Com alta nos casos de Covid-19, fake news põem em risco vacinação de crianças em Manaus

Nos hospitais infantis da capital, 44 crianças estão internadas em tratamento do novo coronavírus. A imunização foi iniciada no estado esta semana, mas pais e responsáveis já declararam que não vacinar seus filhos.

Com alta nos casos de Covid-19, fake news põem em risco vacinação de crianças em Manaus
Enfermeira Adriana Souza, abraçando seu filho Bernardo Augusto Matos, 10 anos, após ele receber a dose da vacina infantil da Pfizer contra a Covid-19, em Manaus (Foto: Raphael Alves/Amazônia Real).

A vacinação de crianças de 5 a 11 anos de idade contra o novo coronavírus começou, nesta semana, sob três fortes pressões na capital do Amazonas: o aumento das internações de crianças, a falta de imunizantes e a desinformação por parte dos pais e responsáveis. Reproduzindo conteúdos, as fake news, divulgados em sites governistas, que por sua vez expressam a opinião do governo de Jair Bolsonaro, algumas famílias argumentam que não vão vacinar seus filhos.

A vacinação das crianças é por escalonamento de grupos prioritários definidos pelo Programa Nacional de Imunização do Ministério da Saúde (PNI/MS). O primeiro grupo é o de crianças com comorbidades, com deficiências permanentes (PcDs), indígenas e quilombolas, além das que vivem em lar com pessoas com risco para evolução grave de Covid-19.

Nem mesmo a explosão de casos na população do estado por causa da variante ômicron – nesta quinta-feira (20), o Amazonas bateu o recorde em toda a pandemia com 8.319 casos registrados em 24 horas – consegue convencê-las do contrário. Nos hospitais públicos, em Manaus, há 44 crianças internadas, sendo quatro em UTI, em tratamento da Covid-19. Essas crianças não foram vacinadas porque estão fora da prioridade da imunização. 

Em entrevista à Amazônia Real, empresária Leila Maria Barbosa, de 52 anos, decidiu, junto à filha, a também empresária Patrícia da Silva, de 34 anos, que a neta Clara Beatriz, de 8 anos, não tomará a vacina contra o Sars-CoV-2. “Eu achei pouco tempo para testes, né? Tem certas doenças que passam anos em pesquisa e nós achamos pouco tempo para ser elaborada essa vacina com eficácia. Para poder ter uma solução para a população, tinha que ter um remédio, essa é a nossa ideia”, afirma.

A desconfiança da vacinação em crianças é recorrente, e não se restringe à Covid-19. Mas, em meio à letal pandemia, decisões como a de Leila e Patrícia colocam em risco a saúde de toda a população. Quanto mais pessoas não-imunizadas insistirem em não se vacinar, mais o vírus poderá continuar se propagando e criando novas mutações.

“Graças a Deus minha neta é bem resistente. O nosso problema com ela é mais alergia. Ela tem alergia a cheiro de tinta. Mas, fora isso, tem uma saúde de ferro”, diz Leila. Já Patrícia, classifica a vacinação como “modinha”. “A maioria da população acha que essa (vacina) foi muito rápida, mas como tem aquele povo que gosta de seguir modinha, né?”, dispara a mãe de Clara, que diz esperar por um medicamento que seja melhor que as vacinas que já estão no mercado.

Por serem portadores de diabetes, o marido de Leila e a sogra dela, que tem 52 e 72 anos, aderiram à vacinação. A proteção garantida a eles pelo imunizante não modificou o pensamento da empresária Leila. “Por enquanto ainda não confio na eficácia da vacina, não. Essa é a nossa opinião”, diz.

Segundo o governo do Amazonas, após o grupo prioritário, a vacinação estará disponível para as crianças sem comorbidades na seguinte ordem: crianças entre 10 e 11 anos; entre 8 e 9 anos; 6 e 7 anos; e com 5 anos de idade. 

No infográfico abaixo é possível observar o aumento nas internações das crianças na faixa etária de abaixo dos 12 anos de idade, que não foram vacinadas. A FVS diz que essas crianças “não aptas para vacinação”, pois não estão do grupo de prioridades.

