Acadêmicos reivindicam uma Ufam mais indígena

Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena e Colegiado Indígena enviam carta-proposta à Reitoria pedindo mais espaço para os saberes e as tradições dos povos originários.

Acadêmicos reivindicam uma Ufam mais indígena
Acima imagem do primeiro indígena doutor em Antropologia Social, João Paulo Lima Barreto (ao centro) com o reitor da universidade, professor Sylvio Mário Puga Ferreira e Jaime Diakara Dessana, representante do Colegiado Indígena UFAM/AM (à direita) junto de outros membros da reitoria. (Foto cedida por Jaime Diakara)

Por uma Ufam (mais) indígena. Essa reivindicação já está nas mãos do reitor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Sylvio Mário Puga Ferreira, reeleito e que iniciou um novo mandato a partir de 2 de julho de 2021. Instituição de ensino superior localizada no Estado com 63 povos indígenas, falantes de  mais de 20 línguas diferentes, a Ufam está sendo cobrada a incluir, como se deve, os saberes indígenas na produção científica e não “se limitar a iniciativas periféricas”.

A demanda foi formalizada em 28 de julho junto à Reitoria da Ufam pelo Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena (Neai) e pelo Colegiado Indígena do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS). A carta-proposta põe o dedo na ferida: a universidade tem “o compromisso (e a obrigação)” de enxergar a vigorosa tradição indígena presente em seu entorno.

“A Ufam está nas aldeias. Nós queremos a aldeia presente na Ufam”, resume Jaime Diakara, do povo Desana (originário da região do Alto Rio Negro), representante do  Colegiado Indígena, doutorando em Antropologia Social. Ele explica que os pontos abordados na carta acumulam inquietações de anos, já que a Ufam nunca adotou uma filosofia indígena ou algo que contemplasse uma abertura de respeito e consideração aos povos originários.

“Esse pensamento nosso não é de ontem. Há dez anos estamos sofrendo esse preconceito indígena de não participar da elaboração de planejamentos e da inclusão de indígenas na discussão”, acrescenta Jaime Diakara, que tem como linha de pesquisa no doutorado em Antropologia Indígena da Amazônia o tema: Etnologia Indígena, Cosmopolíticas e Paisagens Amazônicas. A Ufam completou 112 anos. O Colegiado Indígena tem dez anos, e conta com 37 acadêmicos vindos de diferentes etnias e localidades da Amazônia. 

Nesse período em que os indígenas passaram a frequentar as faculdades e os institutos da Ufam, nunca houve um vestibular ou algum projeto direcionado, exclusivamente, para essa população, afirma Jaime. “As ideias que estavam na Ufam eram criar cursos profissionalizantes e formações para professores. Não queremos curso de formação, queremos espaço para a filosofia do pensamento indígena, antropologicamente.” 

O Neai da Ufam é um grupo de pesquisas que reúne professores, pesquisadores e estudantes do PPGAS em Antropologia. Uma de suas linhas de pesquisa é a antropologia indígena produzida por sujeitos indígenas, que tem gerado projetos que mostram as “maneiras de ser, viver, entender e se relacionar com o mundo”. O Neai produziu um mapeamento colaborativo das narrativas e dos relatos dos povos indígenas e comunidades tradicionais, a partir de textos e relatos em áudio sobre a pandemia da Covid-19.

Um dos membros do do Neai é João Paulo Barreto, o primeiro indígena a defender um doutorado na Universidade Federal do Amazonas, que também esteve presente na entrega do documento para o Reitor. Em 2019, no lançamento da coleção literária “Reflexividades Indígenas”, uma série de livros sobre conhecimentos do seu povo Tukano, João Paulo contou sobre a sua trajetória acadêmica e reafirmou em como a universidade tem que está aberta ao diálogo: “Toda academia tem suas regras. Estamos utilizando a antropologia como instrumento para promover o debate sobre os nossos conceitos. Isso, na medida em que somos falantes da nossa língua e de outra cosmologia; na medida, também, em que é possível entender outras lógicas. Daí, podemos dialogar”.

Museu Amazônico

Exposição no Museu Amazônico (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

As propostas da carta dos acadêmicos trazem uma reflexão sobre os diversos espaços que os indígenas poderiam estar sendo inseridos na universidade. E são medidas práticas e possíveis como criar processos de seleção para graduação e pós-graduação diferenciados a candidatos indígenas, contratação de tradutores indígenas e também indígenas para atuarem no Museu Amazônico, no Laboratório de Arqueologia da Ufam, participação de universitários indígenas nos conselhos deliberativos da universidade (Consuni, Consepe e outros) e bolsas de estudos para garantir a formação e a permanência desse alunado.

A mestranda em antropologia da Ufam Suzy Evelyn de Souza e Silva, da etnia Mura, da comunidade Murutinga, da onde vem sua família materna, espera que as propostas do Colegiado e do Neai sejam acatadas pela Reitoria, abrindo novas possibilidades para o acadêmico indígena. “O curso de antropologia tem o núcleo indígena que faz parte da estrutura do programa, e tem os colegiados como parte das políticas afirmativas e o que se espera agora é ter uma participação mais efetiva dessa comunidade dentro da Ufam”, explica. 

