Amazônia: resultado de eleições para governador dá sequência a tragédia socioambiental

Maioria de estados terão governadores bolsonaristas e favoráveis ao avanço predatório do agronegócio e do garimpo ilegal

Foto: Presidente em encontro com governadores bolsonaristas Marcos Rocha (esq.), de Rondônia, e Gladson Cameli (dir.), do Acre – Alan Santos/PR

Amazônia e seus povos tradicionais foram os principais derrotados no primeiro turno das eleições para governador na região Norte. 

Mesmo com importantes nuances partidárias e ideológicas, os vencedores representam – em maior ou menor grau – a prevalência do agronegócio, do garimpo ilegal e da extrema direita bolsonarista no comando dos estados que concentram a maior parte do bioma. 

A análise do Brasil de Fato revela que, dos sete estados nortistas, cinco já elegeram ou têm como favoritos no segundo turno defensores notórios de Bolsonaro e/ou da expansão ilimitada da fronteira agropecuária e do garimpo ilegal.

“Estamos diante da continuação da tragédia ambiental na Amazônia”, afirma Jordeanes Araújo, antropólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). 

Em outros dois estados, os governadores reeleitos têm propostas favoráveis ao desenvolvimento sustentável, mas seguem apostando em atividades de alto impacto ambiental como principal motor do desenvolvimento econômico. Confira mais abaixo o cenário em cada estado.

“Os resultados perpetuam o ciclo da segunda década do século 21 em que o agronegócio consegue eleger candidatos e, com isso, fortalecer suas estratégias de desmatamento, grilagem e consolidação da agropecuária”, analisa o pesquisador. 

Roraima: reeleito governador que tentou legalizar garimpo 

Aliado importante dos garimpeiros ilegais de Roraima, Antônio Denarium (PP) foi reeleito em primeiro turno com 56,47% dos votos. Ele desbancou Teresa Surita (MDB), ex-mulher e aliada de Romero Jucá (MDB), responsável por ter aberto a Terra Indígena Yanomami (RR) aos garimpeiros. Surita e Denarium buscaram se atrelar à imagem de Bolsonaro no estado onde o presidente teve 70% dos votos no segundo turno em 2018. 

Denarium deve manter a política de incentivo à mineração ilegal que o consolidou como liderança política no estado. Com apoio dos deputados estaduais, Denarium já sancionou leis que legalizavam o garimpo, proibiam a destruição do maquinário ilegal e liberavam o uso de mercúrio, material tóxico utilizado para separar o ouro. Todas foram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (STF). 

Metade das terras de Roraima são indígenas, mas o garimpo ilegal se apropriou de quase toda a estrutura política do estado. Ambientalistas afirmam que a reeleição de Denarium terá o efeito de empoderar os mineradores irregulares, que levam violência e doenças a mais da metade das comunidades indígenas Yanomami. 

Rondônia: disputa para ver quem é mais bolsonarista 

O segundo turno em Rondônia será disputado entre dois bolsonaristas antiambientais que obtiveram porcentagens de voto bem próximas: Coronel Marcos Rocha (União), com 38,8% e Marcos Rogério (PL), com 37,05%. Ambos têm em comum o incentivo ao agronegócio predatório e o desprezo à legislação ambiental, que domina a cultura política do estado. 

Policial Militar de carreira, Rocha estreou na política ao ser eleito governador na onda bolsonarista em 2018. Seu mandato foi marcado pela redução de unidades de conservação estaduais em favor do agronegócio. Já Rogério é um político de carreira. No Senado, foi um dos principais parlamentares da tropa de choque bolsonarista na CPI da Covid. 

Erguido sobre a atividade madeireira, Rondônia ainda tem quase metade do território coberto por florestas em áreas protegidas. Com o estímulo dos executivos federal e estadual, o estado passa por um processo de expansão do plantio de soja que “empurra” a pecuária para terras indígenas e áreas de conservação. 