Em nota divulgada pela Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM), a pediatra Vanine Aguiar Lima Fragoso, da Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), destacou que nos Estados Unidos e em países da Europa, a vacinação infantil ocorre desde 2021, e os estudos mostram redução importante nos casos de Covid-19 grave nas crianças vacinadas. “Dificilmente essa criança vacinada vai ter um quadro grave ao se infectar pela Covid-19. No entanto, a necessidade de internação pode acontecer e, por isso, os pais e responsáveis devem ficar atentos ao estado de saúde da criança”, disse a médica fazendo um alerta às famílias:

“Os pais e responsáveis devem levar em consideração a opinião e a indicação dos órgãos e dos profissionais de saúde que têm competência técnica para falar sobre a segurança do imunizante e, até o momento, todas as informações científicas demonstram que a vacina é segura”.

Bolsonarismo espalha fake news

Desencorajar pais a vacinarem seus filhos tem sido a missão de bolsonaristas, que seguem à risca a cartilha do presidente Bolsonaro. Por todo o Brasil e sobretudo nas redes sociais, continuam a espalhar desinformação contra a vacina. A prefeita de São João da Barra (RJ), Carla Maria Machado dos Santos (PP), fez uma live na quarta-feira (19) para desinformar a população. “Pedi à mãe, olha a bula, olha direitinho. Se tivesse filho, não vacinaria”, declarou em vídeo que se tornou viral. Ela afirma ainda que está produzindo um “medicamento natural, sem efeito colateral, para ajudar na imunidade das crianças”. Em 6 de janeiro, a Sociedade Brasileira de Pediatria, entidade representativa de médicos especializados em crianças e adolescentes, já havia publicado uma nota de repúdio contra autoridades que propagandeiam, sem provas, riscos decorrentes da imunização infantil.

Com a liberação do imunizante Coronavac, da Sinovac, e produzido pelo Instituto Butantan, governadores e prefeitos pressionam o Ministério da Saúde para liberar o uso em crianças. À exceção de São Paulo, que já começou a adotar a Coronavac em estoque, todos os demais entes federativos dependem da autorização do governo federal, que ainda vai estudar a autorização da Anvisa para o uso do imunizante em crianças de 6 a 17 anos. Por enquanto, a imunização tem sido feita em Manaus com a vacina da Pfizer para crianças de 5 a 11 anos com comorbidades e/ou necessidades especiais. 

Para o pesquisador Jesem Orellana, da Fiocruz Amazônia, as fake news disseminadas de forma indiscriminada ajudam pôr dúvida na cabeça dos pais. “Meu conselho é que esqueçam essas fake news, principalmente de supostos médicos anônimos ou que sabidamente praticam charlatanismo. Não adianta esperar pelo Conselho Federal de Medicina, pois há pouco tempo atrás, estavam defendendo a Cloroquina outra fake news de tamanho monumental. Portanto, os pais precisam ficar tranquilos que qualquer vacina causa algum grau de desconforto, nem que seja a picada da agulha, assim como eles sempre viram com as outras vacinas do calendário vacinal. Eles mesmos, os pais, passaram a vida tomando vacina, justamente para proteger a sua saúde e a da população geral (…) Claro que tem os mínimos riscos/desconfortos, agora, os benefícios são muito maiores e este é exatamente o caso das vacinas contra a Covid-19, os benefícios superam em muito eventuais e mínimos riscos”, afirma Orellana.

A terceira onda chegou

Não há mais dúvidas de que a variante ômicron, já predominante no Amazonas, é mais contagiosa e menos letal. Em janeiro de 2021, durante a crise de mortes por asfixia nas UTIs no Amazonas, 2.832 pessoas morreram de Covid-19. Neste ano, apesar da explosão de novos casos, houve 25 óbitos até quinta-feira (20), conforme os boletins divulgados pela FVS. 

O problema reside, segundo os especialistas, que quanto mais o vírus se propaga, maior as chances de surgirem novas variantes. A vacina serviria para limitar essa disseminação explosiva. Mas apenas 55% da população do Estado completou o esquema vacinal, de acordo com dados do Vacinômetro do governo do Amazonas.   

O estado do Amazonas bateu pelo segundo dia consecutivo o recorde do número de casos do novo coronavírus. Os números confirmam a terceira onda da pandemia na região. Foram 8.319 pessoas contaminadas pelo Sars-CoV-2 nas últimas 24 horas – um aumento de 3,8% em relação ao mesmo período de 2021. No dia anterior, haviam sido 7.505 novos casos, conforme divulgado nos dois últimos boletins epidemiológicos da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS).

O recorde anterior havia sido registrado em 20 de janeiro de 2021, com 5.009 casos. Com o boletim divulgado na quinta-feira (20), o Amazonas chegou a 39.419 casos somente em janeiro deste ano – ante os 37.967 de igual período do ano passado.

