Artesãos da Ilha do Marajó, no Pará, perdem renda e relatam desamparo na pandemia

Crise econômica e sanitária tornou ainda mais difícil a vida dos artesãos, que denunciam abandono e pedem valorização

O artesão Advaldo Bonfin na sua olaria, localizada no distrito de Icoaraci. Para incrementar a renda, passou a vender diversos tipos de plantas – Catarina Barbosa/Brasil de Fato

Você provavelmente já viu ou ouvir falar da cerâmica marajoara. A habilidade para moldar vasos, pratos, panelas ou em itens de decoração, é uma herança dos indígenas que viviam no arquipélago do Marajó.

Os artesãos que vivem desse trabalho, no distrito de Icoaraci, no estado do Pará, têm enfrentado dificuldades para comercializar seus produtos durante a pandemia da covid-19.

Advaldo Santos Bonfin, de 60 anos, trabalha há 40 anos com arte e diz que os meses de março, abril e maio foram os mais críticos, com redução de até 80% das vendas.

Cestos, vasos e itens de decoração com motivos marajoaras produzidos no espaço do seu Advaldo Bonfin. Ao fundo, as plantas que ele comercializa para incrementar a sua renda. / Catarina Barbosa/Brasil de Fato

Ele trabalha no bairro do Paracuri, onde ficam também outras olarias semelhantes a sua, umas mais rústicas, outras menos. No bairro, falta saneamento, o asfalto precisa de reparos, mas Advaldo, diz que o que ele realmente espera das autoridades é o reconhecimento e a valorização dos seus saberes. 

O governo do Pará criou, durante a pandemia, o Fundo Esperança, um crédito com o objetivo de amenizar os impactos econômicos provocados pela covid-19. Seu Advaldo procurou o benefício porque estava com o seu espaço comercial fechado, mas disse que ficou decepcionado com o que lhe foi ofertado. 

“Foi aprovado, mas acontece que só queriam liberar R$ 700 e esse valor não dava nem para manter o pessoal trabalhando.”

Advaldo Bonfin, 60, na sua olaria, em Icoaraci, no Pará. – Créditos: Catarina Barbosa/Brasil de Fato

O artesão tem cinco funcionários que trabalham na parte de cerâmica e quatro membros da sua família, que atendem no espaço como um todo.

A vida para montar o pequeno comércio foi suada. Quando começou, há 40 anos, ele revezava a rotina de trabalho entre o serviço de vigilante à noite e a produção das peças marajoaras durante o dia.

Com o passar dos anos, ele percebeu que, mesmo sendo valorizado por determinas pessoas, o artesanato marajoara recebe poucos incentivos por parte do poder público. Foi quando ele decidiu incrementar o negócio e passou a vender também plantas, terra, adubo e seixo.

Apesar de todas as dificuldades, ele diz que não pensa em fazer outra coisa e retomou as atividades, tomando todas as medidas de segurança. “Espero que as coisas melhorem”, diz.

Dificuldades

Assim como seu Advaldo, a artesã Divani Ramos, de 47 anos, trabalha há 20 com artesanato marajoara. Ela também afirma que o descaso com os artesãos não é de hoje e que além de ter tido problemas financeiros, ela e o marido contraíram a covid-19. 

Aqui, muitos dependem do turismo, eu dependo do turismo. 

“Foi muito difícil, porque as contas de água e luz continuam chegando. As dívidas que tínhamos só aumentaram e veio a queda do movimento. Aqui, muitos dependem do turismo, eu dependo do turismo. Então, o artesanato é visto como algo supérfluo, só para decoração. Eu, como cidadã, não tive direito ao auxílio emergencial, só o meu marido”, diz ela. 

Divani também relata que o Fundo Esperança não foi alternativa, devido ao baixo valor, que não compensava para ela e o esposo. Ela avalia que a situação de ambos só não foi pior, porque eles não têm filhos pequenos e a internet, apesar de falhar muitas vezes, foi uma grande alidada.

“Nós não dependemos 100% do turismo, porque temos clientela fixa, então, diminuiu muito, mas continuamos vendendo, via Whatsapp e assim conseguimos fazer delivery“, conta ela. 

Divani Ramos pintando uma caneca marajoara. Ela afirma que o poder público só aparece no local em época de eleições / Catarina Barbosa/Brasil de Fato

A valorização oportuna 

Segundo a artesã, os representantes do poder público só aparecem no local em época de eleições, seja estadual ou municipal. 

“A minha briga com esses políticos que vêm aqui é por uma visão melhor para nossa arte. Nós somos uma das artes mais bonitas do mundo. Nós somos riqueza no Pará e nossos governantes ainda não perceberam o valor que nós temos”, questiona.

Nós trazemos dinheiro, verba para o estado, direta e indiretamente. Custava o nosso governador, nosso prefeito ter um olhar mais carinhoso, nós dar apoio? 

Divani considera ainda que o governo além de não valorizar os profissionais, esquece que eles podem ser aliados no incremento do turismo. 

“Nós trazemos dinheiro, verba para o estado, direta e indiretamente. Custava o nosso governador, nosso prefeito ter um olhar mais carinhoso, nós dar apoio? Nós não temos direito à aposentadoria como artesão. Nós deveríamos ter um ‘defeso-artesão’, porque no inverno cai muito a nossa produção, afinal, não temos sol suficiente para secar a louça. A minha briga maior e revolta é que eles não têm um olhar para os artesãos de Icoaraci”, diz ela. 

Futuro em risco

Silvia Vanessa Leal, 33, tem um ponto fixo na Feira de Artesanato do Paracuri, na orla de Icoaraci. O espaço é mantido por uma associação de artesãos. Ela também aponta a falta de investimentos do poder público como algo que, não só deprecia o trabalho minucioso de todos que vivem da arte, mas também coloca em risco a continuidade do trabalho ancestral.

Para Silvia, o maior medo é ver a arte com a qual seus pais trabalham desde que ela era criança desaparecer por falta de investimentos: “Espero que não aconteça.”

A Secretaria Municipal de Economia do município disse, em nota, que “tem incentivado os artesãos de Icoaraci, através de espaços de comercialização dos produtos, como na feirinha que ocorre aos domingos na praça da República e também na feira Ver-a-Arte, promovida no Mercado Francisco Bolonha”.

Eles disseram ainda que “outros pontos de comercialização dos produtos dos artesãos de Icoaraci estão sendo estudados pela Secon, aguardando apenas a normalidade pós-pandemia”

Por: Catarina Barbosa
Fonte: Brasil de Fato

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