam uma floresta que cobre a maior parte da terra da família Salgado. A outra metade foi vendida para gerar renda.

Ao visitar o Instituto Terra encontra-se uma vegetação exuberante, pássaros e riachos onde há 23 anos havia apenas terra árida. Embora seja animador saber que a regeneração é possível, Salgado diz esperar que ela nunca seja necessária para a Amazônia.

“Meu desejo, com todo o meu coração, com toda a minha energia, com toda a paixão que tenho, é que daqui a 50 anos este livro não seja o registro de um mundo perdido”, ele diz sobre Amazônia, livro que dedicou aos povos indígenas da floresta tropical. “A Amazônia deve viver.”

Por: Peter Speetjens
Fonte: Mongabay