O objetivo da reivindicação da carta entregue à Reitoria da Ufam é integrar a ciência ocidental com o conhecimento tradicional dos povos indígenas. “Isso se dará através de ações completas, com participações efetivas dos acadêmicos indígenas nas ações da universidade, não somente dentro do curso de antropologia”, diz a estudante, do povo Mura.

Exemplos não faltam para mostrar a importância da reivindicação dos acadêmicos indígenas. Um médico ou enfermeiro indígena enfrenta o desafio de aprender a ciência dos laboratórios ao mesmo tempo que já herda saberes dos seus povos. A sua experiência é de fundamental importância como agora na pandemia do novo coronavírus, em que as aldeias enfrentam questões como a da imunização e a pressão por adoção de ineficientes “tratamentos precoces”. Um estudante de Ciência da Computação pode desenvolver softwares (programas) que eliminem o viés antiindígena no seu código. Um mestrando ou doutorando em química de produtos naturais sabe, desde a sua infância nas aldeias, quais plantas são potenciais fármacos.

Notório saber

O professor Gilton Mendes, foi orientador de Gabriel Maia e de João Paulo Barreto
(Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real),

Uma das reclamações dos estudantes indígenas é, principalmente, sobre a ausência de inclusão do saber indígena nas pautas acadêmicas, conhecimentos que são passados de pais para filhos que não são reconhecidos pela universidade. No documento, essa questão é pontuada, onde citam: “Concessão do título de Notório Saber para reconhecidos detentores de conhecimentos indígenas, permitindo-lhes a atuação em orientação de trabalhos acadêmicos e participação em bancas de avaliação (graduação e pós-graduação)”. 

Na avaliação de Suzy, esse conhecimento precisa ganhar espaço dentro da própria Ufam. “Enquanto universidade do Amazonas, na região amazônica onde apresenta um povo indígena que faz parte da população, precisa desse espaço maior. O que percebo é que conseguimos dialogar, acompanhar esses processos por estar próximo, mas eu aponto que causa estranheza trazer a temática indígena”, afirma.

O professor do Departamento de Antropologia Social e coordenador do Neai, Gilton Mendes, afirma que o documento entregue à Ufam é resultado de muitos anos de experiência, pensamentos e debates. “Essa carta apresenta algumas sugestões objetivas de como a universidade pode se movimentar para que tenha esse pensamento e essa presença indígena”, analisa.

Mendes reforça que a discussão surgiu pela ausência de espaço para poder trazer a perspectiva indígena e outros modos de pensar, além de reconhecer os intelectuais indígenas. “O que os alunos sentem na universidade é pouco, não basta só ‘tem vagas para indígenas’. Mas e depois? Vagas para indígenas para quê? Ou vaga para dizer que a universidade se propõe a abrir para novos conhecimentos, para abrir para novos entendimentos do mundo?”

O professor Gilton Mendes acredita que, com a entrega da carta, é possível construir um novo caminho dentro da Ufam e, para ele, uma agenda deve ser criada para estudar esses pontos em conjunto com os alunos e pesquisadores. “Que tenha uma comissão, e coloque no seu plano, no seu projeto a curto, médio e longo prazo essas reivindicações que estamos colocando”, sugere o coordenador do Neai. 

“Há um conhecimento que precisa tomar forma. Temos uma produção científica na acadêmia, mas, para além disso, como que a comunidade indigena exerce seu conhecimento de uma forma mais concreta dentro da academia, um espaço físico, que haja bolsa para os acadêmicos indígenas”, acrescenta a mestranda Suzy.

Centro de saberes indígenas

O reitor Sylvio Mário Puga Ferreira entre os indígenas quando a Ufam anunciou duas novas turmas de Licenciatura Indígena (Foto: Ascom/Ufam)

A última proposta apresentada na carta é algo que a própria sociedade demanda, cada vez mais, e a Ufam ganharia no campo da extensão científica. O Colegiado Indígena e o Neai propõem que seja construído um “Centro de Saberes, Práticas e Tecnologias Indígenas”, com espaços para ofertar cursos e oficinas sobre narrativas míticas, epistemologias e astronomia indígenas, música, pintura e línguas nativas;  laboratórios para produção de alimentos, bebidas e tinturas; confecção de instrumentos e objetos diversos (agrícolas, de caça e de pesca), produção de grafismo, cestaria e cerâmica.

“A Ufam nunca nos viu como uma pessoa que tem uma filosofia de território indígena, que tem seu próprio conhecimento, que pode ser considerada não como um objeto de pesquisa, mas o que queremos é que ela construa uma filosofia indígena dentro da universidade”, diz Jaime, o representante do  Colegiado Indígena.A Universidade foi procurada pela Amazônia Real para ser ouvida sobre as questões apontadas pelos estudantes. Até a publicação desta reportagem, a instituição não retornou o contato. 

Por: Alicia Lobato
Fonte: Amazônia Real