Altamira se vê despreparada para uma terceira onda

No pico da pandemia, entre março e abril, houve filas e recordes de mortes e pouco melhorou desde então na cidade paraense

Altamira se vê despreparada para uma terceira onda
A imagem acima mostra a Policlínica itinerante de Altamira (Foto: Ronlima Santos/Ag Pará)

Maria de Fátima Silva não conseguiu se levantar da cama porque uma moleza tomava conta de seu corpo. A cabeça doía e a falta de ar completavam um quadro que, a essa altura da pandemia, não é difícil de associar ao novo coronavírus. Mas dona Baiana, como ela é mais conhecida, havia passado os primeiros dez dias de março descascando mandioca na beira do rio Xingu, tentando salvar a produção familiar de mais um alagamento da Usina de Belo Monte, no Pará. Desde que a hidrelétrica foi inaugurada, em 2011, esses episódios têm sido comuns. A saída foi deixar toda sua produção no ponto de virar farinha. Os sintomas de dona Baiana não eram só do cansaço ou do sol daqueles dias, como ela pensava, era mesmo Covid-19.

Aos 52 anos, dona Baiana é uma liderança e moradora da comunidade ribeirinha Ilha do Chicote, no rio Xingu. Ela cuida de cerca de 350 famílias impactadas pelo empreendimento hidrelétrico da Norte Energia. Preocupa-se com a reparação dos danos socioambientais de Belo Monte e, especialmente, luta em prol da saúde dos ribeirinhos. A usina foi construída na bacia do rio Xingu, próximo a Altamira. O município paraense sofreu um impacto brutal desde que a megaobra foi anunciada. A população saltou de 110 mil para estimados 170 mil habitantes. Virou um polo de atração regional, nem sempre acompanhado por políticas públicas ou infraestrutura, como postos de saúde e hospitais. 

Toda a família de dona Baiana adoeceu, inclusive o neto de dois anos. Mas ela e a filha tiveram de procurar atendimento médico. A falta de ar havia se agravado. As duas percorreram sozinhas as mais de oito horas de rabeta desde a comunidade Ilha do Chicote até Altamira. É que nesta cidade se concentram os atendimentos especializados no oeste do Pará, a maioria dos leitos clínicos e todos os leitos de UTI para a Covid-19.

A viagem foi tão desgastante que o quadro da filha de dona Baiana se agravou. A mãe não pensou duas vezes para abandonar a hospitalização no meio de seu tratamento e ir cuidar da filha.

“Vi enfermeiras desesperadas junto com médicos tentando salvar vidas no meio daquela situação, mas mesmo assim tem gente que não consegue chegar a tempo. Não adianta ficar com esse negócio de ‘toma isso, toma aquilo outro’, porque não dá jeito”, contou a líder à Amazônia Real sobre o período em que esteve internada no Hospital Geral São Rafael.

Vinte dias depois, mãe e filha já estavam em casa, recuperando-se. Mas na conversa com a reportagem, por áudios de Whatsapp, era fácil perceber as sequelas da Covid-19. A líder comunitária tossia frequentemente e ainda se queixava de falta de ar.

Dona Baiana (calça vermelha) recebe funcionários da SESMA E SEMED na Ilha do Chicote
(Foto: Evair Almeida/ Prefeitura de Altamira)

Em março deste ano, dona Baiana foi uma das pacientes a enfrentar o pico da segunda onda da pandemia. Mais devastadora, a segunda onda levou o caos à Altamira e resultou em 58 mortes naquele mês. Foi o pior momento no enfrentamento da Covid-19 já registrado na região da Transamazônica (BR-230) e Xingu. 

Faltou UTI

Hospital Regional de Altamira (Foto: Agência Pará)

Altamira é a maior cidade brasileira em extensão territorial, com cerca de 159.533 quilômetros quadrados. É no município onde se encontra o Hospital Regional Público da Transamazônica (HRPT). Por mais que a Secretaria de Saúde do Estado do Pará (Sespa) tenha feito sucessivas ampliações de leitos, a oferta não foi suficiente para dar conta da demanda dos nove municípios da região, que juntos concentram cerca de 353.943 habitantes.

“O hospital regional hoje, que é o único de média e alta complexidade de toda a região, está com 50 leitos disponíveis somente para pessoas com Covid. O detalhe é que o hospital possui no total 93 leitos”, denunciava, em março, o biomédico-epidemiologista Dênis Ferreira, membro do grupo de médicos e alunos de medicina da UFPA que monitoram o avanço da Covid-19 na região.

Em março e abril, a região em torno de Altamira bateu recordes de casos de Covid-19. Ferreira afirmou que a lotação dos leitos e as filas que se formaram de pacientes à espera de uma das 30 vagas na UTI do HRPT podem ter levado pessoas à morte. Houve doentes que foram entubados nos hospitais de retaguarda de Altamira, como medida emergencial, mas não conseguiram ser transferidos para uma UTI por falta de vagas.

