Ação humana reduz capacidade das árvores em combater o aquecimento global

Floresta Amazônica vista da torre de observação da Reserva Particular do Patrimônio Nacional (RPPN) do Cristalino, em Alta Floresta, Mato Grosso. Foto: Carlamoura.amb / Creative Commons 3.0
  • De acordo com estudos publicados no final de 2019, as temperaturas cada vez mais altas estão reduzindo a longevidade das árvores e sua capacidade de retirar CO² da atmosfera.
  • O fenômeno já é observado em algumas partes da Floresta Amazônica, onde as temperaturas ultrapassaram o limiar de 25 °C. Até 2050, o mesmo deve acontecer na Floresta do Congo, na África.
  • As florestas têm um papel crucial na luta contra o aquecimento global, mas, por conta do nosso fracasso em controlar as emissões de CO2 e o aumento da temperatura média do planeta, é preciso apostar em estratégias de mitigação climática capazes de ir além da proteção às florestas. Nunca foi tão urgente reduzir as emissões, alertam os cientistas

“Se uma árvore vive 500 anos, ela carrega o carbono assimilado pelos últimos 500 anos. Por outro lado, se ela vive 300 anos, isso quer dizer que o carbono será estocado por 200 anos a menos. Estamos acelerando o ciclo de carbono e o resultado é que temos mais carbono na atmosfera”, explica Giuliano Locosselli, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP).

As árvores sempre foram nossas principais aliadas na luta contra o aquecimento global, graças à sua capacidade de tirar o CO² do ar e estocá-lo por décadas em seus troncos, galhos, folhas e raízes. Nossa negligência, no entanto, está sabotando essas capacidades. É o que mostram dois artigos publicados no início de dezembro. As crescentes temperaturas, resultado da nossa incapacidade em reduzir as emissões de gases do efeito estufa, estão diminuindo a longevidade das árvores em muitas florestas do mundo, incluindo a Floresta Amazônica.

As relações entre altas temperaturas, taxa de crescimento e a mortalidade das árvores foi explorada em dois artigos recentes: o primeiro, liderado por Locosselli, foi publicado no Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS); e o segundo, liderado por Roel Brienen, publicado na Nature Communications. Os dois pesquisadores têm trabalhado juntos por anos e são coautores de ambos artigos, juntamente com outros 20 pesquisadores de Brasil, Chile, Argentina, Canadá, Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, França, Itália e Finlândia.

Os estudos usam dados do Tree Ring Data Bank (Banco de Dados de Anéis de Árvores), o maior banco de dados deste tipo no mundo, mantido pela National Oceanic and Atmospheric Administration, dos Estados Unidos. Os anéis são amostras de madeira obtidas por um corte transversal do tronco, e carregam informações preciosas sobre a idade, a taxa de crescimento e as condições ambientais da árvore.

Em 2015, Brienen já tinha observado uma mudança na dinâmica de crescimento e mortalidade das árvores amazônicas. Naquela época, o pesquisador da Universidade de Leeds, no Reino Unido, analisava os dados coletados em 321 partes diferentes da floresta ao longo das últimas três décadas. “Nós etiquetamos todas as árvores, identificamos as espécies e medimos os diâmetros. Daí voltamos alguns anos depois, medimos de novo, calculamos o quão rápido elas estão crescendo, quantas árvores novas nasceram naquela área e quantas morreram”, explica.

Analisando aqueles dados, Brienen percebeu que as árvores estavam crescendo mais rápido ao longo das décadas de 1980 e 1990. Por um lado, isso é bom. Quanto mais rápido uma árvore cresce, mais carbono ela tira da atmosfera. Mas há também uma consequência negativa: quanto mais rápido uma árvore cresce, mais cedo ela morre. “É o fenômeno ‘cresce rápido, morre cedo’”, diz Brienen. “Se a árvore cresce muito rápido, logo ela atinge um determinado diâmetro e uma certa altura na qual ela morre, porque as folhas já não conseguem bombear toda a água que elas precisam desde as raízes até a copa. Então elas morrem de falência hídrica”.

Nos anos 1990 e 1980, no entanto, a relação entre crescimento e mortalidade estava jogando a nosso favor. Em outras palavras, o crescimento acelerado estava compensando a mortalidade precoce, quando o assunto é a quantidade de carbono capturado. Entre os anos 2000 e 2010, no entanto, a situação começou a se inverter. “As taxas de crescimento começaram a se achatar, mas a mortalidade continuou aumentando. Isso significa que, nos últimos anos, a floresta está retirando menos carbono da atmosfera do que retirava anes”, resume Brienen.

