Com turismo suspenso, indígenas do Acre aguardam imunização para reabrir

Lideranças decidiram suspender as atividades para conter a infecção de coronavírus, mas reclamam de falta de apoio

Com turismo suspenso, indígenas do Acre aguardam imunização para reabrir
Na imagem acima, aldeia do povo Huni Kunin (Foto cedida por Guto Lima)

A vila São Vicente, localizada às margens da BR-364 e distante 82 km da cidade de Tarauacá, no Acre, é o ponto de encontro de pessoas vindas de várias partes do mundo com o desejo de viver a experiência de passar alguns dias numa aldeia indígena da Amazônia.

Após uma viagem de até oito horas – às vezes até um dia inteiro – de canoa subindo o rio Gregório, o visitante chega às aldeias do povo Yawanawa para participar dos festivais culturais ou das vivências espirituais. Tais eventos servem não apenas para apresentar o modo de vida ancestral do povo, mas também é uma importante fonte de renda para a sobrevivência das comunidades, além de movimentar toda a economia do entorno. 

Mas em 2020, toda a agitação de embarcações subindo e descendo o rio para buscar os turistas foi interrompida por conta da pandemia da Covid-19, que passou a atingir o Brasil quase um ano atrás. Em 17 de março de 2020, a Fundação Nacional do Índio (Funai) emitiu a Portaria 419 proibindo a entrada de não-indígenas nas terras demarcadas, numa forma de evitar a chegada do coronavírus às aldeias.

Assim que a pandemia se revelou extremamente grave, os próprios líderes decidiram suspender as atividades, mesmo sob o risco de cessar uma valiosa fonte de renda. Além de pagarem por um pacote para participarem de festivais ou vivências, os turistas movimentam a economia das aldeias comprando os artesanatos produzidos, em maior parte, pelas mulheres, além dos chás medicinais feitos pelos pajés.

De acordo com o cacique Bira Yawanawa, liderança das aldeias Nova Esperança e Sagrada, no alto rio Gregório, a proibição na entrada dos visitantes resultou em grandes dificuldades econômicas para o seu povo. Apesar de contarem com recursos alimentares dos roçados, da pesca e da floresta, as comunidades indígenas amazônicas necessitam de itens vendidos nos mercados das cidades e que foram incorporados à sua base alimentar, como o óleo de cozinha, o sal e o açúcar. Com a pandemia, também é preciso comprar produtos de higiene, além do combustível para embarcações e geradores de energia.

“Desde abril paramos de receber pessoas. Se não fossem os amigos e irmãos de todo mundo que fazem algumas doações, eu não sei como é que estaríamos sobrevivendo aqui dentro. Eu sei que os outros povos indígenas estão passando mais necessidades do que nós”, diz Bira Yawanawa, em entrevista para a Amazônia Real desde a aldeia Sagrada. Em abril de 2020, os próprios Yawanawa decidiram suspender o turismo de vivência por temer o contágio do coronavírus, sem previsão de reabertura, conforme o cacique à reportagem, na ocasião.

“Não temos recebido nenhum apoio do município, estado ou governo federal. Nós, povos indígenas, somos os mais afetados e os mais abandonados dentro do setor público nacional. É lamentável falar isso, mas é verdade, não posso esconder o que nós vivemos hoje”, diz a liderança do povo Yawanawa.

A aldeia Nova Esperança, na Terra Indígena do Rio Gregório, foi uma das pioneiras no Acre no trabalho de receber turistas, ao organizar o primeiro Festival Yawa, em 2001, encabeçado por Bira Yawanawa.

Nestes 20 anos, o evento dos Yawanawa se tornou um dos mais conhecidos, recebendo pessoas dos mais distintos locais do Brasil e do planeta. Realizado sempre na última semana de outubro, o festival é o momento em que o povo Yawanawa celebra sua ancestralidade por meio dos rituais, cânticos, danças e brincadeiras. 

Expectativa com a imunização

Vacinação de indígenas em Assis Brasil, no Acre (Foto: Dsei ARP)

A chegada de 26 mil doses da vacina CoronaVac no Acre, suficiente para imunizar seus 12 mil indígenas aldeados no estado já faz algumas lideranças desejarem a reabertura das aldeias para o turismo de vivência, como é conhecida essa atividade nas aldeias. Tão logo seja aplicada a segunda dose, as aldeias querem voltar a receber pessoas de fora com a adoção de protocolos de segurança, conforme relatos ouvidos pela Amazônia Real.

Uma das aldeias que trabalham com as vivências de forma mais intensa é a Shane kaya, do povo Shanenawa, da Terra Indígena Katukina/Kaxinawa, município de Feijó. Nela foi construída uma estrutura específica para os trabalhos xamânicos com rezas e banhos. O local fica aos pés (raízes) de uma majestosa samauma, tida como sagrada pelos Shanenawa, e que, para eles, transmite as energias da cura. A pandemia da Covid-19 acabou também interrompendo a entrada de visitantes na comunidade, justo no ano em que eles planejavam melhor se preparar para este tipo de trabalho.