“Uma pessoa que está num quadro grave de Covid precisaria ser transferida para um leito de UTI do hospital regional e lá ser assistida por uma equipe especializada”, explicou o cientista da UFPA. “Se um paciente morre em uma UPA (Unidade de Pronto-Atendimento) ou no hospital municipal entubado, é porque esse paciente não teve atendimento adequado.”

Um só tomógrafo

Antônia Melo, do Xingu Vivo (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)

Três hospitais de Altamira atuaram no atendimento da pandemia, dois deles apenas com disposição de leitos clínicos, o Hospital Geral São Rafael, regulado pela administração municipal e que conta com 28 leitos, e o Hospital privado Santo Agostinho, onde o governo estadual locou 34 leitos exclusivos para Covid-19. Os casos mais graves eram direcionados para o HRPT, o único que possui leitos de UTI para atender a toda a região do Xingu e Transamazônica. A preocupação é ainda maior quando apenas o HRPT realiza tomografias computadorizadas, um exame capaz de detectar o nível de infecção pulmonar.

“Muitas pessoas tiveram que apelar para atendimentos particulares em busca de um diagnóstico, mesmo sem condições, passando necessidade, porque só pacientes internados ou com sintomas fortes tiveram acesso à tomografia”, explicou Antônia Melo, fundadora do movimento Xingu Vivo Para Sempre e conselheira de saúde em Altamira.

Antônia Melo acredita que a falta de um diagnóstico preciso e precoce contribuiu para a quantidade de mortes durante a segunda onda. Ela atribui o problema à falta de estrutura pré-existente nos municípios da região, especialmente em Altamira. Questionada, a Sespa confirmou possuir apenas um tomógrafo para atender a toda a região do Xingu e da Transamazônica.

De acordo com a apuração da Amazônia Real, baseada nos boletins epidemiológicos lançados pela Secretaria Municipal de Saúde Altamira (Sesma), durante 27 dias entre março e abril, a lotação dos leitos clínicos e de UTI chegou a 100%. Os boletins da Sesma, porém, não informam a origem desses pacientes. No dia 16 de abril, sete pacientes aguardavam por leitos no HRPT. 

Até 24 de maio, Altamira já havia registrado 12.817 casos confirmados de Covid-19 e 276 mortes por Covid-19. Uma temida terceira onda, já aventada por pesquisadores e autoridades, encontrará a mesma precária estrutura da rede hospitalar de Altamira, que pouco avançou apesar dos alertas.

Sem dados oficiais

Hospital de Campanha de Altamira em julho de 2020 (Foto: Bruno Cecim/Ag Pará)

Quando a segunda onda da pandemia chegou ao oeste do Pará, não haviam dados acumulados que mostrassem os impactos da doença em Altamira e região, porque entre dezembro e janeiro, a Sespa deixou de liberar os boletins epidemiológicos. Diante da falta de dados oficiais, Ferreira e sua equipe formaram um grupo para colher e publicar as informações necessárias para o enfrentamento da pandemia.

Os pesquisadores passaram a distribuir boletins semanais e independentes, via WhatsApp, para a população com a quantidade de novos casos de infecção, morte e hospitalizações registradas nos municípios de Altamira, Anapu, Brasil Novo, Porto de Moz, Pacajá, Medicilândia, Senador José Porfírio (Souzel), Uruará e Vitória do Xingu.

Esses boletins informam a taxa de ocupação de leitos clínicos e de UTI em Altamira, epicentro da pandemia na região, responsável por mais de 60% dos casos. O boletim traz ainda se há pacientes à espera de leitos na região – estratégia que foi fundamental para se conhecer a realidade concreta dos municípios durante o pico da segunda onda de infecções.

O grupo da UFPA lançou três relatórios sobre a situação epidemiológica. A ideia com os boletins é fornecer subsídios técnicos e científicos também para as instituições locais, além de embasamento teórico aos órgãos responsáveis para o planejamento de medidas de saúde pública.

Segundo o relatório epidemiológico 3/2021, do grupo de pesquisadores da UFPA, cerca 212 óbitos ocorreram nos primeiros 106 dias de 2021, de um total de 511 desde quando se registrou o primeiro óbito por Covid-19 na região de Altamira, em maio de 2020. Ou seja, cerca de 42% dos óbitos ocorridos em toda a região, ocorreram entre o 1º dia de janeiro deste ano até 16 de abril.

Até 16 de abril, a região já somava 24.184 casos confirmados de Covid-19 e a taxa de ocupação da UTI do HRPT era de 93%. O mesmo relatório informava que a região estava com uma taxa de mortalidade maior que a do Pará, 144,4 por 100 mil habitantes. A média do estado era de 136,6 óbitos por 100 mil habitantes.

