“As invasões continuam e as ameaças também”, relata tuxaua Maraguá ao Conselho de Direitos Humanos da ONU

Ainda sem punição aos responsáveis, “Massacre do Rio Abacaxis” foi levado a 49ª sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU por Jair Seixas Reis, tuxaua geral do povo Maraguá

Há poucos meses de completar dois anos do “Massacre do Rio Abacaxis”, sem providências por pajair maraguarte das autoridades brasileiras, os indígenas levaram novamente o caso à Organização das Nações Unidas (ONU). “Nós vivemos um conflito muito grave em 2020, que envolveu a Polícia Militar e traficantes da região”, relatou o tuxaua geral do povo Maraguá, Jair Seixas Reis.

A denúncia foi feita no “Diálogo Interativo” realizado nesta segunda-feira, 14 de março, durante a 49ª sessão do Conselho de Direitos Humanos (CDH49). O evento contou com a participação da relatora especial do órgão sobre Defensores e Defensoras de Direitos Humanos, Mary Lawlor.

O conflito ao qual Jair se refere vitimou quatro ribeirinhos e dois indígenas Munduruku, após ação policial realizada em agosto de 2020 na região do rio Abacaxis, no Amazonas, entre os municípios de Borba e Nova Olinda do Norte. A operação também provocou a morte de dois policiais militares, além de outros dois ribeirinhos que seguem desaparecidos.

O caso, classificado pelo povo e por organizações de apoio como um massacre, teve origem no conflito causado por turistas que ingressaram ilegalmente no território de indígenas e ribeirinhos, na região dos rios Abacaxis e Marimari, para praticar pesca esportiva. Além das mortes, a operação da Polícia Militar no local gerou diversos relatos de violações de direitos humanos praticados pelos agentes de segurança.

O massacre no rio Abacaxis é um exemplo emblemático da violência das forças policiais do Estado e também da impunidade. Ribeirinhas e indígenas contam viver com muito medo depois do massacre, sofrem com a insegurança e com o descaso das autoridades sobre o ocorrido.

“Antes disso, nós conseguimos evitar um pouco das invasões. Mas agora já não há controle, madeireiros, grileiros, caçadores e traficantes roubam tudo o que preservamos”, denunciou a liderança Maraguá à ONU.

“Nossa água foi contaminada pelos corpos dos mortos deixados pela Polícia. Tivemos sede, fome e nosso povo ficou com muito medo”

Comunidade Pilão, do povo Maraguá, no Rio Abacaxis. Foto: Carla Cetina e Luiza Machado/Cimi Norte 1

Comunidade Pilão, do povo Maraguá, no Rio Abacaxis. Foto: Carla Cetina e Luiza Machado/Cimi Norte 1

Um ano após o massacre, organizações e movimentos sociais divulgaram uma nota onde asseguram ser perceptível que, desde a operação inicial, o objetivo nunca foi a busca por traficantes, como alegou a polícia, mas por vingança. “Os dias que seguiram, daquele mês, foram marcados por fome, sede, humilhações, prisões ilegais, torturas, assassinatos e diversas outras violações de direitos humanos. Foram dias sombrios e de matança para as populações da região do Abacaxis, com um saldo de oito mortos e dois desaparecidos, que comoveram e tiveram repercussão local e nacional”, destaca o documento.

Fatos que também foram denunciados por Jair ao Conselho. “Neste conflito”, relatou a liderança, “nossa água foi contaminada pelos corpos dos mortos deixados pela Polícia. Tivemos sede, fome e nosso povo ficou com muito medo”.

Movimentos sociais cobram a apuração da ação da Polícia Militar e exigem que cesse de imediato “todo tipo de repressão e violência que vêm sendo cometidas contra comunidades tradicionais, o povo indígena Maraguá e povo indígena Munduruku, que habitam os rios Abacaxis e Marimari, nos municípios de Nova Olinda do Norte e Borba”, lista outra nota pública e coletiva divulgada na época.

“As invasões continuam e as ameaças também. Queremos ajuda da ONU para seguir protegendo nosso povo e a natureza”

Ribeirinhos e indígenas relatam o aumento da violência e a expansão do tráfico, invasões ilegais de madeireiros, caçadores, pescadores predatórios e garimpeiros. “As invasões continuam e as ameaças também. Queremos ajuda da ONU para seguir protegendo nosso povo e a natureza”, apelou o tuxaua Maraguá.

Sem respostas do Estado brasileiro, ao completar um ano do massacre, organizações indígenas e indigenistas que acompanham o caso realizaram o webinário “Um ano do massacre do Abacaxis: Haverá justiça?”, com o objetivo de cobrar que o caso seja apurado e os culpados, punidos.

Por falta de tempo, a fala de Jair Maraguá não pôde ser veiculada durante o evento como havia sido programada, mas irá compor os anais da 49ª sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU.

Confira o discurso de Jair Seixas Reis, na íntegra:

Saudações!

Viemos a Manaus fazer uma denuncia à ONU.

Nós vivemos um conflito muito grave em 2020, que envolveu a Polícia Militar e traficantes da região. Antes disso, nós conseguíamos evitar um pouco das invasões. Mas agora já não há controle. Madeireiros, grileiros, caçadores e traficantes roubam tudo o que preservamos.

Neste conflito, nossa água foi contaminada pelos corpos dos mortos deixados pela Polícia. Tivemos sede, fome e nosso povo ficou com muito medo. A Polícia Federal prometeu instalar uma base onde houve o conflito, mas até agora nenhuma providência foi tomada.

As invasões continuam e as ameaças também. Queremos ajuda da ONU para seguir protegendo nosso povo e a natureza.

Fonte: Cimi