Do início da pandemia, em março de 2020, até o dia 20 de janeiro deste ano, o governo registrou 473.232 casos da doença no estado e 13.869 mortes por Covid-19 na população. Em Manaus, são 229.745 casos e 9.531 óbitos.

De acordo com dados do Painel Saúde, do governo amazonense, 95% dos leitos clínicos e 81% de UTIs estão ocupados. “As internações em leito clínico também explodiram e, agora, temos esse mesmo problema para os leitos de UTI, embora em volume menor do que o anterior. Lamentável e inevitavelmente, o número de mortes começará a acelerar, mas muito provavelmente, em padrão relativamente distante do que foi visto em janeiro de 2021, quando chegamos a registrar dezenas de mortes confirmadas por Covid-19 no mesmo dia, muitas delas por asfixia, dentro e fora dos hospitais”, lembra o epidemiologista Jesem Orellana”. Ele alerta que o Amazonas está “há dias na mais brutal e explosiva disseminação do novo coronavírus”.

Com o pé atrás

Marcileide Sampaio com a filha Melyssa (Foto: arquivo pessoal)

A auxiliar de serviços gerais Marcileide Sampaio, de 40 anos, está infectada pelo vírus da Covid-19 pela segunda vez. A primeira vez em que ficou doente foi em dezembro de 2020, quando Manaus entrava na segunda onda da doença. Em janeiro deste ano voltou a testar positivo.

Marcileide decidiu se vacinar, tomou as duas doses do imunizante, mas acabou contraindo a doença novamente enquanto aguardava a dose de reforço da vacina. Apesar de ter aderido ao imunizante, ela diz ter um “pé atrás”, em relação à necessidade de vacinar crianças.

“Vou vacinar minha filha Melyssa, de 11 anos, mas confesso que tenho medo, porque a gente escuta muitas coisas nas redes sociais. Você não sabe o que é verdade ou não. Uns falam que é seguro, outros falam que a própria fabricante não se responsabiliza com relação às crianças. Então fica difícil para nós. Os pais não querem levar os filhos para se vacinar e nisso perder os filhos”, explica Marcileide.

Ela mora com as filhas de 11 e 18 anos. Enquanto luta contra a doença, sabe que a filha caçula já pode estar contaminada, uma vez que já apresenta sintomas da doença. “Não vou levá-la para fazer exame. Além de desconfortável, tem muita gente lá. Estou cuidando dela em casa mesmo com antigripal e vitamina C”, diz.

Marcileide não quer encarar uma nova maratona, já que ficou de 10 horas até as 20 horas em busca de um exame para apresentar no trabalho. 

A auxiliar de serviços gerais relembra como foi testar positivo duas vezes. “A primeira vez abalou muito o meu psicológico. As pessoas tinham medo de morrer. A segunda vez eu continuo na mesma situação, mas a forma da doença já foi mais branda e hoje as pessoas têm menos preconceito”, afirma. “O que motiva são minhas filhas. Eu não posso morrer porque elas dependem de mim. Mas hoje eu me sinto psicologicamente mais forte.”

O alívio esperado

Ariadna com o filho Heitor (Foto: Arquivo pessoal)

A assistente social Ariadna Batalha, de 36 anos, conta os dias para poder vacinar o filho de apenas 6 anos, Heitor Miguel, que tem transtorno do espectro do autismo. “Desde quando tudo começou, nossa preocupação sempre foi proteger nosso filho. Isso parece mais perto e mais certo agora”, comemora.

Ariadna revela uma rotina repleta de obstáculos com Heitor, desde o início da pandemia. “Ficar em casa não está permitindo que o Heitor tenha todo o atendimento terapêutico que precisa. Nos preocupamos em sair de casa para procurar esse atendimento e sermos contaminados por esse vírus que poderia nos tirar do convívio dele amanhã. Por esse motivo, a vacina está vindo em boa hora e nos dá segurança para correr atrás das coisas que ele precisa sem o medo dele nos perder ou perdermos ele”, conta. “Uma coisa é certa: somente a vacina é capaz de salvar vidas. E a vacina veio nos dar um alívio que há dois anos esperávamos.”

A advogada e administradora de empresas Vanessa Luz, de 38 anos, afirmou que vai completar, recebendo a dose de reforço, nesta sexta-feira (21). Ela é mãe de duas meninas, Maria Eduarda Luz, 12, Ana Alice Luz, 6. Maria Eduarda já tomou a primeira dose, e agora a família aguarda pela liberação de vacina para crianças sem comorbidades.

