Abismo político: pessoas pretas e pardas são minoria entre parlamentares da Amazônia Legal

Estados da região tiveram menos investimentos em candidaturas negras e cenário político se distancia da realidade

Pesquisa realizada por organizações da sociedade civil revela que quase metade dos estados da Amazônia Legal não conta com pessoas pretas como parlamentares, cenário que é efeito direto da falta de investimento em candidatas e candidatos que representam essas populações. 

A análise das eleições de 2018 mostra que, entre as nove unidades da federação que integram a região, sete tiveram mais recursos para concorrentes que se autodeclararam brancas ou brancos. Embora mais da metade da população se declare preta ou parda.

 A diferença mais significativa foi observada no Mato Grosso, onde o financiamento de candidaturas pardas representou apenas 16% do total das brancas. No Amapá e no Maranhão apenas cerca de um terço dos investimentos foram destinados para candidaturas pretas e pardas. 

Pará, Rondônia e Tocantins tiveram distribuição menos desigual de fundos para as campanhas, mas apenas no Acre e em Roraima a destinação de dinheiro foi maior para esse grupos. 

Como consequência, o resultado das eleições também está longe de representar a realidade da região. Em cinco dos nove estados, parlamentares brancas e brancos ocupam mais de 50% das cadeiras. Em Mato Grosso, esse índice chega a 79%. No Maranhão (69%), Amapá (63%), Amazonas (63%) e Pará (54%) ele também significa mais da metade.

Somente no Acre e em Roraima representantes não brancos são maioria na assembleias legislativas. Em Rondônia e Tocantins pessoas pretas e pardas representam exatamente 50% do corpo parlamentar eleito em 2018.

O abismo se amplia para as candidaturas autodeclaradas pretas. Em quatro estados, a proporção de recursos destinados concorrentes desses grupos ficou abaixo de 10%, são eles Maranhão (1%), Pará (3%), Rondônia (7%) e Tocantins (9%).

Em nenhum estado há mais de 10% das cadeiras  ocupadas por pessoas pretas. Quatro deles não elegeram representantes desse grupo: Acre, Amazonas, Mato Grosso e Roraima.

A Pesquisa foi realizada pelo Laboratório de Estudos Geopolíticos da Amazônia (LEGAL,) em parceria com o Instituto Clima e Sociedade, utilizando a base de dados do Tribunal Superior Eleitoral e Tribunais Regionais Eleitorais dos estados da Amazônia Legal, em novembro de 2021.

A cientista política Leonildes Nazar, coordenadora da Iniciativa Amazônia do Portfólio de Comunicação e Engajamento do Instituto Clima e Sociedade, afirma que é fundamental fortalecer a representação como “direito inegociável”.

 “Deve-se assegurar que nosso sistema eleitoral-partidário supere a histórica e profunda desigualdade racial e de gênero a fim de dar conta e sentido às múltiplas realidades que atravessam a vida dos/das amazônidas, e evitar perpetuar a situação da sub-representação”, ressalta.

A realidade exposta pelo estudo, na visão do historiador Douglas Belchior, “reforça aquilo que sentimos diariamente, na pele, dentro das instituições partidárias”. Cofundador da Uneafro Brasil e da Coalizão Negra por Direitos, ele alerta que as legendas políticas repetem a estrutura racista da sociedade

“Não há um partido do movimento negro no Brasil e o coletivo de partidos reproduz práticas racistas. Nós, do movimento negro, nos organizamos para pressionar essas estruturas e levar seus dirigentes a se comprometerem com a agenda do movimento negro”, conclui. 

Por: Nara Lacerda
Fonte: Brasil de Fato