Bem-te-vi-rajado: A Amazônia está mais perto do que você imagina

Espécie passa período de reprodução na região Sudeste e em seguida viaja cerca de 30 dias até chegar na Amazônia

Todo ano o Myiodynastes maculatus, mais conhecido como bem-te-vi-rajado, viaja cerca de 3 mil quilômetros das regiões urbanas do sudeste do país, principalmente do estado de São Paulo, para passar “férias” na floresta Amazônica, onde fica longe de qualquer vestígio de civilização, cercado apenas pelo verde das florestas. A viagem da pequena ave mostra que a natureza está sempre interligada e mostra a importância de proteger as áreas verdes nas regiões urbanas e dos biomas brasileiros.

O bem-te-vi-rajado pesa cerca de 40 gramas e faz parte da família dos tiranídeos, com o corpo rajado de preto no fundo pardo, e cauda de cor ferrugem, é uma ave migratória que durante o período de  reprodução (setembro a fevereiro) pode ser encontrada nas áreas verdes urbanas.

Para entender um pouco mais sobre o processo de migração da ave, a bióloga, mestre em conservação ambiental e doutorado em zoologia, Karlla de Camargo Barbosa, lidera uma pesquisa para investigar o bem-te-vi rajado. Karlla revela que acreditava que a ave migrava para o nordeste do Brasil e que a emoção foi grande quando descobriu a rota feita por ele. “Quando vi que ele foi para o meio da Amazônia, aquilo me deu uma emoção tão grande, ele é sortudo de passar uma temporada de “férias” longe de todo mundo. E o mais interessante é que ele é um bicho que está ali do nosso lado, do lado de casa nas áreas urbanas.”

Karlla Barbosa com uma das aves capturadas para estudo

Confira a íntegra da entrevista

Amazônia.Org: O que te motivou a começar esta pesquisa e como ela tem sido realizada?

Karlla de Camargo Barbosa: Em 2015 eu fui para os Estados Unidas e conheci um projeto que é como o nosso Cemave, que faz parte do ICMBio cuidando das aves anilhadas (técnica de marcação individual das aves com pequeno anel de metal na pata), eu fiquei seis meses fazendo estágio dentro desse projeto nos EUA, descobri como a migração funcionava por lá, basicamente eles tinham um relógio dizendo “hoje chega fulano, amanhã vai embora beltrano”. Eu conheci o Alex Jam que foi o meu orientador no meu doutorado, eu conversei com ele sobre o quanto aquilo me encantava e que eu queria entender como funcionava em áreas urbanas, porque queria entender o que acontecia perto da minha casa. Então fiquei pensando quais eram as espécies que eu poderia estudar, e surgiu o bem-te-vi-rajado, eu amei, acho ele lindo, aquele rajado dele, ele canta o tempo todo, é como se  falasse “ estou aqui, e aqui é o meu espaço”. 

Entre 2016, que foi quando o projeto teve início, até conseguir os primeiros dados do GPS, foi uma longa jornada, eu só consegui os primeiros dados do GPS em 2020. O primeiro bicho que eu recapturei foi em 2019, mas o GPS simplesmente não funcionou, não capturou os dados.  Quando consegui os dados em 2020, eu estava pensando que ele iria para o nordeste, então quando vi que ele foi para o meio da Amazônia, aquilo me deu uma emoção tão grande, ele é sortudo de passar uma temporada de “férias” longe de todo mundo. E o mais interessante é que ele é um bicho que está ali do nosso lado, do lado de casa nas áreas urbanas e ele viaja quase 3 mil quilômetros para chegar no meio da floresta, onde tudo é verde. 

Foram colocados GPS em 12 aves, consegui recapturar cinco, dois aparelhos não conseguiram capturar os dados e os outros três bichos que eu peguei, os dados apontam que eles foram para locais de mata totalmente fechada, um deles foi para o Pará, outro para Roraima e outro para o norte do Mato Grosso, comecinho da Amazônia, é uma sensação incrível descobrir isso. 