Em nota, a Sespa afirmou que até o dia 1º de março, havia 26 leitos clínicos na região do Xingu, os quais foram ampliados para 46 em 7 de março e para 56 no dia 15 de março. Em 8 de maio, “em função da redução de casos”, passaram para 36. Segundo informações obtidas pela reportagem e confirmadas pela nota da Sespa, o Hospital Santo Agostinho não está mais recebendo pacientes direcionados pela 10ª regional de Altamira.

A partir de abril, os números da pandemia começaram a diminuir na região de Altamira. Até 16 de maio, foram 26.228 casos confirmados e 597 mortes, ou seja, 2.044 novos casos positivos e 86 óbitos a mais em apenas um mês. O governo do estado alterou o bandeiramento da região para vermelho em março, laranja em abril e amarelo na primeira semana de maio.

Até o dia 23 de maio, o Pará registrou 508.726 casos confirmados de Covid-19 e um total de 14.264 mortes. A taxa de ocupação de leitos de UTI na região do Xingu e da Transamazônica chegou mais uma vez a 100% no dia 18 de maio, mostrando que o sistema de saúde continua em colapso. Segundo o último boletim da equipe de monitoramento epidemiológico da UFPA, publicado no último dia 21, a taxa de ocupação dos leitos de UTI eram de 83% e de 100% de ocupação dos leitos clínicos.

Os parciais lockdowns

Lockdown em Altamira em maio de 2020 (Foto Marcelo Seabra/Ag Pará)

Em 25 de março, Altamira decretou lockdown depois que o prefeito Claudomiro Gomes (PSDB) conseguiu autorização para decretar estado de calamidade pública por três meses. Um dia depois, o Ministério Público Federal, o Ministério Público Estadual e a Defensoria Pública recomendaram aos demais municípios da região que também decretassem lockdown (alterassem o bandeiramento para “preto”, o mais rigoroso no estado). Apenas Vitória do Xingu, Pacajá e Medicilândia aderiram à recomendação.

O lockdown em Altamira durou até 4 de abril e um novo decreto foi publicado mantendo algumas restrições, tais como a circulação de pessoas das 21 às 6 horas da manhã e funcionamento reduzido do comércio. Com a diminuição do número de casos e com a alteração do bandeiramento da região do Xingu para “amarelo” (risco intermediário), feita pelo Governador Helder Barbalho (MDB), no dia 20/05, essas medidas também foram flexibilizadas.

A falta de medidas sincronizadas entre estado e municípios da região gerou a superlotação do sistema de saúde, segundo o professor Dênis Ferreira. Outro fator observado pelo pesquisador foi a não ampliação do número de leitos – incluindo os do hospital de apoio Santo Agostinho – quando as taxas de ocupação chegaram a 85%, dado evidenciado e publicado pela equipe de pesquisadores da UFPA.

“No geral, faltou também um protocolo de atendimento baseado na ciência que fosse seguido por todos os profissionais da saúde da região, associado a uma infraestrutura adequada e em um tempo anterior à superlotação”, destacou o epidemiologista.

O difícil acesso

Entrega de cestas básicas para famílias que moram nas Ilhas do Chicote, do Cedro e do Florêncio, e também no Posto de Saúde (Foto Prefeitura de Altamira)

“A situação das famílias ribeirinhas é difícil porque elas já vêm de um sofrimento histórico com Belo Monte e agora, com essa pandemia, as coisas ficaram escancaradas. Além das distâncias com Altamira, tem também o problema da fome que afeta quase todas as famílias”, conta Antônia Melo. Fundadora do movimento Xingu Vivo Para Sempre, ela encabeça uma campanha com outras entidades socioambientais contra a fome das famílias da região durante a pandemia, que ganhou o nome Respira Xingu.

Antônia Melo explica que mesmo para quem vive na cidade de Altamira, há dificuldades no acesso aos polos de atendimento a pacientes com Covid-19, como é o caso dos moradores dos Reassentamentos Urbanos Coletivos (RUCs), frutos do remanejamento de ribeirinhos de locais afetados pela da construção da Hidrelétrica de Belo Monte. “Essas pessoas moram longe e para chegar nos hospitais precisam ir de táxi ou mototáxi, mas nem todo mundo tem dinheiro pra isso, ainda mais nesses tempos de pandemia”. 

Sarah Rodrigues Lima, 37 anos, mora na Volta Grande do Xingu, a cerca de 63 quilômetros de Altamira, no trecho da vazão reduzida do rio, local modificado pela construção da hidrelétrica de Belo Monte. Pescadora, ela conta que na primeira semana de março sentiu febre, dores no corpo e dores de cabeça, e que procurou o posto de saúde de Anapu, o mais próximo da sua casa. Mas não foi testada: “Eu não fiz teste porque não tinha. Só me deram uns remédios e eu voltei para casa”. Não chegou a ir para Altamira porque não tinha dinheiro.

Por: Cicero Pedrosa Neto
Fonte: Amazônia Real