Vanessa já contraiu a Covid-19, e as filhas também. Os pais dela, inclusive, mesmo com o ciclo vacinal completo, estão com a doença no momento, mas já se preparando para sair do período de quarentena. Os efeitos da doença para o casal idoso, segundo Vanessa, foram mínimos.

Para Vanessa, as vacinas contra o Sars-CoV-2 já provaram a sua eficiência, no sentido de fazer com que as pessoas não desenvolvam a forma mais aguda da doença. “Acredito que as crianças vão receber o imunizante tranquilamente como qualquer outra vacina”, pontua a mãe, que conta que sempre teve atenção redobrada com a necessidade de vacinar as crianças. “Nunca gostei de deixar atrasar as doses das vacinas. As duas sempre tomaram em dia”.

Além de apoiar a vacinação, Vanessa tenta ainda convencer mães que não acreditam na eficácia do imunizante.  “Hoje eu estava conversando com outra mãe, que brincava com a minha filha e ela disse que não ia vacinar a criança. Eu falei: ‘poxa, a gente vacina, faz o teste do pezinho, vacina desde quando nasceu.  Tem que vacinar sim, com certeza”, pontua.

“Não é aceitável termos demorado tanto em vacinar essas crianças, pois países como Chile e Bolívia, começaram a vacinar suas crianças em dezembro de 2021, mesmo sem duas fábricas de vacina como o Brasil”, afirma o epidemiologista Jesem Orellana.

Para o pesquisador da Fiocruz Amazônia, com o aumento de casos da variante ômicron, a tendência é que aumente a infecção das crianças não-vacinadas, sobretudo as menores de 12 anos que só agora começaram a ser imunizadas. Isso, segundo Orellana, pode gerar “casos graves em níveis ainda não vistos e, o pior, mortes plenamente evitáveis”.

Família vacinada: Vanessa com o marido e as filhas Maria Eduarda e Ana Alice
(Foto: Arquivo pessoal)

O estado do Amazonas bateu pelo segundo dia consecutivo o recorde do número de casos do novo coronavírus. Os números confirmam a terceira onda da pandemia na região. Foram 8.319 pessoas contaminadas pelo Sars-CoV-2 nas últimas 24 horas – um aumento de 3,8% em relação ao mesmo período de 2021. No dia anterior, haviam sido 7.505 novos casos, conforme divulgado nos dois últimos boletins epidemiológicos da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS).

O recorde anterior havia sido registrado em 20 de janeiro de 2021, com 5.009 casos. Com o boletim divulgado na quinta-feira (20), o Amazonas chegou a 39.419 casos somente em janeiro deste ano – ante os 37.967 de igual período do ano passado.

Do início da pandemia, em março de 2020, até o dia 20 de janeiro deste ano, o governo registrou 473.232 casos da doença no estado e 13.869 mortes por Covid-19 na população. Em Manaus, são 229.745 casos e 9.531 óbitos.

De acordo com dados do Painel Saúde, do governo amazonense, 95% dos leitos clínicos e 81% de UTIs estão ocupados. “As internações em leito clínico também explodiram e, agora, temos esse mesmo problema para os leitos de UTI, embora em volume menor do que o anterior. Lamentável e inevitavelmente, o número de mortes começará a acelerar, mas muito provavelmente, em padrão relativamente distante do que foi visto em janeiro de 2021, quando chegamos a registrar dezenas de mortes confirmadas por Covid-19 no mesmo dia, muitas delas por asfixia, dentro e fora dos hospitais”, lembra o epidemiologista Jesem Orellana”. Ele alerta que o Amazonas está “há dias na mais brutal e explosiva disseminação do novo coronavírus”.

Com o pé atrás

Marcileide Sampaio com a filha Melyssa (Foto: arquivo pessoal)

A auxiliar de serviços gerais Marcileide Sampaio, de 40 anos, está infectada pelo vírus da Covid-19 pela segunda vez. A primeira vez em que ficou doente foi em dezembro de 2020, quando Manaus entrava na segunda onda da doença. Em janeiro deste ano voltou a testar positivo.

Marcileide decidiu se vacinar, tomou as duas doses do imunizante, mas acabou contraindo a doença novamente enquanto aguardava a dose de reforço da vacina. Apesar de ter aderido ao imunizante, ela diz ter um “pé atrás”, em relação à necessidade de vacinar crianças.

“Vou vacinar minha filha Melyssa, de 11 anos, mas confesso que tenho medo, porque a gente escuta muitas coisas nas redes sociais. Você não sabe o que é verdade ou não. Uns falam que é seguro, outros falam que a própria fabricante não se responsabiliza com relação às crianças. Então fica difícil para nós. Os pais não querem levar os filhos para se vacinar e nisso perder os filhos”, explica Marcileide.

