Caos na Pandemia: Após superlotação em UTIs, Amapá teme as variantes

Caos na Pandemia: Após superlotação em UTIs, Amapá teme as variantes
A vacinação contra o novo coronavírus iniciou no estado com os indígenas, profissionais de saúde e idosos na faixa etária entre 80 e 85 anos (Foto: GEA)

As cenas alarmantes vivenciadas pelos manauaras com a falta de leitos, oxigênio e recortes de mortes por causa da Covid-19 trouxeram comoção mundial e deixam autoridades em alerta com a hipótese da calamidade se repetir nos demais estados, caso medidas emergenciais e eficazes não sejam adotadas, principalmente pelo surgimento de novas variantes do coronavírus.

Com a confirmação de novas cepas no País, em especial na Região Norte, como ocorreu nos estados de Manaus, Roraima e Pará, aumentou ainda mais a preocupação de grande parte da população do estado do Amapá, que ainda vem se recuperando de sustos, dores e perdas irreparáveis do apagão de energia e do período de superlotação de leitos de UTI.

No mês de dezembro, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) publicou boletim com recomendações aos prefeitos eleitos para o enfrentamento da Covid-19 nos municípios. O documento chamava a atenção para o aumento na busca por assistência especializada, principalmente internações hospitalares e em UTIs, tanto nas regiões metropolitanas quanto no interior. 

Em janeiro, relatou que a ocupação dos leitos de UTIs para Covid-19, na rede pública, terminou 2020 e começou 2021 acima de 80% em nove capitais brasileiras, neste, Macapá estava com 94,4%. Vale lembrar, ainda, que no final de 2020, o Amapá chegou a ter aumento de 500% nos casos de pessoas com a doença e esteve entre os estados com maior índice de mortalidade. 

À Amazônia Real, a promotora de Justiça Fábia Nilce, titular da Promotoria da Saúde, afirmou que esse crescimento vinha se manifestando desde o Boletim Epidemiológico do dia 11 de outubro, em que o Amapá apareceu na faixa vermelha de risco.

“Com o apagão, os problemas aumentaram. O Ministério Público recebeu denúncias de falta de recursos humanos, insumos e materiais e pediu uma visita técnica da auditoria do SUS – componente estadual, e sinalizou diversas irregularidades, confirmando as mesmas”, pontuou Nilce.

De acordo com o balanço do Consórcio de Veículos de Imprensa, nos últimos 28 dias, a média móvel de mortes no Brasil ultrapassa 1 mil e nove estados seguem com alta: Goiás, Acre, Amapá, Pará, Rondônia, Roraima, Bahia, Ceará e Paraíba.  O último boletim epidemiológico, atualizado pelo governo do Amapá, confirma 1.120 óbitos e o percentual de 52,15% de ocupação dos leitos voltados para o atendimento da Covid-19. 

Agravante em transferência 

Abertura de novos leitos no Centro Covid-19 do HU (Foto GEA)

No final de janeiro, a Unimed Fama, hospital da rede privada, transferiu três pacientes de Manaus para a unidade de Macapá. Na época, a informação foi divulgada em uma rede social pelo governador Waldez Góes (PDT).

“Foi constatado a internação de uma paciente transferida de Manaus (AM) por UTI aérea sem a notificação obrigatória às autoridades locais ou nacionais. Além deste caso, a SVS confirmou o óbito de outras duas pacientes também transferidas de Manaus para o Hospital Unimed Fama em Macapá por UTI também sem a autorização das autoridades Sanitárias e de Saúde, configurando crime de infração de medida sanitária e atentado à Saúde Pública”, afirmou o governador. 

Diante de tamanha repercussão, a rede hospitalar emitiu nota no dia 2 de fevereiro, ressaltando a crise sanitária em Manaus. “Tal decisão obedeceu ao clamor dos hospitais credenciados, que estavam com seus leitos lotados e sem capacidade de atender nenhum novo paciente em seus Pronto Atendimentos, aliado à falta de oxigênio amplamente noticiada pela mídia nacional e internacional, bem como a solicitação do Ministério Público e decisão judicial do Tribunal de Justiça do Estado do Amazonas”

Dos referidos pacientes, duas mulheres vieram a óbito. A Secretaria de Vigilância Sanitária (SVS) aguarda o resultado de exames para confirmar se os pacientes eram portadores da nova cepa. Uma ação civil pública foi ajuizada pela Procuradoria-Geral do Amapá em desfavor do Hospital Central, Unimed Fama e Unimed Macapá, e caso sejam condenados, pagarão multa de R$ 6 milhões por danos coletivos.

Em entrevista à agência Amazônia Real, o presidente da Comitê Médico de Enfrentamento à Covid-19 no estado do Amapá, coronel Pedromar Valadares, disse acompanhar a evolução crítica em Manaus e considera como uma “tempestade perfeita, a qual se deve a vários fatores de logística, gestão, do comportamento da população sob as medidas de proteção e as condições que a cepa se desenvolveu, de maneira mais rápida.

“Imaginava-se que o Amazonas, sendo o primeiro estado a sofrer com a primeira onda no início da pandemia, já tivesse a primeira imunidade de rebanho, ou seja, a imunidade coletiva pela grande exposição, número de casos, etc, o que veio derrubar essa ideia”, pontuou. 

