“Aponta aí?”, diz Bolsonaro para menino com fuzil de brinquedo, em Manaus

“Aponta aí?”, diz Bolsonaro para menino com fuzil de brinquedo, em Manaus
Visita do presidente contou com protestos contra e a favor do governo. No discurso, ele defendeu o ex-ministro Pazuello e disse que “usam o vírus para fins políticos”. (Foto de Wérica Lima/Amazônia Real)

 O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) foi recebido por volta das 10 horas desta sexta-feira (23) com manifestações pró e contra o seu governo na primeira visita que fez após a população de Manaus sofrer com duas ondas da pandemia do novo coronavírus. Entre os apoiadores que o aguardavam no entorno do Centro de Convenções Vasco Vasques, um menino vestido com a farda da Polícia Militar e carregando nas pequenas mãos um fuzil de brinquedo despertava a atenção. Aclamado de “mito, mito, mito”, assim que viu o garoto, Bolsonaro o segurou no colo e ordenou: “aponta aí”. A criança estava acompanhada do pai, um policial do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), que tirou o celular do bolso e fotografou a cena de aglomeração e apologia às armas; mais uma promovida pelo presidente da República no país que mais mata jovem negros por arma de fogo.

Liberar o uso e compra de armas foi uma das principais promessas de campanha de Bolsonaro em 2018. Em Manaus, ele foi eleito com 50,3% de votos válido. No interior do Amazonas, estado com 62 municípios, Bolsonaro venceu em apenas dois no segundo turno: Apuí e Guajará. Este mês, o presidente assinou quatro decretos facilitando o armamento da população. Ele justificou os decretos dizendo que está regulamentando o Estatuto do Desarmamento, aprovado em 2003, pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). 

A ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal (STF), suspendeu alguns trechos dos decretos de Bolsonaro, entre eles, a “possibilidade de aquisição de até seis armas de fogo de uso permitido por civis e oito armas por agentes estatais com simples declaração de necessidade, revestida de presunção de veracidade”. O caso está sendo analisado pelo STF.

Procurada, a Polícia Militar do Amazonas não comentou sobre o policial do Bope levar o filho fardado e com um fuzil de brinquedo ao evento com Bolsonaro.

Veja o vídeo

Fogo amigo, “Fora Wilson”

Bolsonaro, mais uma vez, não respeitou o distanciamento exigido na pandemia (Foto: Alan Santos/PR)

Logo após a cena do menino com um fuzil de brinquedo, apoiadores de Bolsonaro, ainda no centro de convenções, foram realocados para o “cercadinho” onde passaram a gritar “Fora Wilson Lima”. O governador do Amazonas, que sancionou a concessão do título de cidadão amazonense ao presidente, é alvo da operação Sangria, que investiga a compra superfaturada de respiradores da Covid-19.  Bolsonaro e Wilson inauguraram obras no centro de convenção. Leia aqui.

Os bolsonaristas também xingaram os manifestantes dos movimentos sociais, artistas, professores e estudantes com palavras de baixo calão e partiram para a violência. O protesto era contra a concessão do título de cidadão amazonense ao presidente, projeto que foi sancionado por Lima. “Vim prestigiar o nosso presidente. Um cara humilde, humano, vem fazendo boa administração. A mídia tradicional não vem mostrando o que o governo dele vem fazendo, só se liga em pandemia, pandemia, achando que o problema da nação só é isso”, reclamou Irineu da Silva, apoiador do governo. 

Os policiais do BOPE fizeram uma barreira humana para impedir que o ato chegasse perto de  Bolsonaro. A professora de história Beatriz Calheiro, 31 anos,  foi empurrada pelo tenente-coronel França, da Polícia Militar. Tremendo, muito nervosa e reclamando de dores nos joelhos, ela disse que foi à manifestação para protestar “contra a homenagem de uma pessoa que só prejudica o nosso país, que negou oxigênio e que jamais poderá bater no peito e dizer como eu e muitos outros que são amazonenses de verdade”. 

Sobre a reação do policial contra ela, a professora relatou: “ele (tenente França) me empurrou porque eu fiquei falando para abrir o bandeirão da revolta pela vacina.  Ele ficou empurrando até ao ponto de eu cair no chão, me ralar, mas ele não propôs diálogo. Foi embora, sumiu porque sabia que as pessoas iriam pra cima dele, viram a agressão dele”.

Manifestantes em frente da Assembleia Legislativa do Amazonas colocaram cruzes e fotos dos deputados a favor do título (Foto: Werica Lima/Amazônia Real)

Os manifestantes usaram fotos dos 14 deputados que aprovaram o título de cidadão amazonense ao presidente Bolsonaro e, com cruzes feitas de papelão, derramaram tinha vermelha em cima das imagens para representar o sangue dos amazonenses mortos por conta do negacionismo do presidente da República. “As pessoas estão morrendo porque ele disse que era gripezinha. Já perdi duas pessoas da minha família. Vários amigos meus morreram porque eles acreditaram nesta conversa de que era só uma gripezinha, e não usaram máscara, não fizeram distanciamento social, não usaram álcool em gel e morreram. É por isso o meu repúdio”, desabafou o industriário Carpegiani Quintela, de 41 anos.