Ela mora com as filhas de 11 e 18 anos. Enquanto luta contra a doença, sabe que a filha caçula já pode estar contaminada, uma vez que já apresenta sintomas da doença. “Não vou levá-la para fazer exame. Além de desconfortável, tem muita gente lá. Estou cuidando dela em casa mesmo com antigripal e vitamina C”, diz.

Marcileide não quer encarar uma nova maratona, já que ficou de 10 horas até as 20 horas em busca de um exame para apresentar no trabalho. 

A auxiliar de serviços gerais relembra como foi testar positivo duas vezes. “A primeira vez abalou muito o meu psicológico. As pessoas tinham medo de morrer. A segunda vez eu continuo na mesma situação, mas a forma da doença já foi mais branda e hoje as pessoas têm menos preconceito”, afirma. “O que motiva são minhas filhas. Eu não posso morrer porque elas dependem de mim. Mas hoje eu me sinto psicologicamente mais forte.”

O alívio esperado

Ariadna com o filho Heitor (Foto: Arquivo pessoal)

A assistente social Ariadna Batalha, de 36 anos, conta os dias para poder vacinar o filho de apenas 6 anos, Heitor Miguel, que tem transtorno do espectro do autismo. “Desde quando tudo começou, nossa preocupação sempre foi proteger nosso filho. Isso parece mais perto e mais certo agora”, comemora.

Ariadna revela uma rotina repleta de obstáculos com Heitor, desde o início da pandemia. “Ficar em casa não está permitindo que o Heitor tenha todo o atendimento terapêutico que precisa. Nos preocupamos em sair de casa para procurar esse atendimento e sermos contaminados por esse vírus que poderia nos tirar do convívio dele amanhã. Por esse motivo, a vacina está vindo em boa hora e nos dá segurança para correr atrás das coisas que ele precisa sem o medo dele nos perder ou perdermos ele”, conta. “Uma coisa é certa: somente a vacina é capaz de salvar vidas. E a vacina veio nos dar um alívio que há dois anos esperávamos.”

A advogada e administradora de empresas Vanessa Luz, de 38 anos, afirmou que vai completar, recebendo a dose de reforço, nesta sexta-feira (21). Ela é mãe de duas meninas, Maria Eduarda Luz, 12, Ana Alice Luz, 6. Maria Eduarda já tomou a primeira dose, e agora a família aguarda pela liberação de vacina para crianças sem comorbidades.

Vanessa já contraiu a Covid-19, e as filhas também. Os pais dela, inclusive, mesmo com o ciclo vacinal completo, estão com a doença no momento, mas já se preparando para sair do período de quarentena. Os efeitos da doença para o casal idoso, segundo Vanessa, foram mínimos.

Para Vanessa, as vacinas contra o Sars-CoV-2 já provaram a sua eficiência, no sentido de fazer com que as pessoas não desenvolvam a forma mais aguda da doença. “Acredito que as crianças vão receber o imunizante tranquilamente como qualquer outra vacina”, pontua a mãe, que conta que sempre teve atenção redobrada com a necessidade de vacinar as crianças. “Nunca gostei de deixar atrasar as doses das vacinas. As duas sempre tomaram em dia”.

Além de apoiar a vacinação, Vanessa tenta ainda convencer mães que não acreditam na eficácia do imunizante.  “Hoje eu estava conversando com outra mãe, que brincava com a minha filha e ela disse que não ia vacinar a criança. Eu falei: ‘poxa, a gente vacina, faz o teste do pezinho, vacina desde quando nasceu.  Tem que vacinar sim, com certeza”, pontua.

“Não é aceitável termos demorado tanto em vacinar essas crianças, pois países como Chile e Bolívia, começaram a vacinar suas crianças em dezembro de 2021, mesmo sem duas fábricas de vacina como o Brasil”, afirma o epidemiologista Jesem Orellana.

Para o pesquisador da Fiocruz Amazônia, com o aumento de casos da variante ômicron, a tendência é que aumente a infecção das crianças não-vacinadas, sobretudo as menores de 12 anos que só agora começaram a ser imunizadas. Isso, segundo Orellana, pode gerar “casos graves em níveis ainda não vistos e, o pior, mortes plenamente evitáveis”.

Família vacinada: Vanessa com o marido e as filhas Maria Eduarda e Ana Alice
(Foto: Arquivo pessoal)

Por: Leanderson Lima
Fonte: Amazônia Real