Cimento Nassau dá calote de 26 milhões de reais

Cimento Nassau dá calote de 26 milhões de reais
Quase 250 ex-funcionários da empresa Nassau lutam na Justiça pelo pagamento da indenização trabalhista (Imagem cedida por Jerry Dias)

Quase todos os dias, ao amanhecer, o aposentado Eduardo Silva de Souza, 55, desperta voluntariamente, tal como fez ao longo dos 25 anos e três meses que trabalhou na fábrica de cimento Nassau. Quando se dá conta de que não precisa mais dirigir até o serviço, impossível não se lembrar da situação de descaso que paira sobre sua rotina há quase meia década.

Desde 2017, quando foi demitido, Eduardo espera receber sua rescisão, prometida em 60 parcelas de 1.263 reais. Nem um centavo entrou em sua conta. Naquele mesmo ano, cerca de 800 funcionários foram dispensados pela empresa, que outrora reinava em todo o Norte com a fabricação e venda de cimentos. Do total de ex-funcionários que tiveram processos julgados, 239 ainda não receberam os pagamentos, dívida que ultrapassa 26 milhões de reais.

“Era uma empresa boa, pagava certinho, concedia promoções periodicamente, dava bônus quando atingíamos as metas. Entrei solteiro e saí avô. Nunca faltei um dia de trabalho, e me orgulho disso. Infelizmente hoje estamos devendo bancos, porque precisávamos viver de cheques especiais”, disse o aposentado Souza.

As demissões em massa no Amazonas e em outros Estados são o resultado de uma crise provocada pela briga entre herdeiros de João Santos, pernambucano falecido em 2009. Ele era dono do grupo que comandava indústrias de cimento e outros empreendimentos, como fábricas de celulose, táxi aéreo e a Rede Tribuna de Rádio e TV. Após a morte do patriarca, os irmãos passaram a disputar o poder dos negócios, especialmente no setor de cimentos, que representava o maior lucro da corporação.

Em maio deste ano, reportagem do site Marco Zero mostrou que a operação Background, da Polícia Federal em Recife, deflagrou mandados de busca e apreensão, sequestro e bloqueio de bens dos herdeiros de João Santos e sócios tidos como “laranjas”. A ação fez parte de uma longa investigação sobre um esquema de desvio de dinheiro e ocultação de patrimônio.

Em Manaus, o grupo dos 239 funcionários exige a venda de um estaleiro da Nassau confiscado pela Justiça, localizado na Colônia Antônio Aleixo, na zona leste da capital, e avaliado em 35 milhões de reais. O Tribunal Regional do Trabalho da 11ª Região decidiu, ainda em 2019, que o local já deveria ter sido leiloado para pagar as indenizações trabalhistas. Mas em meio a recursos da empresa nos últimos dois anos e da demora por parte da jurisdição competente, o caso continua parado, enquanto os ex-trabalhadores sofrem.

No último 23 de junho, foi organizado um protesto nas proximidades de um dos prédios da empresa, no Distrito Industrial II, também na zona leste de Manaus. Debaixo de uma forte chuva, com banners e cartazes nas mãos, ex-funcionários gritavam por justiça, pedindo o pagamento das rescisões trabalhistas e o leilão do porto. 

De acordo com o advogado Jerry Dias, que representa três ex-funcionários, o estopim para a movimentação do grupo aconteceu depois do último 17 de junho, dia em que estava marcado um leilão que firmaria a venda do estaleiro. O leilão cumpriria uma determinação do juiz do Núcleo de Apoio à Execução do Tribunal do Trabalho do Amazonas, Igo Zany. Mas cerca de 30 minutos antes da ocasião, o desembargador David Alves de Mello Júnior suspendeu a venda.

“Ele [Mello Júnior] se baseou em um novo recurso colocado pela Nassau. Agora a determinação é que continue sendo julgado até a última instância. O caso com certeza precisa de mais agilidade, para que os desembargadores pautem logo o julgamento desse recurso novo, dêem o procedente e determinem o imediato leilão. Só assim todos vão receber os direitos”, disse Dias.

