“A Amazônia não é só floresta. É água. É ar. São povos originários atacados de maneiras muito diversas”, diz dom Leonardo Steiner

No domingo (29/5), o Papa Francisco nomeou 21 novos cardeais da Igreja Católica, dentre eles, o primeiro cardeal da história da Amazônia. Ele elevou o arcebispo de Manaus, Dom Leonardo Steiner, a primeiro cardeal da Amazônia brasileira. É o último cargo na hierarquia da Igreja Católica antes do de Pontífice.  

No anúncio feito pelo Papa, no Vaticano, dentre os nomeados a cardeal, também está o do arcebispo de BrasíliaDom Paulo César. A cerimônia de criação dos novos cardeais está prevista para agosto deste ano. 

Entre os vários “assédios” da imprensa brasileira e mundial por uma entrevista com dom Leonardo Ulrich Steiner, nesse domingo, o Jornal Brasil Popular conseguiu uma brecha. Ele dedicou 1 hora do seu tempo, depois das 22h, a uma breve entrevista especial. 

Desde a hora em que foi nomeado, e de agora em diante, ele será o centro das atenções do planeta, afinal, foi nomeado primeiro cardeal da história da Igreja Católica na região no momento nebuloso, em que a Amazônia está sendo mais do que nunca ultrajada, dilapidada, exaurida e atacada de todas as formas por neofascistas neoliberais e fundamentalistas religiosos brasileiros e estrangeiros. 

O desafio do novo cardeal será enfrentar a fúria das quadrilhas organizadas que devastam a Amazônia sob os auspícios do governo federal. Talvez a tarefa mais difícil seja a de materializar as propostas do Papa Francisco descritas no documento intitulado “Laudato Si” e em outros nos quais o Vaticano trata da Amazônia. 

Dom Leonardo tem uma longa trajetória na região, mas só tomou posse como arcebispo de Manaus em janeiro de 2020. Ele assumiu o cargo que Dom Sergio Castriani ocupava desde 2013. Antes disso, atuou como chefe da Igreja Católica local e como bispo auxiliar de Brasília. Foi, por duas vezes, secretário-geral da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Nasceu em 6 de novembro de 1950, em Forquilhinha, Santa Catarina, na diocese de Criciúma. 

Sua profissão de fé religiosa foi feita na Ordem dos Frades Menores, em 2 de agosto de 1976, e foi ordenado sacerdote em 21 de janeiro de 1978. Estudou Filosofia e Teologia nos Franciscanos de Petrópolis. Bacharel em Filosofia e em Pedagogia pela Faculdade Salesiana de Lorena, obteve a licenciatura e o doutorado em Filosofia na Pontifícia Universidade Antonianum de Roma. 

Quarenta e quatro anos após ser ordenado padre, ele chega, em 2022, ao penúltimo grau na hierarquia da Igreja Católica. Steiner é daqueles sacerdotes católicos que buscaram seguir, na medida do possível e com suas próprias características, a trajetória de outros grandes nomes da instituição, os seus contemporâneos Dom Pedro CasaldáligaDom Evaristo ArnsDom Tomás Balduíno

Apesar de se dedicar há anos à ação da igreja na Amazônia, ele diz que, agora, sendo cardeal, será os olhos e a voz do Papa Francisco na região. Não promete o impossível e nem fala em milagres. Mas garante que haverá muita luta em defesa da região e, sobretudo, dos povos originários. 

“O que posso assegurar é que tentaremos levar adiante a proposta do Papa Francisco na Laudato Si – um texto belíssimo, muito importante, mas também no texto do Papa sobre a Amazônia. Nós, bispos da Amazônia, estamos comprometidos com esses dois documentos importantes, os quais têm recebido um acolhimento muito bom das entidades que se preocupam com o meio ambiente, com as culturas e com os povos originários”, afirma 

Conheça, nesta entrevista exclusiva para o Jornal Brasil Popular, um pouco da missão do primeiro cardeal da Amazônia, que pede aos meios de comunicação, especialmente aos jornais, que “ajudem a levar a verdade das coisas e não se deixarem levar pelas afirmações genéricas, mas que realmente mostrem a realidade porque precisamos de cuidar do que é nosso”.

A entrevista é de Carla Lisboa, publicada por Jornal Brasil Popular, 31-05-2022.

Eis a entrevista.

Qual a importância do nome do senhor para o cargo de cardeal neste momento em que a Amazônia e seus milhares de povos vêm sofrendo todo tipo de ataque? 

A importância da Amazônia para o Papa tem um significado. Para o mundo, é de como cuidar do meio ambiente. Para o Papa não é só cuidar do meio ambiente, mas ele está preocupado com os povos, principalmente os povos originários que habitam esta região. Ao nomear um bispo a cardeal para a região da Amazônia significa o cuidado que ele quer ver com a Amazônia, marcar a presença dele na região, porque o cardeal é sempre aquele que é um colaborador muito próximo do Papa. 

Então, penso que minha nomeação vem mais desse cuidado do Papa em relação à Amazônia e mostrar que ele realmente deseja estar muito presente na região. E eu posso testemunhar isso porque, muitas vezes, quando estive na presença dele, a serviço da CNBB, ele sempre me perguntava pela Amazônia. 

O senhor, então, está com uma grande responsabilidade. É o primeiro cardeal da Região Amazônica e lutar pela Amazônia e seus povos não é uma missão das mais fáceis. 

Espero poder colaborar e ajudar, refletir, debater e também apontar as dificuldades. Como você diz, a região está sendo muito atacada. Mas a Amazônia não é só floresta. A Amazônia é água, é ar, são povos originários que estão sendo atacados de maneiras muito diversas. Espero dar minha colaboração e ajudar, assim, a nossa Igreja a ser cada vez mais presente e ser uma Igreja que, realmente, cuide dos povos e da região.

