Cheia e Covid-19 colocam em risco segurança alimentar de aldeias do Acre

Com seus roçados comprometidos e sem alimento na aldeia, indígenas se expõem à Covid-19 por serem obrigados a ir à cidade.

Cheia e Covid-19 colocam em risco segurança alimentar de aldeias do Acre
Na imagem acima, Henley Kaxinawá, moradora da aldeia Boa Vista, no Alto Rio Envira. “Água suja e com gosto de ferrugem”, diz. (Foto: Antônio de Carvalho Kaxinawá/março/2021)

As enchentes do início de 2021 que desabrigaram milhares de famílias nas cidades do Acre, também foram e ainda são sentidas pelas populações ribeirinhas e indígenas. Após a vazante dos rios nas aldeias, o cenário é de roçados e plantações inteiras destruídas pelas águas e pelo desbarrancamento das margens, colocando em risco a segurança alimentar de comunidades indígenas pelos próximos meses. O acesso à água potável é outro problema nestas aldeias, já que as fontes foram atingidas pelas inundações. Agora, a única água disponível é a do próprio rio, deixando os indígenas vulneráveis a doenças causadas pelo consumo do líquido impróprio.    

A situação se torna ainda mais preocupante com o agravamento da pandemia no país. Sem seus roçados e criações, os indígenas são obrigados a ter que ir até as cidades com mais frequência comprar comida, ficando expostos à contaminação pelo coronavírus e suas variantes. Apesar de já terem sido imunizados contra a Covid-19 com as duas doses da CoronaVac, muitos rejeitaram a vacina com medo de possíveis efeitos adversos, influenciados por fake news.     

A Terra Indígena Kaxinawá Nova Olinda, localizada no município de Feijó, é uma das mais afetadas pelas cheias do início deste ano no Acre. Já é certo que pelos próximos meses os 686 moradores das cinco aldeias estarão com sua segurança alimentar e hídrica comprometida. Além dos roçados de banana e macaxeira destruídos pela cheia do rio Envira, a diversidade de frutas recém-plantadas pelos indígenas do povo Kaxinawá (autodenominados Huni Kuin) no sistema agroflorestal (SAF) foi afetada. Até as casas de farinha ficaram inutilizáveis. As próprias moradias ficaram comprometidas, e terão de ser reconstruídas. 

Era ainda de madrugada quando as águas do Envira subiram repentinamente. Não houve tempo para salvar nem mesmo as criações de galinhas e porcos, que foram levados pela correnteza com embarcações e motores tão essenciais à sobrevivência dos Kaxinawá. As aldeias da TI Kaxinawá Nova Olinda estão distantes até quatro dias de viagem subindo o Envira – isso quando o rio está em boas condições de navegabilidade. No período seco do ano, pode-se demorar até sete dias viajando em canoas. 

“A gente perdeu muita coisa. Banana, macaxeira, as frutas que plantamos no roçado de banana, abacate, manga, graviola, cupuaçu, cacau, açaí, patoás, bacaba, tudo isso a gente perdeu nas margens do rio. Agora a gente vê a comunidade clamando por uma fonte para resgatar o que perdemos”, diz Antônio de Carvalho Kaxinawá, da aldeia Boa Vista. Por meio do WhatsApp, ele conversou com a reportagem da Amazônia Real desde Feijó, cidade distante 362 quilômetros da capital Rio Branco.

Segundo Antônio de Carvalho Kaxinawá, houve um momento em que os Huni Kuin da Nova Olinda ficaram sem comida. A caça e pesca passaram a ser a salvação. Mas durante as cheias nem sempre se tem sorte de encontrar animais no meio da mata. Como a enchente levou as linhas, anzóis e tarrafas, os indígenas ficaram sem condições de pescar. “A gente passava mais de horas para topar terra [seca] dentro das matas, e a canoa muitas das vezes não dava para fazer a volta dos paus que tinha. Passamos 16 dias sem poder fazer nada. Foi quando faltou alimentos”, lembra Bane, que é o nome de Antônio na língua Huni Kuin.

As cheias levaram três canoas e dois barcos de alumínio de seis e oito metros, estes últimos utilizados para a vigilância. Sem barco e sem diesel, os Huni Kuin não conseguiam socorrer aos desabrigados. Sem as embarcações, afirma Bane, ficava até difícil salvar as galinhas e os porcos. 

O isolamento reforçou dificuldades para os povos indígenas do Alto Envira logo após as cheias. As comunicações foram interrompidas e eles sequer podiam pedir socorro para os órgãos públicos da saúde, da educação e até da prefeitura municipal. Os Huni Kuin estimam que mesmo em seis meses ou um ano não será possível resgatar tudo o que foi perdido em janeiro.

