Clima, as previsões de Rifkin: “A virada verde também será um desafio vencedor para a economia”

economista estadunidense explica: “A tecnologia que tornou possível a vacina anti-Covid em tempo recorde torna plausível a meta de emissões zero até 2050″.

“A transição ecológica não é apenas eticamente e cientificamente necessária porque, de outra forma, o aquecimento global nos prejudicará irremediavelmente, mas é um desafio vencedor do ponto de vista econômico”. Jeremy Rifkin, economista da Warthon Business School de Filadélfia, mas acima de tudo uma referência para os ambientalistas de todo o mundo, alerta para o momento histórico: agora estamos no coração da pandemia com sua sobrecarga de dor, “mas quando esse inferno acabar o mundo terá mudado. Seria imperdoável não aproveitar a oportunidade para corrigir comportamentos autodestrutivos”.

Rifkin completará 78 anos em janeiro, mas o espírito lutador é o mesmo de quando ele liderava o Boston Oil Party em 1973, despejando vários barris (vazios) de petróleo no oceano em protesto contra o poder das empresas de energia, da mesma forma como haviam despejado chá 200 anos antes os primeiros colonos ingleses em protesto contra os impostos exigidos por Londres no Boston Tea Party.

Eis a entrevista.

A comunidade internacional celebrou solenemente os cinco anos desde o acordo de Paris, na véspera a UE elevou a redução das emissões de 40 para 55% até 2030. Tem certeza de que é o momento certo, com o mundo abalado pelo Covid, de relançar a luta contra o CO2?

Se não agora, quando? A tecnologia, com o mesmo espírito de inovação graças ao qual foi possível desenvolver uma vacina em tempos impensáveis, torna plausíveis metas ambiciosas como a descarbonização até 2050. É uma estratégia para a retomada econômica e também moral: aliás, se a Europa for capaz de utilizar da melhor forma as tecnologias existentes, o objetivo poderá ser antecipado em dez anos.

Em suma, com o reinício, deveríamos aproveitar a oportunidade para implementar plenamente o que você chamou de “terceira revolução industrial” em um de seus livros, que finalmente estaria pronta para desdobrar seus efeitos positivos?

Será uma revolução ainda mais radical que as anteriores, pois a diferença daquela do final do século XVIII determinada pela máquina a vapor e do século XIX causada pela eletricidade, muitas tecnologias estão amadurecendo ao mesmo tempo. A Internet com as novas redes super-rápidas entra diretamente nos processos industriais, a chamada Internet das Coisas, além de possibilitar futuras aplicações na cirurgia ou nas comunicações. Depois, há os progressos que em breve tornarão as fontes eólica e solar mais baratas do que a energia fóssil, e é realmente um marco. Por fim, existem as tecnologias “smart” que combinam as tecnologias de mobilidade, logística, serviços. Tudo se torna rápido, seguro e ecologicamente correto com o uso dos Big Data, da inteligência artificial, das inovações de rede. Eis a terceira revolução industrial, da qual o conceito de emissões zero é parte integrante.

Tem certeza de que tudo isso pode ser uma oportunidade econômica?

Estudos confiáveis dizem que para cada posto de trabalho perdido nas energias tradicionais dez são criados nas renováveis. Renovação de meios, melhorias estruturais, reorganização hidrogeológica: são investimentos altamente produtivos. A meta das emissões zero não é um fim em si mesma: indica que muitas atividades econômicas terão sido criadas, desde a “captura” e armazenamento de CO2 até as várias formas de circularidade, que exigirão novo pessoal altamente qualificado com empregos bem remunerados e gratificantes, e além disso garantirão maior rentabilidade econômica do que as atividades que substituem.

Mas haverá determinação suficiente de cada país individualmente para essa virada, a ponto de anular o risco pressagiado pelo economista Wolfgang Munchau quando afirma que cada governo responde ao próprio eleitorado e quem vota não são as tecnocracias de Bruxelas?

Melhor as tecnocracias comunitárias do que os poderosos lobbies estadunidenses. A verdade é que a vontade política faz milagres e implica na capacidade de persuadir a opinião pública. Eu era conselheiro de Angela Merkel quando ela se tornou chanceler em 2005. Lembro-me da luta árdua contra tantos políticos, até mesmo na própria CDU, convencidos de que a energia nuclear seria o futuro. No entanto conseguimos não só vencer em casa, mas fazer com que a Europa aprovasse o 20-20-20 na implementação do Protocolo de Kyoto, o prelúdio de Paris.

A Europa renova o seu compromisso: também trabalhei com as últimas quatro comissões, desde os tempos de Prodi, e nunca encontrei tanta unidade de propósitos e vontade sincera como com a presidente Ursula von der Leyen, com quem preparamos o Projeto do Green Deal europeu nas semanas anteriores à pandemia. Não é por acaso que um terço dos investimentos do Plano de Recuperação visam investimentos “verdes”: existe a consciência de que o estado atual das tecnologias torna possível a virada em tempos rápidos.

Por: Eugenio Occorsio
Fonte: La Repubblica
Tradução: Luisa Rabolini

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