Campanha de quaresma busca apoio para indígenas e ribeirinhos do Rio Abacaxis, atingidos por conflitos, violência e fome

Iniciativa arrecada doações para comunidades ribeirinhas e povos Munduruku e Maraguá, duramente afetados pela violência policial e pela fome em meio à pandemia. Saiba como ajudar

Entrega de cestas básicas para o povo Maraguá, no Rio Abacaxis, em agosto de 2020. Foto: Luíza Machado/Cimi Regional Norte 1
Entrega de cestas básicas para o povo Maraguá, no Rio Abacaxis, em agosto de 2020. Foto: Luíza Machado/Cimi Regional Norte 1

Anualmente, na Quaresma, o frade dominicano, escritor e ativista Frei Betto lança uma campanha de arrecadação de recursos para ajudar comunidades em situação de vulnerabilidade. Neste ano, sensibilizado pela situação grave que passa o estado do Amazonas na pandemia e em contato com entidades da região, Frei Betto decidiu direcionar sua iniciativa solidária aos povos e comunidades do Rio Abacaxis, localizado nos municípios de Borba e Nova Olinda do Norte.

As comunidades ribeirinhas da região e os povos Munduruku e Maraguá vivem, desde o ano passado, um período intenso e contínuo de violência e de violações. Os conflitos pela terra e pela água, que se desenrolam há anos devido à cobiça pelos recursos naturais do Rio Abacaxis, se intensificaram após uma série de assassinatos de indígenas e ribeirinhos e da desastrosa atuação da Polícia Militar, que reprime duramente as comunidades.

Desde agosto do ano passado, o medo da violência e a repressão policial têm impedido os indígenas e ribeirinhos de circular pelo rio e igarapés para pescar, de adentrar as matas em segurança para caçar e mesmo de frequentar seus roçados para produzir alimentos.

Sem condições de exercer suas práticas tradicionais de subsistência, numa região ainda mais isolada em função da pandemia de covid-19, os Munduruku, Maraguá e ribeirinhos foram atingidos pela fome.

Diversas organizações da sociedade civil que apoiam a luta desses povos e comunidades em defesa de seus direitos e territórios também se somaram à campanha de Frei Betto. Nos últimos meses, essas entidades vêm buscando dar suporte aos indígenas e ribeirinhos e garantir o fim das violações na região.

Entre elas estão o Conselho Indigenista Missionário – Cimi Regional Norte 1, a Comissão Pastoral da Terra – CPT Amazonas, o Serviço Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental (SARES), o Conselho Nacional de Trabalhadores das Reservas Extrativistas (CNS) e o mandato do deputado federal Zé Ricardo (PT/AM).

A Campanha seguirá durante toda a Quaresma, que se iniciou na Quarta-Feira de Cinzas, dia 17 de fevereiro, e se encerra na Sexta-feira da Paixão, dia 2 de abril de 2021.

Abaixo, saiba como doar, leia a mensagem completa de Frei Betto e acesse notícias sobre a situação no Rio Abacaxis:

Como doar
Doações de qualquer valor podem ser feitas para:
CNPJ: 00.479.105/0009-22
Banco: Bradesco (237)
Agência: 2239
Conta Corrente: 14.825-3
Mais informações: [email protected]

Saiba mais sobre a situação dos povos e comunidades do Rio Abacaxis:

Ocupantes de lancha de turismo atiram contra comunidade Maraguá

Movimentos sociais pedem apuração de ação da PM contra ribeirinhos e indígenas no AM

Organizações pedem afastamento da cúpula da Segurança Pública do Amazonas por massacre no rio Abacaxis

Leia a mensagem completa do Frei Betto:

CAMPANHA DE QUARESMA 2021

Queridos amigos e amigas,

Este ano a campanha atrasou devido à pandemia e dificuldade de escolher um alvo beneficiário entre tanta carência Brasil afora. Os escolhidos, afinal, são as comunidades indígenas Maraguá e Munduruku, e ribeirinhas, do Rio Abacaxis, em Borba e Nova Olinda do Norte, no Amazonas, cujos direitos humanos foram profundamente violados pela Polícia Militar daquele estado em agosto passado.