O Coronel ressaltou que a nova cepa também chegou em Belém, onde vários hospitais da rede privada estão lotados e, segundo ele, na rede pública ainda há vagas, mas está se desenhando um novo panorama como se fosse um efeito dominó, citando o colapso em Rondônia, Acre e Roraima. “O Amapá, até então, ainda estamos no período de diminuição do número de casos e de ocupação de leitos”, ponderou.

Dentre as providências tomadas pelo Coesp, o coronel Pedromar disse que reforçaram as parcerias com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) e fizeram a identificação dos pontos críticos no estado, como mapeamento de leitos e pontos de oxigênio, assim como mantiveram contato com a White Martins – fabricante de gases industriais, medicinais e especiais -, que garantiu aumento no suprimento inicial.

“Caso haja o momento exponencial do número de casos, a gente consiga suprir ou pelo menos evitar a catástrofe ou diminuir o impacto disso na população como exemplo que aconteceu em Manaus”, garantiu. 

Desde o dia 16 de fevereiro, o Amapá segue com as medidas do Decreto 0469, que restringem aglomerações de forma mais rígida até o dia 22 do mesmo mês. Mas em todo estado, registrou-se diversas festas clandestinas no período carnavalesco.

Alerta nas fronteiras

Cidade Vitória do Jari (Foto: Wenndel Paixão/Secom AP)

Laranjal do Jari, município que faz fronteira com o oeste do Pará, teve um aumento significativo nos casos de pacientes com a Covid-19 e está com 100% de leitos clínicos ocupados, inclusive com a possibilidade de nova variante.

Uma equipe técnica foi direcionada ao município para realizar o monitoramento e a transferência de pacientes para Macapá, além de aumentar a capacidade de oxigênio nos hospitais da referida região, com nova remessa de novos cilindros.

Já a Guiana Francesa, território fronteiriço com o município de Oiapoque, registrou 4 casos de pacientes com a nova cepa, um morreu.

Conscientização nos cuidados

Indígenas forma os primeiros a serem vacinados contra Covid-19 no Amapá
(Foto: Maksuel Martins /GEA)

A pesquisadora titular em saúde pública da Fiocruz (RJ), Margareth Queiroz, concedeu entrevista à reportagem. Ela reforçou a importância da população se conscientizar sobre os protocolos imprescindíveis de proteção ao novo coronavírus.

Pelo fato de ser um vírus mutante, Margareth explica que de acordo com essas mutações, cada vez que o indivíduo for infectado, terá uma variante diferente, e essas apresentam maior facilidade de transmissão. 

“Não se sabe ainda se são mais patogênicas, mas são variantes que a propagação do vírus é de maior eficácia. Isso é preocupante, porque a população também tem de fazer a sua parte em relação a higienização, a preservação de não se expor ao vírus, ficar mais em casa e evitar a aglomeração. Sabemos que a população não tem tomado esses cuidados e não está sendo bem orientada”, enfatizou.

A pesquisadora chama atenção de todos para acreditarem na vacinação, e não em fake news, e deixa uma mensagem de esperança:

“Nós não vemos o vírus, mas ele existe. Daqui a pouco, toda população vai ser vacinada em massa, porque a vacina vai realmente causar a imunização, fortalecer o nosso sistema imune e ficaremos resistentes ao vírus. Vamos acreditar na vacina! Não é só o governo, os profissionais da área de saúde, temos que nos conscientizarmos, fazer a nossa parte e contribuir com a redução de casos de Covid-19”, disse Margareth Queiroz

Plano de Vacinação 

Funcionário de saúde do Amapá faz testes na pandemia (Foto: Nathan Zahlouth/Gov AP)

Depois de muitos contratempos protagonizados pelo governo federal, o superintendente da SVS/AP, Dorinaldo Malafaia, informou à Amazônia Real que o Plano Estadual de Vacinação visa a integração entre todas as ações de recepção, acondicionamento e distribuição das vacina para os grupos prioritários, seguindo o Programa Nacional de Imunização (PNI), para que não tenha descontinuidade nas ações de vacinação.

“Nós temos hoje o plano sincronizado e apoiado pelos prefeitos, condições de insumos e uma capacidade instalada de recepção de 36 mil litros cúbicos dessa vacina, ou seja, uma capacidade já instalada para a recepção, seringas e agulhas, que podem responder as primeiras necessidades da primeira etapa de vacinação, e estamos também acrescentando a esse plano estadual, o incremento do apoio da Segurança Pública, em virtude da complexidade e da própria necessidade de não ter extravio dessas vacinas para outras pessoas ou algum tipo de incidente”, assegurou o superintendente.

Este mês, Fiocruz anunciou a chegada do lote de 3,2 milhões de doses da vacinas do Instituto Serum, um dos centros produtores da AstraZeneca na Índia. A iniciativa é parte de uma estratégia paralela à produção de vacinas a partir da chegada do Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA) ao Brasil.

Mas houve outro erro do governo federal no envio do imunizante aos estados da Região Norte. O Amapá recebeu o carregamento de avião errado, na quarta-feira (24). O Ministério da Saúde enviou 78 mil unidades da Astrazeneca que era do Amazonas. As 2,8 mil doses de vacinas do Amapá foram para o Amazonas. O MS corrigiu o erro na quinta-feira (25), enviando as doses corretas para cada estado. Agora os amapaenses do primeiro grupo de prioridade, que os indígenas, profissionais de saúde e idosos na faixa etária entre 80 e 85 anos, já estão sendo vacinados contra a Covid-19.

Por: Bianca Andrade
Fonte: Amazônia Real

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