A quarta onda e o álcool na mão

Gilmar Terena, cineasta indígena e integrante da equipe do ISA em Brasília

Mais uma nova ameaça aproxima-se das populações tradicionais da nossa América Latina, desta vez descoberta na África, um continente economicamente debilitado, com pouca cobertura vacinal. Batizada de ​​Ômicron, mais uma variante da Covid-19 agora promete provocar o que alguns chamam de a quarta onda da pandemia, já gerando alerta, fechamento de fronteiras e, em alguns casos, até a volta dos famosos lockdowns. A partir dessa provável região de origem, ela sendo disseminada ao redor do mundo por viajantes, neste momento principalmente em países da Europa.

Em diversos lugares, nem todos concordam com as medidas restritivas, às vezes, resultando em uma série de manifestações violentas, como é o caso da Áustria. Já no Brasil, o alerta mundial, inclusive orientado pela OMS, não traz grandes mobilizações por parte dos nossos governos.

Consequentemente, as populações tradicionais estão novamente entre as mais suscetíveis, tendo em vista que, em sua maioria, receberam a segunda dose das vacinas disponíveis por volta de abril e maio de 2021. A priorização na vacinação de parte da população indígena ocorreu apenas após as reivindicações feitas na ação apresentada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) (ADPF 709) no Supremo Tribunal Federal (STF), em meados do ano passado, para obrigar o governo federal a viabilizar uma política efetiva de combate à pandemia entre os povos indígenas. Considerando estudos mais recentes sobre a cobertura imunológica da vacinação, essas populações já estão mais uma vez vulneráveis, somando seis meses após a segunda dose, e precisam receber uma dose de reforço. Em alguns casos, principalmente os quilombolas ainda estão recebendo a segunda dose.

Com a aproximação das festas de fim ano, muitos parentes retornam aos seus territórios de origem ou visitam outros em diversas partes do país. Sem a vacina de reforço, é possível prever uma alta significativa de casos e, principalmente, o agravamento da doença em pacientes que pouco têm acesso a hospitais com a mínima estrutura para recebê-los.

Apesar da Ômicron ser considerada por alguns especialistas uma variante de sintomas leves, o agravamento da situação pode trazer consequências catastróficas já nos primeiros meses de 2022.

Atualmente, alguns prefeitos de municípios já cancelaram o carnaval, porém, em outros, medidas como uso de máscaras e proibição de eventos em locais fechados estão sendo deixadas de lado, à medida que o fim de ano se aproxima.

As previsões não são otimistas. E ainda é forte a lembrança do ano passado, quando muitos parentes sucumbiram diante dessa doença traiçoeira. Até hoje, quem permaneceu por aqui não teve oportunidade nem de viver o luto da partida, tendo em vista o número grande de mortes em um curto espaço de tempo.

Do ponto de vista nativo, a Terra reclama de sua devastação, acelerada nos últimos tempos pelo modo de ser individualista, em comunhão com o consumo desenfreado. As pessoas parecem não questionar as estruturas impostas à nossa vivência, muitas ainda investindo somente em “lavar as mãos” com álcool em gel.

Fonte: ISA