Amazônia concentra 80% do total de assassinatos em conflitos no campo

Relatório divulgado nesta segunda-feira (18) pela Comissão Pastoral da Terra revela que, em todo Brasil, número de mortes por disputa de terra cresceu 75% entre 2020 e 2021

Zé do Lago, Márcia e Joene foram assassinados em São Félix de Xingu. Foto: Reprodução das redes sociais.

Os estados da Amazônia Legal foram palco para 28 assassinatos decorrentes de conflitos no campo em 2021. O número representa 80% do total de mortes violentas por disputa de terras em todo o país, revela o relatório divulgado hoje (18) pela Comissão Pastoral da Terra (CPT). 

“A violência nesta região reflete não só a ferocidade da grilagem e do latifúndio, como também o emparelhamento protetor do Estado brasileiro ao setor ruralista”, diz a CPT.

Rondônia foi o estado com o maior número de assassinatos (11), e onde ocorreu um dos dois massacres (quando mais de três pessoas são mortas) registrados pela Comissão no período.

Maranhão vem em seguida, com 9 assassinatos, seguido de Roraima e Tocantins, com 3 assassinatos cada. Pará contabilizou 2 dois assassinatos e Mato Grosso, 1.

O massacre registrado em Rondônia vitimou três sem-terra que viviam no acampamento Ademar Ferreira, em agosto de 2021. O outro massacre foi registrado em Roraima, onde ao menos três indígenas Moxihatëtëa, classificados como “isolados”, foram assassinados na Terra Indígena Yanomami.

No Brasil todo, 35 pessoas perderam a vida em conflitos no campo, o que representa um aumento de 75% quando comparados os números de 2020 e 2021. Desse total, 33 pessoas eram homens e duas eram mulheres.

Dentre as vítimas, estão indígenas, sem-terras, posseiros, quilombolas, assentados, pequenos proprietários e quebradeiras de coco babaçu.

As mortes, segundo a Comissão, são decorrentes da atuação da “pistolagem sob encomenda” e das “agromilícias”, além da violência cometida pelos próprios agentes públicos. 

Outras formas de violência

Além dos assassinatos, a Comissão Pastoral da Terra também contabiliza as mortes causadas indiretamente pela violência no campo, como aquelas causadas pela invasão de garimpeiros em territórios indígenas e a consequente contaminação das águas e transmissão de doenças.

Nesse cenário mais ampliado, a CPT contabilizou 109 mortes de decorrência dos conflitos – sendo 101 de índios yanomami – 27 tentativas de assassinato, 132 ameaças de morte, 75 agressões físicas com ferimentos diversos, 13 ocorrências de tortura e “um sem-número de intimidações e tentativas humilhantes de subjugação”.

Trabalho escravo

Em 2021, a fiscalização do trabalho resgatou 1.726 pessoas em todo Brasil em condições análogas à escravidão. É o maior número desde 2013 e um aumento de 113% em relação ao dado de 2020.

No meio rural, foram 169 pessoas resgatadas. O Pará registrou 27 dos 169 casos computados pela CPT.

O relatório “Conflito no Campo Brasil” é uma publicação anual da Comissão Pastoral da Terra. O documento, que está em sua 36ª edição, reúne dados sobre os conflitos e violências sofridas pelos trabalhadores do campo, bem como indígenas, quilombolas e demais povos tradicionais do campo, das águas e das florestas.

Por: Cristiane Prizibisczki
Fonte: O Eco