Essas comunidades vivem em um dos complexos fluviais mais belos e diversificados da Amazônia, com centenas de rios, igarapés e ilhas, interligando os rios Madeira e Amazonas. A região se caracteriza por grande diversidade cultural e linguística. É um dos últimos redutos da língua indígena Nheegatu.

A natureza exuberante e as riquezas naturais ali encontradas atrai a cobiça de empresas pesqueiras, madeireiros, turistas e traficantes de drogas.

Em agosto de 2020, Saulo Moysés Rezende da Costa, secretário-executivo do Fundo de Promoção Social do Governo do Amazonas, participava de uma pescaria ilegal em meio à crise de saúde pública que assola o estado, quando supostamente foi baleado no ombro e jurou vingança. Pouco dias depois, a mesma lancha usada pelo secretário circulou na região com policiais militares armados e sem uniforme, desencadeando uma onda de torturas e mortes na região. Ao desembarcar na comunidade Terra Preta de Borba, os policiais foram emboscados por traficantes. Dois foram mortos e dois, feridos. O governador ordenou a ocupação da região. Mais de 50 policiais se deslocaram para lá. Sem conhecer a região, alguns se perderam no labirinto fluvial e acabaram entrando de lancha por um igarapé que dá acesso a terra indígena Coatá-Laranjal, do povo Munduruku. Ali, abordaram e assassinaram Josimar e Josivan Moraes Lopes, dois jovens irmãos Munduruku que viviam distantes dezenas de quilômetros do local do primeiro conflito.

Era apenas o início do terror que predominou na região. Torturas generalizadas e execuções sumárias tomaram conta do rio, com sete mortes confirmadas e muitas outras sendo investigadas. Comunidades inteiras foram submetidas a todo tipo de ameaças. Sob o comando direto do secretário de Segurança Pública e do comandante geral da PM, foi interrompido todo o fluxo de pessoas no rio. Quem se arriscava a navegar sofria violência. É o caso de uma mulher e três crianças feridas a bala dentro do barco em que navegavam. Indígenas e ribeirinhos foram impedidos de saírem de suas comunidades e aldeias, proibidos de pescar e entrar na mata para acessar suas roças. A fome se instalou. Um prato de comida era dividido entre três pessoas como única refeição do dia. Corpos em estado de decomposição foram encontrados boiando no rio Abacaxis, única fonte de água dos moradores da região.

Essa situação só foi amenizada no dia em que entidades do movimento popular e o Ministério Público Federal quebraram o cerco de violência e conseguiram introduzir algumas cestas de alimentos e água nas comunidades. Entidades da sociedade civil (entre elas Cimi, CPT, SARES, FANDDI, Arquidiocese de Manaus, CNS, Cacuí e CRB) se movimentaram para acompanhar os fatos, buscando garantir a segurança das comunidades, responsabilizar os agressores e promover mudanças estruturais no sistema de segurança pública do estado.

As entidades permanecerão apoiando as comunidades até que o processo de investigação seja concluído, os culpados responsabilizados, e a paz reestabelecida. Entretanto, há uma sobrecarga nesse período de pandemia. Estão todos exaustos em virtude da grande demanda de trabalho. Há dificuldades de contato com as comunidades isoladas. O descontrole total da pandemia no estado do Amazonas já interrompeu precocemente mais de 10.000 vidas, inclusive companheiros que atuaram diretamente no caso do rio Abacaxis. Edina e Rosha, ambos do Cimi, faleceram ainda no ano passado.

Nesse sentido, todo o apoio será muito bem-vindo. É preciso dar visibilidade ao caso, garantir comunicação e assegurar a alimentação às comunidades do rio Abacaxis que sofrem todo tipo de carência nesta segunda onda da Covid-19. É urgente também melhorar a comunicação entre as comunidades locais (atualmente não há energia elétrica e nem rede de internet); instalar sistema de captação e armazenamento de águas; e infraestrutura de transporte, sobretudo considerando a necessidade de deslocamento rápido de pessoas infectadas pelo vírus.

Sua doação, ainda que de R$ 1, pode ser feita através do: Conselho Indigenista Missionário – Cimi Regional Norte 1: CNPJ 00.479.105/0009-22 / Banco Bradesco (237) / Agência: 2239 / CC: 14.825-3

Se precisar de recibo ou alguma informação suplementar, entre em contato com: Cimi Regional Norte 1 – [email protected]

Fonte: Cimi

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