“Para a gente recuperar este bananal aqui vai ser um ano e meio. O que restou de bananeira, para a gente recuperar em 2022, vai ser difícil porque está tudo debaixo d’água. Então a gente vai passar por momentos difíceis porque a água prejudicou bastante”, diz o cacique Clécio Barbosa da Silva Kaxinawá, cacique da aldeia Boa Vista, na TI Kaxinawá Nova Olinda. 

Em um vídeo gravado, em que se vê os pés de banana ainda com muita água acumulada, o cacique Clécio revela o tamanho da perda: “Eu como agente de saúde e cacique desta comunidade me sinto triste com esta situação. Peço apoio e contribuição das instituições para que nos apoiem. Perdemos mais de 80% de nossa produção de amendoim, macaxeira, banana, cará, taioba, laranja, tangerina, abacate, limão, mamão e outras”.

Sem água potável

Moradora da aldeia Boa Vista, no Alto Rio Envira, Henley Kaxinawá, usa água do rio para beber e fazer comida (Foto: Antônio de Carvalho Kaxinawá março/2021)

Às margens do rio Envira, Henley Barbosa da Silva Kaxinawá usa uma panela para pegar a água que servirá para tomar banho, lavar roupa, beber e preparar a comida. As cacimbas e os poços usados pelos Huni Kuin para ter água potável estão, agora, tomados de lama, imprestáveis. A solução tem sido aconselhar as pessoas a usarem a água do rio só depois do barro “sentar”. “É uma água suja, tem gosto de ferrugem. É por isso que pedimos um pouco de abastecimento, pois seria melhor para consumir a água limpa não só para mim, mas para todas as aldeias”, diz Henley no vídeo gravado por Antônio.

O transbordamento dos rios Purus, Tarauacá, Moa, Juruá, Jordão e Yaco também causaram danos a outros povos indígenas do Acre e do sul do Amazonas, como os Apurinã de Boca do Acre. Plantações e criações inteiras foram destruídas. Desde então, essas populações dependem exclusivamente da caça e da pesca para não passarem fome, além da doação de cestas básicas por organizações da sociedade civil. 

De acordo com levantamento feito pela Comissão Pró-Índio (CPI-Acre), entre as TIs mais afetadas pelas cheias estão a Katukina Kaxinawá, Alto Purus, Baixo Jordão, Kaxinawá do Rio Jordão, Igarapé do Caucho, Igarapé Preto, Seringal Independência e Kaxinawá do Rio Humaitá. Há registros também em aldeias de terras não homologadas, como as do Jaminawa no rio Yaco e dos Nawa no rio Moa. 

Nas cheias urbanas, os estragos podem ser amenizados a curto prazo por meio da doação de alimentos, roupas e utensílios em campanhas de solidariedade. Nas comunidades ribeirinhas e indígenas, muitas vezes por estarem na invisibilidade, os efeitos são mais duradouros. No caso das aldeias essa recuperação vai levar ainda mais tempo já que roçados inteiros foram perdidos. Plantações de banana cujos pés levaram anos para chegar ao ponto de colher o fruto foram perdidos em dias. 

A banana é um dos principais itens da base alimentar dos povos indígenas. Pelas aldeias, o mingau de banana é indispensável, sendo preparado logo de manhã e ao fim da tarde. A macaxeira também não pode faltar no cardápio. Dela se faz a farinha degustada nas refeições e como reforço nos copos de açaí. Em algumas comunidades, a mandioca ainda é usada para a produção de uma bebida sagrada: a caiçuma.

O prejuízo nos roçados

Clécio Kaxinawá, cacique da aldeia Boa Vista, na TI Kaxinawá Nova Olinda, perdeu 80% da produção (Foto: Antônio de Carvalho Kaxinawá março/2021)

As praias e barrancos que se formam nas margens dos rios são as áreas preferidas para o plantio entre as comunidades ribeirinhas. Na época da cheia, essa produção é interrompida, ficando apenas os roçados mais distantes das margens, justamente para evitar os impactos das subidas dos rios, tão comuns na Amazônia nos meses chuvosos. Em 2021, por conta do fenômeno climático La Niña, a quantidade de água que caiu do céu superou todas as expectativas, com o consequente transbordamento dos mananciais também acima do esperado.  

Descendo o rio Envira, ficam as aldeias da Terra Indígena Katukina Kaxinawá, habitada pelos Huni Kuin e os Shanenawa. Os relatos são os mesmos de quem está mais próximo das cabeceiras: roçados e criações inteiras perdidos, fontes de água potável destruídas e casas afetadas. 

Na aldeia Paroá, até a escola terá de ser reconstruída. Ismael Shanenawa é agente agroflorestal indígena da aldeia Shane Kaya, localizada longe das margens do rio. Seus roçados não foram comprometidos. Apenas algumas casas localizadas no alto de um morro precisaram ser removidas pelo risco de desmoronamento. Os parentes que moram à margem do Envira, porém viram todos os seus roçados destruídos pela água. 