Pará: promessa de conservação com poucos resultados 

O governador Helder Barbalho (MDB) colheu os frutos da popularidade no mandato anterior e garantiu a reeleição com 70% dos votos no Pará. Ele superou o senador bolsonarista Zequinha Marinho (PL), conhecido por levar demandas de criminosos ambientais ao governo federal, dada a proximidade dele com Bolsonaro. 

Herdeiro de uma das mais tradicionais famílias políticas do estado, Barbalho buscou se projetar como um político engajado na preservação da Amazônia. Junto com pecuaristas, por exemplo, lançou iniciativas para melhorar a rastreabilidade do gado. Uma tentativa de aumentar a credibilidade do setor responsável por manter o estado na liderança de rankings anuais de desmatamento.

Mas a postura não mudou significativamente a realidade de violação de direitos humanos. Em 2021, o Pará foi líder em casos de conflitos por terra, segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT). E continua liderando a extração de ouro ilegal do Brasil, que leva violência, doenças e devastação a terras indígenas do estado. 

Barbalho aposta ainda na mineração industrial como motor do desenvolvimento econômico. O Pará tem a maior mina de minério de ferro a céu aberto do mundo, a Carajás. Mas estudos já mostraram que seria preciso distribuir melhor os ganhos entre a população e apostar na diversificação da economia, como forma de evitar a “minerodependência”. Pesquisas já revelaram que cidades paraenses com arrecadações vultosas com mineração ainda não superaram a extrema pobreza. 

Amazonas: favorito prometeu ir “até últimas consequências” contra reserva ambiental

No Amazonas, a disputa segue entre o governador Wilson Lima (União), apoiado por Bolsonaro, e Eduardo Braga (MDB), aliado de Lula. O bolsonarista teve 42% dos votos, contra 20,9% de Braga, e chega ao segundo turno como favorito. 

Lima era apresentador de um programa policialesco de TV e se elegeu em 2018 na primeira eleição que disputou. Ele apostou na retórica de endurecimento no combate à criminalidade, mas não impediu o avanço do crime ambiental durante o seu mandato. Nos últimos quatro anos, o sul amazonense se consolidou como um novo polo da pecuária ilegal, às custas do aumento de invasões de terras públicas. 

No primeiro semestre de 2021, o Amazonas desbancou pela primeira vez o Pará no ranking de estados mais desmatadores, contribuindo decisivamente para aumentar os níveis de desmatamento nacionais. Não por acaso, metade dos municípios onde Bolsonaro levou vantagem sobre Lula neste primeiro turno figuram anualmente entre os mais desmatados: Boca do Acre e Apuí. Os outros foram a capital Manaus e Guajará, na fronteira com o Acre.

Na pré-campanha em junho deste ano, Lima declarou publicamente que iria “até às últimas consequências” contra a criação de uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) no município de Manicoré. A Unidade de Conservação (UC) é uma reivindicação de populações ribeirinhas, que vêm sofrendo com o crescente desmatamento ilegal motivado pela extração de madeira e pecuária. Eles habitam a região há mais de um século, mas nunca tiveram o direito à terra reconhecido.

Diferenças à parte, Braga e Lima concordam com a continuidade de grandes obras de infraestrutura, como a reconstrução da BR-319, única ligação por terra entre Manaus (AM) e o restante do país. A aposta na mineração também é um ponto em comum. Mas a expectativa é que um governo Braga seja mais receptivo às pautas socioambientais que ganharam ênfase na campanha de Lula, em função da aliança entre o petista e o emedebista. 

Acre: consolidação bolsonarista no estado de Chico Mendes 

Acre reelegeu o governador Gladson Cameli (PP) em primeiro turno, com 56,75% dos votos. De família tradicional na política acreana, foi eleito em 2018 na esteira do antipetismo, rompendo com 20 anos de governo do PT no estado. Ruralistas, evangélicos e grandes empresários compõem sua base de apoio. Juntos, os setores produziram índices de desmatamento recordes no estado onde surgiu a Aliança dos Povos da Floresta de Chico Mendes. Embora bolsonarista, Cameli evitou aparecer ao lado de Bolsonaro na campanha, apostando na vitória sem segundo turno, conforme apontavam as pesquisas eleitorais. Agora, anunciou apoio a Bolsonaro no segundo turno presidencial. 

