Com pico de Covid-19, Amazonas restringe comércio e festas de Ano Novo

Com pico de Covid-19, Amazonas restringe comércio e festas de Ano Novo
Governador admite que as eleições municipais influenciaram no aumento da transmissão da doença. Pesquisador diz que o decreto é tardio pois mantém festas no Natal (Foto de Bruno Kelly/Amazônia Real)

De segunda até quarta-feira (23), o estado do Amazonas registrou 2.394 novos casos de Covid-19 e 41 mortes. As redes pública e privada de saúde em Manaus estão com as Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) ocupadas. Em coletiva à imprensa, o governador Wilson Lima (PSC) admitiu que as aglomerações em festas e nas eleições municipais influenciaram na alta da transmissão dos casos. No entanto, ele descartou mais uma vez o lockdown (bloqueio), como fez na primeira onda da pandemia do novo coronavírus no estado. Lima baixou um decreto restringindo o comércio, áreas de lazer e festas, inclusive do ano novo, de 26 de dezembro a 10 de janeiro.

Após o Natal, celebrado amanhã (25), o comércio e estabelecimentos não essenciais, como os shoppings, funcionarão no sistema de drive thru e delivery, com horário estipulado até 21 horas. A praia da Ponta Negra, onde acontece a tradicional queima de fogos do Ano Novo, será fechada. Quem descumprir as novas regras está sujeito a multas diárias de R$ 50 mil, segundo o Decreto 43.234/2020

Em entrevista à Amazônia Real, o epidemiologista e pesquisador da Fiocruz Amazônia, Jesem Orellana, disse que o “decreto é positivo, porém é tardio”. 

“Há um pico da doença em Manaus, com aumento de casos novos, internações de casos graves e mortes. Precisamos lembrar que a situação poderia ter sido evitada. Alertamos o estado do Amazonas; tivemos dois colapsos no número de leitos de UTIs do Hospital Delphina Aziz, que é referência no estado para Covid19. Um foi no final de outubro, e o segundo no dia 11 de dezembro, novamente tendo ocupação de leitos”, afirmou Orellana. 

O pesquisador questionou a manutenção das aulas nas escolas e o início das restrições só após o feriado. “O Natal aparentemente vai acontecer com as aglomerações e festas. A proposta é limitada, pois não propõe, por exemplo, nada além de medidas para causar um leve impacto sobre a epidemia. Não há proposta concreta de efetiva desaceleração sustentada, com a suspensão por exemplo das aulas presenciais da rede pública e privada”, explica Orellana. 

De 13 de março, quando iniciou a pandemia no Amazonas, até esta quarta-feira (23 de dezembro), 194.406 pessoas foram contaminadas pelo novo coronavírus no estado, sendo 78.258 em Manaus. Os óbitos somam 5.133 no estado e 3.272 na capital. Os dados são da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM). Leia o boletim aqui. Neste período, Manaus viveu uma tragédia que provocou a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) a pedir ao governo a decretação do bloqueio total, o lockdown, sem sucesso.

Diante do caos na saúde pública, o governador Wilson Lima foi alvo da Operação Sangria da Polícia Federal, que investiga a compra superfaturada de respiradores, equipamento essencial para o tratamento de saúde dos pacientes de Covid-19. O caso foi denunciado pelo site O Amazonês. Os 28 respiradores foram adquiridos, com dispensa de licitação, em 8 de abril através da adega de vinhos Vineria Adega pelo valor R$ 2,9 milhões, 133,67% acima do valor de mercado segundo laudo da PF. A investigação resultou em prisões e demissões de secretários.

UTIs ocupadas

Hospital referência para Covid19, Delphina Aziz, está com Uts ocupadas, em Manaus (Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real)

Na coletiva à imprensa de quarta-feira (23), o governador Wilson Lima disse que as medidas adotadas após o Natal são para conter a alta taxa de transmissão da Covid19 no fim de ano. “O aumento dos casos tem relação com eventos que geram aglomerações, como as eleições municipais, além de festas clandestinas na capital. O conjunto de ações tem colaborado para que os casos aumentem. Havia média de mortes diárias de 5 a 6, e agora estão entre 10 a 12”, justificou Lima. “Os mais afetados são pessoas entre 20 e 49 anos de idade. Quem está morrendo mais são os que têm acima de 60 anos de idade, representando 73% dos mortos”.

decreto com as novas regras mais restritivas foi publicado nesta véspera de Natal. O texto confirma as informações antecipada por Lima. Na coletiva, ele destacou que não haverá o bloqueio total dos serviços. “Primeiro, não haverá lockdown. Nós não fizemos isso durante o pico da pandemia, que foi ali no final de abril, início de maio, e não será agora que nós vamos tomar uma decisão como essa”, afirmou. 

Nos últimos dias, a capital constatou aumento dos casos de infecção de Covid19, com média diária superior a 800 casos. Na coletiva, Lima afirmou que a rede de saúde privada chega a 85% de taxa de ocupação. “Há hospitais particulares com a capacidade toda ocupada”, disse. Na rede pública, o Hospital Delphina Rinaldi Abdel Aziz, referência localizada na Zona Norte da cidade, tem ocupação de 94% dos leitos clínicos, além de 99% de ocupação de leitos de UTI. Nos últimos 35 dias, o governo implantou mais 50 leitos de UTI – e todos já foram ocupados. 