Os GPSs que a pesquisa colocou é um aparelho bem pequeno com cerca de 1 grama que é colocado nas costas da ave e que armazena as informações, a cada cinco dias a gente programa para ele ligar e desligar e assim pegamos o ponto de coordenada geográfica. A dificuldade é que o bicho precisa ir e voltar, e a gente recapturar esse aparelho para baixar os dados, porque não conseguimos ver em tempo real como com alguns outros GPS que transmitem por satélite e que são aparelhos bem mais pesados. Fazendo uma comparação, é como se nós carregassemos uma mochila nas costas de aproximadamente uns três, quatro quilos, então não é fácil, ele é um campeão de ir e voltar, mas sabemos que não causa mal pro bicho, tanto que a gente capturou o GPS. Eu falo que eles são os mensageiros da Amazônia, porque eles vão pra lá, ficam na área verde, totalmente longe de pessoas, longe de cidades e voltam para se reproduzir nas cidades, nas áreas urbanas ou nas áreas rurais das cidades grandes. Eu recapturei um deles em Rio Claro, dentro do campus da Unesp, outro bicho que acabei de recapturar fez ninho numa área rural de Marília, que é uma cidade muito degradada, com pouquíssimas áreas verdes, mas mesmo assim ele escolheu um pontinho verde lá no mapa e fez seu ninho. 

Amazônia.Org: Agora falando sobre o Bem-te-vi rajado, quais as curiosidades e a história dele?

Karlla: O bem-te-vi rajado é uma ave pequena, pesa cerca de 40 gramas e vive nas áreas verdes urbanas. Hoje sabemos que não pode ser qualquer área verde, tem que ser uma área com uma porcentagem de mata com cerca de 10 hectares, se pensarmos em São Paulo, o parque Ibirapuera têm vários casais de bem-te-vi rajado, o parque da Luz, no centro de São Paulo, que está todo envolvido por áreas urbanas, têm um casal de bem-te-vi rajado que todo ano está lá.

Essa pequena ave faz ninhos em ocos de árvores, e quando não tem (porque a gente sabe que são árvores velhas que têm aquele tamanho grande para fazer o buraco, elas são retirados por que as pessoas tem medo que elas caiam e causem acidentes) eles acabam improvisando, mas eles precisam de um buraco, um lugar protegido para fazer seu ninho, eles não fazem as cestinhas como a maioria das aves fazem, e isso é uma característica importante, porque sem oco, não tem ninho. 

Ele passa a sua época de reprodução principalmente nas áreas verdes da região sudeste do Brasil e passa mais ou menos uns quatro meses entre chegar, procurar um buraco, fazer seu ninho, coloca os ovinhos, cria seu filhote e então ele parte em viagem de novo entre fevereiro e março, para o norte do país. Se a gente for ver, ele atravessa um oceano de cidades e plantações, atravessa o cerrado, ele não vê fronteira. Chegando na Amazônia, diferente do que ele encontra lá na região sudeste, vai ter um oceano de mata e lá ele não fica perto das pessoas, ao contrário, fica onde tem muita mata.

Ele faz parte da família Tyrannidae, de forma mais aportuguesada os tiranídeos, que tem várias espécies que fazem parte, o bem-te-vi é um deles, os suiriri, a tesourinha, são aves que ficam por aqui e que comem insetos. E porque a gente chama ele de bem-te-vi rajado? Na verdade ele nem é tão parente do nosso bem-te-vi amarelinho que encontramos na cidade, ele é como se fosse um primo próximo, mas o formato corpo deles são muito parecidos, o comportamento de comer insetos e algumas frutinhas. Outra curiosidade que até mesmo eu tenho, é a forma como ele aprende tão rápido, o filhote nasce entre novembro e dezembro e no máximo em abril ele tem que migrar, ainda super jovem. Não sabemos ainda para onde o filhote vai, será que ele vai junto com os pais? Será que os pais ensinam ele a migrar? Ou será que o relógio biológico dele já sabe que ele tem que subir para o norte do país?

Amazônia.Org: Por que que eles escolhem ter o filhote aqui no Sudeste ao invés de tê-los na Amazônia?

Karlla: Isso já está registrado na memória genética dele há muitos anos, o que aconteceu foi que ele já morava e se reproduzia aqui antes, a cidade tomou conta da região, então ele se adaptou a morar nas áreas verdes urbanas do jeito que morava antigamente. E tem a questão da temperatura também, quando eles sobem para o norte, aqui começa a ficar frio e com menos oferta de alimentos, a gente não encontra pernilongo e insetos no frio, então eles fogem desse frio para buscar onde ainda tem alimentos, por isso é importante manter a Amazônia conservada, porque se não tiver alimento quando chegar lá e no meio do caminho também, se ele não tiver áreas verdes no meio do caminho, ele não tem onde abastecer, é como se fosse o combustível, ele tem que ir parando. De acordo com os nossos dados, ele demora de 20 a 30 dias para fazer essa viagem. Imagina você tá na estrada e precisa parar no posto de gasolina a alguns quilômetros, e se não tiver um posto de gasolina? Como é que você faz? Você não vai chegar ao seu destino. Isso é o que acontece com muitas aves migratórias. Então tem que ter oferta de alimentos onde está, por onde ele passa e onde chega. Essa coisa dele subir para o norte é o relógio genético dele avisando que é o momento de ir, senão acaba o alimento, mas ele volta, porque no Sudeste ainda têm alguns lugares que oferecem o recurso que ele precisa. Mas e se acabassem todas as áreas verdes do sudeste e não tivesse mais oferta de alimento para nenhum desses bichos migratórios que nos prestigiam e nos visitam todos os anos? Provavelmente eles morreriam, ei isso tornaria eles uma população residente, como acontece com algumas espécies fora do Brasil. E eu espero que isso não aconteça aqui, espero que eles continuem voltando todos os anos.