Sarney inaugurou fábrica em 2016

Vista aérea da fábrica nos anos 90 em Manaus (Foto: Museu da Imagem e do Som do Amazonas)

Eduardo Souza, que era líder de ensacadeira da fábrica Nassau, lembra até hoje das rotinas de produção de cimento, pontuando as cidades de Capanema e Jatapu, no Pará, de onde vinham alguns elementos, como gesso e calcário. Ele se orgulha do trabalho que fez durante tantos anos, e conta que tinha uma grande felicidade em mostrar a empresa para novos empregados, ensinando cada etapa do trabalho que o fazia feliz.

“Na época em que entrei não tinha nenhuma empresa que concorresse com a Nassau, era um monopólio. Inclusive o próprio presidente José Sarney participou da inauguração da fábrica nos anos 80. Mas em 2016 tudo começou a ficar estranho, já não se investia mais em material, na manutenção de máquinas, demitia-se e não contratava mais ninguém”, contou.

No período em que a Nassau começou a ruir, funcionários chegaram a arriscar sua vida para fazer trabalhos manuais em máquinas, principalmente as que fabricavam o cimento, que depois de um tempo paradas começaram a formar concretos. O trabalho começou a ficar cada vez mais pesado, porque as demissões aumentaram e os três turnos que antes faziam com que a fábrica funcionasse de segunda-feira a sábado, sobrecarregaram.

Mortes e doenças ocupacionais

Imagem de arquivo de trabalhadores da Nassau (Foto: CUT)

Um grupo de funcionários levantou que pelo menos sete pessoas morreram esperando pelo pagamento das dívidas da Nassau, sendo algumas das causas Covid-19, câncer e outras complicações decorrentes de problemas emocionais com as rescisões. Houve também quem adoeceu durante o processo, altamente desgastante, como o caso de Thaize Souza, filha do ex-funcionário Francisco Rodrigues de Souza.

Em meio aos cuidados que tem com a mãe, paciente cardíaca, e notando o desânimo do pai com a falta do pagamento de rescisões, de trabalhos prestados durante sete anos, Thaiza acabou tendo um AVC isquêmico, ficando com todo o lado direito do corpo paralizado. 

“Consegui recuperar alguns movimentos, mas tive uma piora logo após a suspensão do leilão. Sem contar na depressão e crises de ansiedade que hoje enfrento por conta de toda essa injustiça que a empresa está fazendo com os ex-funcionários, pois o sofrimento que estamos passando é grande demais. Nós, os familiares sofremos juntos com eles”, explica Thaize.

Em muitos dos processos julgados, existem situações de ex-funcionários com 15 a 30 anos de fábrica que, além de exigirem seus direitos trabalhistas, pedem pelo pagamento de multas por doenças ocupacionais. É o caso de Otas Maia, um dos líderes do movimento, que trabalhou mais de 20 anos para uma das frentes da Nassau no ramo de transporte de materiais, chegando a trabalhar, em alguns períodos, de 12 em 12 horas. 

“Depois da hérnia de disco precisei fazer uma cirurgia e perdi 30% do movimento. A partir daí mudei de setor, mas ainda assim não pude fazer muita coisa. Até hoje não consigo me abaixar, tenho oito parafusos na lombar. Foi humilhante o que a empresa fez ao virar as costas para tantos funcionários que ficaram totalmente destruídos”, disse indignado.

Dentre os principais problemas ressaltados pelos ex-funcionários está a falta de consideração da empresa, que por anos utilizou a mão-de-obra dessas pessoas para construir um império. Toda a situação fez com que muitos até mesmo desistissem de processar a Nassau, com medo de retaliações, ainda mais em casos onde ainda existe uma ligação com a empresa.

Otas Maia resumiu bem uma dos principais desejos do grupo de ex-trabalhadores. “Tudo o que eu tenho é esse dinheiro. É meu sonho receber, comprar minha casa, um sítio, plantar e cuidar dele e ter uma velhice tranquila”, afirma.

A advogada que defende a Nassau nos processos do Amazonas foi contactada, mas não retornou às mensagens. A empresa até hoje não comentou sobre o caso fora dos tribunais.

Por: Vanessa Rocha
Fonte: Amazônia Real