Segundo boletim da FVS, há 555 pacientes internados no estado, sendo 337 em leitos (88 na rede privada e 249 na rede pública), 209 em UTIs (65 na rede privada e 144 na rede pública).  “Mesmo que haja o aumento dos leitos, com esse avanço da contaminação, não há como controlar o avanço do vírus”, avaliou o Procurador-Geral de Justiça Alberto Rodrigues do Nascimento Júnior.

Comércio reage às medidas

Movimento no centro de Manaus (Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real)

As medidas restritivas no Amazonas não atingem o setor da indústria. No comércio houve protestos na quarta-feira (23) no centro de Manaus. Comerciantes pediram retorno das atividades normais até 31 de dezembro, além de reconsiderar o fechamento dos shoppings. O presidente da Fecomércio, Aderson Frota, informou que a entidade se reuniu com o Comitê de Crise para dialogar com o governo do estado. 

Para Frota, a demanda hospitalar aumentou por conta do clima propício para gripes, e a transmissão da Covid-19 cresce por conta de aglomerações geradas pelas festas de fim de ano. “Chegamos à conclusão de que é melhor aderir às medidas protetivas do governo. Porém, pedimos ao governador que examine a possibilidade de não fechar alguns segmentos, pois causaria mais transtornos”, declarou. 

Sem hospital de campanha

Atendimento de emergência de paciente de Covid-19 (Foto: Raphael Alves)

Na capital Manaus, os hospitais de campanha tiveram suas atividades encerradas no mês de junho, depois de dois meses funcionando. O pico da pandemia ocorreu entre abril e maio no Amazonas. Logo depois, começou a flexibilização do isolamento social, com a abertura de restaurantes e o comércio não essencial. No entanto, em setembro o governo voltou a fechar alguns estabelecimentos como bares e flutuantes, medida que durou 30 dias, por conta do aumento dos números de casos. Mesmo com a possibilidade de haver uma segunda onda da Covid-19, os hospitais de campanha permaneceram fechados. 

Procurada pela Amazônia Real, a Prefeitura de Manaus, por meio da assessoria de imprensa, não informou novas medidas a serem tomadas ou se haverá a necessidade do retorno dos hospitais de campanha. Apenas reforçou o que foi realizado durante a pandemia para combater a disseminação do coronavírus. 

Segundo a nota, a prefeitura determinou que 18 Unidades Básicas de Saúde (UBSs) atuassem, principalmente, nos casos suspeitos e acrescentou: “A prefeitura também ampliou o diagnóstico de Covid-19 em 48 UBSs com a oferta de mais de 50 mil testes rápidos, assim como a coleta do RT-PCR na única maternidade municipal, a Moura Tapajóz, que foi inserida no protocolo do pré-natal, com estimativa de alcançar mais de 30 mil gestantes.  Nos últimos meses foram adquiridos mais de 3 milhões de unidades de medicamentos para o tratamento dos sintomas de Síndrome Gripal e Covid-19; e mais de 3,3 milhões de Equipamentos de Proteção Individual (EPI)”.

Em nota, a Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM) informou que trabalha na terceira fase do Plano de Contingência para o enfrentamento da Covid-19 no Amazonas. Nesta fase, segundo o órgão, está previsto o incremento de 63 leitos de UTI e 234 leitos clínicos exclusivos para Covid-19 nos hospitais que integram a rede estadual de saúde e a rede complementar. No último final de semana, foram abertos mais 20 leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) no Hospital de referência Delphina Aziz.

“Na nova etapa serão instalados mais 10 leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) no Delphina Aziz, além de aumento de leitos clínicos e de UTI nos prontos-socorros Platão Araújo, João Lúcio e 28 de Agosto, nos hospitais Getúlio Vargas, Instituto da Criança (Icam), Geraldo da Rocha e Beneficente Portuguesa, além das fundações de Medicina Tropical e Adriano Jorge”, diz a nota.

Segundo a SES, o Plano de Contingência, em operação desde novembro, “consiste na organização da rede para o momento de recrudescimento da doença e está previsto para operar em cinco fases, de novembro a junho, que coincide com o período sazonal das Síndromes Respiratória Aguda Grave (Srag) no Amazonas”.


Leia as medidas que vão vigorar

 de 26/12/2020 a 10/01/2020

Segurança pública – O decreto de Wilson Lima determina que eventos clandestinos sejam fechados, os equipamentos de som recolhidos, assim como bebidas e outros acessórios e instrumentos que estejam sendo utilizados para a realização desses eventos. Eventos como casamentos e formaturas estão proibidos; Reuniões comemorativas suspensas;

Comércio – Bares, restaurantes, lanchonetes, lojas de conveniência fecham no período do decreto. Comércios que não são essenciais funcionarão por drive-thru e delivery até as 21h; Os shoppings devem funcionar também no sistema delivery e drive-thru; 

Áreas públicas – Feiras e mercados vão abrir com horários que ainda serão estabelecidos. Os espaços públicos, como praças, praias, como a Ponta Negra, e áreas de lazer estarão fechados.

Essenciais – Os estabelecimentos com serviços essenciais, como padarias, supermercados, farmácias, vendas de gás, água e hotéis continuam abertos; Restaurantes dos hotéis apenas vão atender os hóspedes.

Transporte – Os serviços de transporte intermunicipais estão mantidos, mas será reforçado o trabalho de fiscalização, respeitando a quantidade máxima de ocupação dessas embarcações. As atividades da Indústria serão mantidas também.

Pessoas caminham em passarela de acesso ao transporte público, em Manais Manaus (Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real)

Por: Alícia Lobato e Edda Ribeiro
Fonte: Amazônia Real

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