Como a Igreja Católica se posiciona sobre esses ataques aos ianomâmis e suas terras e, agora, com o senhor sendo cardeal, como será a ação da instituição? 

Quanto à questão da mineração e dessa exploração que está acontecendo nas terras dos ianomâmis, mas não é só nas terras deles não, existem os mundurukus, que estão sofrendo muito numa região do Pará. O rio Tapajós tem altos índices de mercúrio dos garimpos que existem por lá e, quando falamos dos povos indígenas, um dos maiores problemas hoje é justamente o problema do garimpo. Há os elevados índices de mercúrio, mas há também uma imensa devastação floresta. 

Estão encostando os povos indígenas na parede no sentido de que eles desocupem o que é deles para a exploração do ouro e outras riquezas naturais do povo brasileiro, quando nós sabemos que, para eles, a terra e a mata têm um significado de casa, de habitação. Tenho me posicionado nesse sentido e continuaremos a nos posicionar e a exigir dos governos providências, que, aliás, também, o meio jurídico tem exigido que, da parte do governo, se tenha um posicionamento. Não podemos deixar que esses povos originários pereçam dada a exploração que está acontecendo nas terras que lhes pertencem. 

A experiência como arcebispo na Amazônia possibilita ao senhor ter uma visão bem ampla dos problemas que atingem a região. O senhor citou os mundurukus e ianomanis. Existem outras populações que estão sob ataque? 

Existem sim. Mas existem problemas desse tipo que nos preocupa demais. São os ataques aos povos de recente contato, que estão na região do Alto Solimões. Naquela região, os povos de recente contato, são povos que não têm contatos com a população branca, estão sob o ataque e sendo agredidos não pelo garimpo, mas pelo avançar da pesca e dos destruidores da mata. Esses povos de recente contato querem preservar a sua cultura. 

Dentre os povos de recente contato estão aqueles povos, por exemplo, fotografados pelo fotógrafo Sebastião Salgado, os korubos. Também existe uma exploração da parte de religiões cristãs que estão lá dentro impondo aos povos uma determinada religião. A gente pode propor, pode indicar, mas não exigir, não condenar a religião deles e que eles praticam. Esses povos estão sofrendo muito e temos mais de 100 pequenos grupos de povos diferentes que estão sofrendo muito com esse ataque. O sofrimento dos povos originários não é apenas a questão do garimpo: é o avançar em cima dessas terras, fazendo com que eles se sintam cada vez mais agredidos. 

O senhor fala dos povos isolados e do sofrimento que eles têm vivido, sobretudo por causa dos ataques das igrejas cristãs neopentecostais fundamentalistas que estão devastando as suas culturas. Existem empresas e igrejas estrangeiras nesse negócio? Quais vocês já puderam verificar? 

Existem não só igrejas estrangeiras, mas muitas igrejas que se dizem cristas implantadas pelo Brasil. A Igreja Católica, graças a Deus, depois do Concílio, tomou uma outra atitude com relação aos povos originários quanto à religião. Hoje ela propõe e não impõe. Hoje ela está ao lado e não sobre os povos. Tenta entender a cultura, conservar os idiomas, os cantos, a cultura, etc. Mas isso não acontece com as demais igrejas cristãs. Isso é muito grave porque o povo que perde as suas raízes, acaba perdendo a sua identidade e, perdendo a sua identidade, fica muito mais fácil de ser dominado e acaba desaparecendo, como desapareceram, no passado, os manáos, que deram origem à cidade de Manaus. Hoje nós não os encontramos mais. 

Nesse sentido, a indicação do senhor como primeiro cardeal da Amazônia também tem o objetivo de unir esforços com outros movimentos em defesa da região, como grupos brasileiros e muitos de outros países? Qual o significado também da indicação do senhor perante os acordos climáticos? 

Não saberia dizer o quanto a minha nomeação irá influenciar. O que posso assegurar é que nós tentaremos levar adiante a proposta do Papa Francisco na Laudato Si – um texto belíssimo, muito importante, mas também no texto do Papa Francisco sobre a Amazônia. Nós, bispos da Amazônia, estamos comprometidos com esses dois documentos importantes, os quais têm recebido uma receptividade muito boa das entidades que se preocupam com o meio ambiente, mas também com as culturas e povos originários. 

Com essa indicação, é bem possível que o senhor entre na lista dos nomes da Igreja Católica e das lideranças amazônidas marcadas para morrer. Como o senhor vê essa ameaça? 

Até hoje não me preocupei com isso. Quando chegar o momento, poderei.

Aproveitando este momento especial dessa ação da Igreja de nomear o primeiro cardeal da Região Amazônica, que mensagem o senhor deseja enviar ao povo brasileiro? 

Penso que no momento é importante que os meios de comunicação mostrem o que está acontecendo na Amazônia. O que está acontecendo na Amazônia não é verdade. O que se tenta muitas vezes esconder. Por exemplo: como o agronegócio está avançando sobre a região toda do Pará, avançou demais, da pior forma possível, no sul do Estado do Amazonas, e continua a avançar. 

É muito importante os meios de comunicação, especialmente os jornais, ajudarem a levar a verdade das coisas e não se deixarem levar pelas afirmações genéricas, mas que realmente mostrem a realidade porque nós precisamos de cuidar do que é nosso. Precisamos cuidar dos povos originários. E cuidar dos demais povos que vivem na região. Cuidar não significa ser paternalista. Cuidar significa estar ao lado. Ser fraterno. Ser irmão.

Fonte: IHU On-Line