“Aqui em Feijó tivemos três alagações sucessivas do rio Envira e prejudicou muito as terras indígenas. Houve muita perda de pé de banana, mamão e macaxeira que o pessoal planta mais do rio porque ajuda depois na hora do transporte da produção para vender na cidade”, diz Ismael Shanenawa. 

Além dos Huni Kuin e Shanenawa, o rio Envira é habitado às suas margens pelos Ashaninka e os Madijá (Kulina), além do povo recém-contatado Shinane. Nas cabeceiras do Envira ainda há registro da intensa presença de povos isolados, que também fazem dos roçados de banana e macaxeira uma de suas principais fontes de alimentação. 

Município com uma das maiores presenças de população indígena urbana do Acre, Jordão só é acessível por via aérea ou fluvial. Os Huni Kuin são a maioria entre a população indígena do estado. Em Jordão suas aldeias estão em três terras: Kaxinawá do Rio Jordão, Baixo Jordão e Seringal Independência. Morador da aldeia Nova Empresa, na TI Baixo Jordão, Lucas Sales Kaxinawá explica que as cheias causaram diferentes impactos nas comunidades. Aquelas localizadas nas partes mais altas dos barrancos sofreram menos. O maior prejuízo ocorreu com as plantações à beira do rio, perdidas com o desbarrancamento. Com a vazante dos rios, é comum parte das margens desmoronarem, fenômeno conhecido como terra caída. 

O gado foi levado pelas águas

Imagem de março de 2021 das comunidades do rio Gregório, município de Tarauacá (Foto cedida: Sandro Falcão/SOS Amazônia)

No vizinho município de Tarauacá, a cheia do rio Gregório comprometeu o roçado de comunidades Yawanawá, Katukina e de populações ribeirinhas. Além de serem essenciais para a própria alimentação, os roçados são a única fonte de renda para esses produtores rurais. Entre estes produtores ribeirinhos, até a criação de gado foi arrastada pela enchente. “Um vizinho meu perdeu 90 cabeças de boi com a subida do rio. Conseguiu recuperar umas 40”, diz seu Mário, morador das margens do Muru, em vídeo feito pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Tarauacá.  

“A gente traz nossa produção para a cidade. Isso vai ter crise na cidade e vai ter crise também na nossa alimentação, que é de onde tiramos o nosso pão. Para mim isso vai ser uma crise muito grande”, explica outro agricultor ribeirinho identificado como Zezinho. Ele é morador da comunidade do Ariramba, no rio Tauari.       

Cacique da aldeia Sagrada, no Alto Rio Gregório, Bira Yawanawa também relata perda de roçados, animais e casas entre as aldeias de seu povo. “O Gregório encheu muito. Tivemos muitos prejuízos. Muitas comunidades em nossas aldeias perderam sua agricultura, principalmente a mandioca, o milho e a banana.  O bananal que era plantado na margem do rio perdeu quase tudo. Alguns perderam casas”, diz Bira à Amazônia Real.

De acordo com ele, o momento agora é de reconstrução. Esse processo para os povos indígenas, ressalta o cacique, mais uma vez vai acontecer com a ausência do Estado. “Sempre fomos abandonados pelo Estado, seja municipal, federal, estadual. A nossa existência, a nossa sobrevivência, independente do Estado, até porque nós existimos antes deles chegarem aqui. Por isso nós resistimos a todo tipo de ataque, seja da natureza ou do homem.” 

A assistência prestada

Bombeiros do Acre fazem resgate de famílias indígenas do povo Madjá (Kulina), no município de Santa Rosa do Purus, afetado pela cheia do rio Purus (Foto: Ascom/CBMAC)

A reportagem entrou em contato com a Assessoria de Imprensa da Fundação Nacional do Índio (Funai) em Brasília, mas o órgão não respondeu às questões enviadas. A Amazônia Real perguntou sobre o levantamento de indígenas e territórios impactados pelas cheias, além das medidas emergências e de longo prazo para mitigação de seus efeitos. 

Responsável por executar programa de fomento à produção sustentável em aldeias do Acre – por meio do programa de pagamento por compensação ambiental REM/KFW – a Secretaria de Meio Ambiente (Sema) do Estado do Acre informou que, junto da Defesa Civil, prestou assistência de remoção das famílias indígenas pelas enchentes para abrigos provisórios, além da distribuição de cestas básicas. 

A Sema afirmou que, junto das lideranças indígenas, elabora um plano de gestão territorial e ambiental para melhor lidar com situações de grandes impactos como enchentes, secas e queimadas, além de pragas que possam destruir plantações e roçados. “Essas reflexões têm levado a um reposicionamento de aldeias, suas residências, plantações e criações, em locais fora das áreas aluviais e sujeitas a inundações ocasionais. Salientamos que tradicionalmente estas comunidades optavam por morar em ‘terras altas’, mas devido ao processo histórico também começaram a se fixar em áreas aluviais”, informou.

Por: Fabio Pontes
Fonte: Amazônia Real