“Usam o vírus para fins políticos”

Feminista Francy Júnior protesta contra Bolsonaro e a favor do SUS, em Manaus (Foto: Raphael Alves/Amazônia Real)

Dentro do Centro de Convenções Vasco Vasques, Jair Bolsonaro foi recebido pelo deputado Silas Câmara (PSD), um dos líderes da Igreja Assembleia de Deus do Amazonas. No discurso, o presidente fez também elogios a seu governo, dizendo que a sua equipe em Brasília colaborou – e muito – “para que os danos desta pandemia fossem diminuídos”. Elogiou ainda o ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, que é um dos alvos da investigação da CPI da Pandemia por acusação de omissão durante a crise da falta de oxigênio em Manaus e enviar para a cidade o kit do tratamento precoce da Covid-19 contendo as medicações cloroquina, ivermectina e azitromicina; remédios sem eficácia comprovada cientificamente.

Bolsonaro não prestou homenagens às famílias amazonenses que perderam mais de 12 mil entes queridos na pandemia. “Lamentamos aqueles que usam o vírus, para fins políticos, o nosso objetivo é um só, o nosso inimigo é um só, o vírus, e tenho certeza, com Deus e esse povo maravilhoso ao nosso lado, nós venceremos todos estes obstáculos”, disse antes de encerrar com o já tradicional bordão: “Brasil acima de tudo e Deus acima de todos”.

Clima de tensão e transfobia da polícia

Manaus, AM 23/04/2021 – Manifestantes em frente ao Centro de Convenções Vasco Vasquez protestam contra o presidente Jair Bolsonaro (Foto: Raphael Alves/Amazônia Real)

Do lado de fora, os manifestantes continuaram com os protestos contrários à homenagem feita pela Assembleia Legislativa do estado do Amazonas (Aleam). “É revoltante o que a Assembleia Legislativa fez. Foram mais de 12 mil mortes no Amazonas, estado que foi completamente negligenciado durante esta pandemia. Ele (Bolsonaro) não é um cidadão amazonense. Ele nunca será um cidadão amazonense”, revoltou-se o artista Leo Skant, de 25 anos.

Já do lado de Bolsonaro, a estudante e desenhista Rosa Maria nem sabia que o presidente estava sendo homenageado como cidadão amazonense. “Eu tô por fora do que ele [Bolsonaro] está recebendo. Eu tô querendo é ver ele”. Mas eu acho ótimo, que pena que a gente tem um governo que desviou. O governo federal manda o dinheiro. O nosso presidente, sim, merece esse título, merece muito porque ele se preocupa com a saúde, mandou dinheiro para a saúde. Quero saber é do governador Wilson Lima. Cadê o dinheiro do Governo Federal. Ele [Bolsonaro] ajudou. Eu acompanho as doações”, disse.

O clima de tensão contava com um forte esquema de segurança com direito a cavalaria da Polícia Militar – com os animais bastante irritados- e duas fileiras de policiais armados com fuzis. De um lado, os que eram a favor do Governo Bolsonaro podiam circular livremente na região da Arena da Amazônia, enquanto que os opositores não podiam passar da barragem feita pela polícia no meio da avenida. O Hino Nacional era cantado em voz alta pelos pró-bolsonaristas sem máscaras. Bandeiras do Brasil marcavam o cenário.

Representante da União dos Estudantes Rebeldes no Amazonas, Gabriel Mutz, de 19 anos, criticou a quantidade de forças militares no protesto que iniciou na Aleam e seguiu até a Arena da Amazônia. “Passou aqui até um caminhão anti-bombas, como que vai ter uma bomba aqui no meio disso tudo? Passou helicóptero, e não é mentira. Tem muito policial, é incrível tanto policial para pouca gente. Nas manifestações a favor vem muito menos policial. A gente não quer botar o terror, só queremos conscientizar as pessoas sobre esse governo e lutar por nossos direitos. O Bolsonaro só faz bem para a classe dominante e aqueles que acham que vão ganhar com ele, né? Todo mundo que precisa trabalhar, botar a mão na massa para sobreviver se ferra no governo dele”, relatou o estudante de Direito da Universidade Estadual do Amazonas (UEA).

A advogada Marcia Dias, do Fórum Permanente das Mulheres de Manaus (FPMM), protestou pela demora na compra de vacinas. Para ela, o discurso do Presidente Bolsonaro contra o isolamento social é uma das principais causas para o grande número de mortes no Amazonas. “Por culpa do Bolsonaro, desse maior vírus do Brasil, nós estamos vivendo a morte no Amazonas e em todo o Brasil que fere a nossa alma. É por causa dele, dele não ter providenciado a vacina antes, por ter incentivado e ser contra o isolamento social, que muitos dos nossos familiares e amigos morreram”, disse.

Manifestantes em frente a Assembleia Legislativa do Amazonas (Foto: Werica Lima/Amazônia Real)

Para Wendy Lady, mulher trans e artista que está desde 2002 no Movimento Dandara, existem três sentimentos presentes quando ela pensa na titulação de Bolsonaro: “tristeza”, por muitas perdas, a “impotência”, por conta do número alto de pessoas desempregadas e a “indignação”. “Como explicar para quem está passando por tudo isso que ainda é preciso lutar por causa de um governo que nega que nós temos uma doença e não dá suporte para o povo viver nesse momento?”.

Um dos policiais do lado dos bolsonaristas apontava o dedo para uma mulher transgênero e dizia “viadinho”, enquanto sorria. Também alvo de piadas e preconceito durante o protesto, Wendy Lady ressaltou ainda o aumento no número de assassinatos de mulheres transgênero no Brasil desde a posse do atual presidente da república em 2018. “Você tem noção? Quando você tem alguém na frente de uma presidência que fomenta o ódio, logicamente a população LGBTfóbica vai entrar em ação. Os ataques aumentaram sobre corpos pretos e periféricos. Tudo é chamado de mimimi, que é justamente a dor que você não sente”, afirmou a artista do movimento Dandara.

Por: Wérica Lima e Leanderson Lima
Fonte: Amazônia Real