“Desde o início da pandemia até hoje não fizemos nenhuma vivência não só por respeito ao decreto, mas também para preservar a vida de nosso povo”, diz Tânia Shanenawa, presidente da Associação Shane Kaya. A aldeia é conhecida por ser liderada por mulheres. Segunda ela, as atividades de vivência começaram a ser feitas há três anos, com a primeira tratando do empoderamento das mulheres. De acordo com ela, os recursos deixados pela entrada de turistas movimentavam a economia da comunidade, proporcionando mais acesso à renda, em especial pela venda dos artesanatos. 

Tânia Shanenawa diz que apesar dos impactos causados pela proibição da entrada dos não-indígenas, os moradores da aldeia conseguiram se readaptar ao novo momento. Eles contaram com as cestas básicas doadas pelo governo, além de doações feitas por amigos. Quanto ao retorno das atividades pós-pandemia, ela afirma que a tendência é de ocorrer num novo formato.

“Agora é só aguardar a vacina e esperar a liberação para darmos início às atividades. Estamos na expectativa, com pensamento positivo, na certeza que logo, logo isso vai passar”, afirma ela.

A mesma ideia tem Bira Yawanawa. Segundo ele, o objetivo é exigir que os visitantes apresentem resultados dos exames de detecção da Covid-19. Aqueles que vierem de países com processo de vacinação mais avançado também precisam estar imunizados. A medida, de acordo com Bira, é garantia de mais segurança para ambas as partes. Em janeiro, o Acre recebeu 26 mil doses da CoronaVac para vacinar seus 12 mil indígenas aldeados, quantidade suficiente para as duas aplicações. Algumas lideranças planejam reabrir as aldeias para o turismo tão logo sejam aplicadas a segunda dose da vacina. A atitude não tem o apoio da Funai.

A celebração da ancestralidade

Festival Mariri Yawanawa (Foto: Sergio Vale/2019)

A aldeia Nova Esperança, na Terra Indígena do Rio Gregório, foi uma das pioneiras no Acre no trabalho de receber turistas, ao organizar o primeiro Festival Yawa, em 2001, encabeçado por Bira Yawanawa.

Nestes 20 anos, o evento dos Yawanawa se tornou mundialmente conhecido, recebendo pessoas de todo o Brasil e de outros países. Realizado sempre na última semana de outubro, o festival é o momento em que o povo Yawanawa celebra sua ancestralidade por meio dos rituais, cânticos, danças e brincadeiras. 

Nessa semana de festa, eles resgatam suas vestes – com saias feitas de fibra de envira – pintam o corpo e empunham lanças e flechas. Os turistas podem participar das celebrações, entrando nas rodas de dança e nas brincadeiras. À noite é o momento da espiritualidade, em que os visitantes têm a oportunidade de ingerir o chá sagrado, a ayahuasca, a bebida ancestral dos povos da Amazônia.

“Eu comecei a abrir um novo ciclo, como se fosse um turismo cultural e espiritual para nossos povos e que trouxe realmente uma nova alternativa econômica sustentável aos povos indígenas”, ressalta Bira. “Nós, povos indígenas, eu pessoalmente, sou um dos mentores responsáveis por abrir um novo portal para sobrevivência dos povos indígenas, abrir nossas casas, receber simpatizantes, pessoas solidárias às causas ambientais e dos povos tradicionais.”

Além dos festivais culturais, os povos indígenas do Acre também organizam os festivais xamânicos, ou vivências espirituais. É uma espécie de retiro espiritual dentro da floresta, na qual o visitante participa dos rituais da ingestão do chá – também chamado de uni -, da aplicação de rapé, recebe rezas dos pajés e toma banhos feitos a partir de folhas e raízes da floresta. Em algumas aldeias ainda há a “vacina do sapo”, feita a partir da secreção do sapo kambô. 

A busca pela ‘cura interior’

Turista na Aldeia Shanekaya (Foto:Reprodução Facebook/Etnocientista)

As vivências passaram a ser tão ou mais atrativas do que os festivais culturais. Enquanto os festivais têm seus calendários definidos, as vivências ocorrem de janeiro a dezembro, atraindo pessoas interessadas não só em conhecer o modo de vida dos indígenas numa aldeia, como a busca pela “cura interior” por meio do tratamento na floresta. 