Cameli se notabilizou por pregar o afrouxamento das regras ambientais e o estímulo ao avanço do agronegócio sobre terras indígenas, unidades de conservação e terras públicas não destinadas, onde não há lei que discipline o uso da terra. O resultado foi o aumento da grilagem, das queimadas e da devastação ambiental. O desmatamento ilegal no estado dobrou desde 2018, ano em que Cameli chegou ao governo, alcançando um recorde de 871km² de perda de cobertura vegetal, maior área desde 2004 segundo dados do Inpe. 

Em discurso a produtores rurais, Cameli pediu em 2019 que eles ignorassem multas ambientais lavradas pelo órgão ambiental do próprio estado, o Instituto do Meio Ambiente do Acre (Imac). “Quem for da zona rural e o Imac estiver multando alguém, me avise, porque não vou permitir que venham prejudicar quem quer trabalhar. Me avise e não pague nenhuma multa, porque quem está mandando agora sou eu”, afirmou o governador, segundo o portal G1

Amapá: bioeconomia ausente e foco em mineração 

No Amapá, outro governador levou no primeiro turno: Clécio Luís, do Solidariedade. O partido integrou a coligação de base de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas o político teve o apoio do PL, de Jair Bolsonaro. Por causa da situação atípica, manteve-se distante da disputa nacional. O governador eleito chegou a ser filiado ao PT, ao PSOL e à Rede, sendo, inclusive, o primeiro prefeito eleito pelos psolistas em uma capital.

Em seu programa, Clécio Luís defende incluir o estado no mercado de carbono, ampliar o uso sustentável dos recursos naturais no interior de unidades de conservação, fortalecer o combate ao desmatamento e reformar escolas indígenas.

Menor estado da Amazônia Legal e um dos mais distantes de grandes centros urbanos, o Amapá apresenta índices de desmatamento relativamente baixos, com quase 80% do território coberto por vegetação. Em comparação com outros estados da Amazônia, o setor ruralista é menos influente na política, em um território ainda distante do chamado arco do desmatamento.

A rica formação florestal do estado poderia gerar produtos da sociobiodiversidade, distribuindo renda e mantendo o bioma vivo. Mas o novo governador, assim como seu principalmente oponente, Jaime Nunes (PSD), não priorizaram o tema ao longo da campanha. A aposta de ambos para desenvolver economicamente o estado está na mineração. A expectativa é viabilizar a perfuração de poços de petróleo na costa do Estado descobertos pela Petrobrás. Pelo potencial lucrativo, o projeto já é chamado de “novo pré-sal”. 

Tocantins: continuidade política na região que mais desmata no país 

No Tocantins, Wanderlei Barbosa (Republicanos), foi reeleito. Embora não seja o candidato bolsonarista oficial, o governador é favorável às políticas desse campo político voltadas ao agronegócio. Barbosa superou já no primeiro turno Ronaldo Dimas (PL), que dividiu palanque com Bolsonaro. 

Barbosa é alvo de críticas de ambientalistas por não impor freios à devastação ambiental no Tocantins, onde ficam as nascentes dos principais rios que correm pelo território brasileiro. O estado integra a região onde ocorreu um quarto de todo o desmatamento no Brasil em 2021: o Matopiba (anagrama para Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia). 

A fronteira agrícola se expande no Tocantins, principalmente sobre o Cerrado, de maneira quase totalmente ilegal. Um relatório do Ministério Público do Tocantins apontou que oito em cada dez donos de terra que desmataram em 2021 não tinham autorização para retirada da vegetação. 

No programa de governo, o governador reeleito promete políticas de inclusão de quilombolas e indígenas. Na prática, porém, não se viu articulações relevantes com as organizações dos povos indígenas durante seu primeiro mandato. 

Por: Murilo Pajolla
Fonte: Brasil de Fato