A espécie passa o período de reprodução nas áreas urbanas do sudeste

Amazônia.org: Qual a importância da conservação do habitat natural das aves, no geral, atualmente vemos várias espécies ameaçadas de extinção, se melhoramos o índice de desmatamento conservando mais a floresta amazônica, melhoramos o modo de vida e a conservação das aves?

Karla: Falando bem-te-vi rajado em si, ele não é uma espécie ameaçada, ele é comum, mas eu digo sempre “mantenha comum o que é comum, para ele não ficar ameaçado no futuro”. Não só na Amazônia, nós precisamos manter áreas verdes em todo o Brasil, áreas de conservação são ótimas, um parque urbano ou uma praça bem arborizados, um rio com seu contorno, ou pelo menos a borda com mata, pode servir de caminho, não só para o bem-te-vi, como para os outros bichos. 

Existem pesquisas que comprovam que mesmo as aves que vivem em áreas urbanas precisam de uma área que tenha oferta de água, baixo ruído, e uma quantidade grande de área verde. E se tirarmos esse recurso hídrico, as áreas verdes, a gente tá ferindo a nossa própria espécie, tirando coisas que são importantes para a nossa sobrevivência. A floresta amazônica, não é segredo para ninguém, que é a nossa forma de controlar o clima, sem ela não teremos bichos, não teremos oferta de alimentos para as aves e elas não vão conseguir sobreviver. O Bem-te-vi Rajado ainda migra, mas e as aves que não migram? Por exemplo as aves que são fotofóbicas, que não conseguem sair do meio da mata. Se você tira a mata, não é porque ela voa que ela consegue sobreviver a qualquer condição. O Brasil é o primeiro em espécies ameaçadas no mundo, isso não é interessante para ninguém, ter um país com o maior número de espécies ameaçadas. Não somos o primeiro em número de espécies, estamos em segundo ou terceiro, mas somos o primeiro em número de espécies ameaçadas. 

Temos que lembrar que sem os bichos a floresta não funciona, sem as espécies que estão ali consumindo, dispersando semente, controlando os insetos, a mata não sobrevive, é um dependente do outro, a mata precisa dos bichos e os bichos precisam da mata e nós precisamos de todos eles.

Amazônia.org: Você considera a exploração do turismo ambiental positiva ou negativa para a preservação de aves?

Karla: Eu considero positivo se for bem feito. As aves encantam qualquer pessoa, se você pegar uma criança e mostrar um passarinho, ela vai ficar toda sorridente. E comparado a outros bichos as aves são fáceis de serem observadas, tem várias cores, tamanhos, isso chama atenção porque a nossa diversidade é muito grande, são quase duas mil espécies aqui no Brasil.  turismo para observação de aves costumam ser um turismo limpo, porque geralmente é uma pessoa que se importa com o meio ambiente, então ela não vai chegar lá e jogar lixo no local, não vai sair pisoteando todas as plantas, e claro que cabe ao guia ser bem treinado e saber até onde ele pode explorar essas espécies. O turismo é uma grande ferramenta para a conservação, porque as pessoas vão conhecer, vão investir dinheiro naquela comunidade local, o turismo é muito bem-vindo seja na Amazônia ou em outras regiões. E é muito importante para as pessoas conhecerem e valorizarem, é como diz o jargão bem típico “a gente só conserva o que conhece” é uma oportunidade de levar as pessoas a conhecer a Amazônia, as riquezas e as belezas do local.

Amazônia.org: Têm algo que você gostaria de acrescentar?

Karla: Estamos em uma época na qual foram feitos tantos cortes nas áreas de pesquisas e ciências, e eu queria ressaltar que sem investimento não conseguimos fazer pesquisa, não conseguimos entender minimamente o que pode acontecer não só com o bem-te-vi rajado e outros bichos, mas com nós de forma geral. Porque nós usamos esses dados para entender a nossa vida e o quanto isso pode influenciar no nosso dia a dia. 

Por: Nicole Matos
Fonte: Amazônia.org