Árvore morta na floresta tropical. Estudos mostram que árvores estão morrendo mais cedo por causa das temperaturas mais altas. Foto: Roel Brienen.

O que está por trás do ponto de inflexão da última década? 

A resposta mais factível foi dada pelos estudos publicados em dezembro e apontam para o aumento das temperaturas. Os cientistas compararam árvores em zonas temperadas com árvores em zonas tropicais, e perceberam que, quanto mais alta a temperatura, maior a taxa de crescimento. Mas existe um limiar para esta equação: 25 °C. “A taxa de crescimento nos trópicos já está operando muito perto deste limite. Então, se a temperatura aumenta, isso já não tem um impacto muito grande nas taxas de crescimento. Mas se você olhar para a longevidade, ela cai drasticamente quando a temperatura média fica acima dos 25 °C”, explica Locosselli.

Mais do que o retrato deste momento, as descobertas mostram uma tendência. No Brasil, a alta taxa de mortalidade observada na Região do Norte e na porção central da Amazônia deve se espalhar para o sul da floresta até 2050. O prognóstico também é preocupante para a Floresta do Congo, na África Central, que em 2050 também deve ter temperatura média acima dos 25 °C. “Isso significa que a capacidade das árvores de retirar carbono da atmosfera e estocá-lo pode estar diminuindo ao longo do tempo”, alerta Brienen.

Para Locosselli, a mensagem mais importante é que não podemos apostar todas as nossas fichas nas florestas. “Árvores e florestas ainda têm um papel primordial no controle da quantidade de carbono da atmosfera, mas a sua capacidade de estocar CO² tem sido reduzida pelo aumento das temperaturas e pelas mudanças nos padrões de chuva. Então temos que recuperar e proteger as nossas florestas? Sim. Mas também temos que reduzir emissões”.

Impactos no Acordo de Paris

Descobertas como essas afetam não apenas o futuro de países tropicais, como Brasil e Congo, mas de todas as nações comprometidas com o Acordo de Paris, que ambiciona conter o aumento da temperatura do planeta a até 1,5 °C até 2100.

Gustavo Pinheiro é o coordenador do Portfólio de Economia de Baixo Carbono do Instituto Clima e Sociedade (ICS), organização sem fins lucrativos que promove a economia de baixo carbono no Brasil. Do seu ponto de vista, o aumento das taxas de mortalidade das árvores mostra que o Acordo de Paris tem que ter metas muito mais ambiciosas, a serem cumpridas em um prazo muito menor. “Há urgência em atingir estes objetivos, dado que já estamos vendo os efeitos nos ciclos hídricos e no aumento das temperaturas”, destaca.

O Brasil, no entanto, tem ido na direção oposta. Enquanto países como a China e o Reino Unido dão sinais de que devem apresentar metas mais ambiciosas ao Acordo de Paris, o governo de Jair Bolsonaro não apenas reduziu as metas de corte de emissões como também condicionou seu cumprimento ao pagamento de US$ 10 bilhões por ano ao país. “Para piorar, a Contribuição Nacionalmente Determinada [NDC, da sigla em inglês] do Brasil é totalmente incerta, já que não mostra como as metas serão atingidas”, acrescenta Pinheiro.

Os pesquisadores usaram um banco de dados internacional construído nas últimas décadas. Esta foto foi tirada durante um trabalho de campo na Amazônia Peruana. Foto: Roel Brienen

O Brasil também está fracassando naquela que seria sua principal contribuição para o Acordo de Paris: proteger a Amazônia. Desde 2013, o país interrompeu uma sequência de oito anos de sucesso no controle do desmatamento. Graças especialmente ao Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia (PPCDAM), implementado pela Ministra do Meio Ambiente Marina Silva durante o governo Lula, as taxas caíram de 27.772 km² em 2004, o equivalente a 35 cidades de Nova York, para 4.571 km², em 2012.

O desmatamento voltou a subir durante o governo de Dilma Rousseff – que reduziu os repasses para o PPCDAM, até explodir em 2019, quando Bolsonaro assumiu a Presidência. Naquele ano, o desmatamento ultrapassou os 10.000 km² e o resultado foi um aumento de 9,6% nas emissões de gás carbônico do país. O político de ultra-direita promoveu o desmonte das agências de proteção ambiental e colocou as Forças Armadas para fazerem o trabalho. Não bastasse, estimulou o garimpo e o desmatamento em seus discursos. O Inpe, instituto nacional que monitora o desmatamento na Amazônia, ainda está calculando a taxa oficial de desmatamento de 2020, mas a previsão é que fique acima dos 11.000 km².

Por: Fernanda Wenzel
Fonte: Mongabay

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