Uma das aldeias que trabalham com as vivências de forma mais intensa é a Shane Kaya, do povo Shanenawa, da Terra Indígena Katukina/Kaxinawa, no município de Feijó. Nela foi construída uma estrutura específica para os trabalhos xamânicos com rezas e banhos. O local fica aos pés (raízes) de uma majestosa samauma, tida como sagrada pelos Shanenawa. Para eles, essa árvore transmite as energias da cura. A pandemia da Covid-19 acabou também interrompendo a entrada de visitantes na comunidade, justo no ano em que eles planejavam melhor se preparar para este tipo de trabalho.

“Desde o início da pandemia até hoje não fizemos nenhuma vivência não só por respeito ao decreto, mas também para preservar a vida de nosso povo”, diz Tânia Shanenawa, presidente da Associação Shane Kaya. A aldeia é conhecida por ser liderada por mulheres.

Segunda ela, as atividades de vivência começaram a ser feitas há três anos, com a primeira tratando do empoderamento das mulheres. De acordo com Tânia, os recursos deixados pela entrada de turistas movimentavam a economia da comunidade, proporcionando mais acesso à renda, em especial pela venda dos artesanatos. 

Tânia Shanenawa afirma que não restou outra alternativa aos moradores da aldeia senão conseguir se readaptar ao novo momento. Eles contaram com as cestas básicas doadas pelo governo, além de doações feitas por amigos. Quanto ao retorno das atividades pós-pandemia, ela afirma que a tendência é de ocorrer num novo formato. “Agora é só aguardar a vacina e esperar a liberação para darmos início às atividades. Estamos na expectativa, com pensamento positivo, na certeza que logo, logo isso vai passar”, afirma ela.

A mesma ideia tem Bira Yawanawa. Segundo ele, o objetivo é exigir que os visitantes apresentem resultados dos exames de detecção da Covid-19. Aqueles que vierem de países com processo de vacinação mais avançado também precisarão estar imunizados.

Um turismo sustentável 

Turistas durante o Encontro Huni Kuin Yube Inu (Foto:Reprodução Facebook/IYI)

Ao longo das últimas décadas, os povos indígenas do Acre descobriram nos festivais, uma importante forma de obter renda para as comunidades com o menor impacto ambiental possível. Mesmo antes da pandemia, quando os interessados não podiam ir até as aldeias, os indígenas passaram a viajar até eles.

Lideranças espirituais (pajés) são convidadas para comandar encontros xamânicos pelo país e o mundo. Essas viagens também tiveram de ser suspensas na pandemia para não ter o risco de voltarem contaminados para as aldeias. Os que viajam precisam cumprir quarentena nas cidades mais próximas antes do regresso para as TIs. 

Nem mesmo as dificuldades de logística atrapalham o turismo nas aldeias acrianas. É o caso da São Joaquim, do povo Huni Kuin, localizada na Terra Indígena Baixo Rio Jordão. O território fica no município de Jordão, onde só é possível chegar de barco ou avião de pequeno porte. A passagem aérea da capital Rio Branco até a cidade tem um custo médio de 500 reais. Depois são necessárias algumas horas de barco até a aldeia. 

Segundo Isaka Huni Kuin, os recursos obtidos a partir do turismo são usados para garantir a melhoria na infraestrutura da comunidade em benefício dos moradores e dos visitantes. Com o dinheiro, eles conseguiram construir alojamentos e banheiros, além de investir na compra de placas para a geração de energia solar. “Nosso turismo tem trazido muitas melhorias para nós por meio da melhoria da estrutura e de mais dinheiro circular pela venda de nossos artesanatos”, diz. 

A renda obtida com o turismo tem permitido investir em ações que deveriam ser levadas pelo poder público, mas que não ocorrem. Segundo a liderança Huni Kuin, a aldeia São Joaquim começou a receber visitantes a partir de 2016. Com as restrições provocadas ao longo de 2020, a comunidade sentiu os efeitos. Por conta de projetos em segurança alimentar para fortalecimento de seus roçados – além da pesca e caça -, os Huni Kuin conseguem atravessar o atual momento de restrições e perda de renda. 

“Sem turismo a gente sempre vive, desde 500 anos atrás. Aqui nós temos as nossas próprias plantações, temos a caça, a pesca. Outras pessoas conseguem vender um pouco dos artesanatos lá na cidade. E assim a gente vai sobrevivendo”, afirma. 

Funai reforçou proibição

Turistas durante o Encontro Huni Kuin Yube Inu (Foto:Reprodução Facebook/IYI)

Desde o ano passado, algumas lideranças indígenas passaram a procurar as coordenações regionais da Funai no Acre para uma posição quanto à liberação do turismo. A resposta se deu por meio de ofício, comunicando que a entrada de não-indígenas nas aldeias continua proibida enquanto permanecer a pandemia da Covid-19, isso mesmo com os indígenas vacinados.

No dia 21 de dezembro, a Coordenação Regional (CR) do Juruá informou “a manutenção da restrição de circulação de pessoas que não estejam desenvolvendo atividades consideradas essenciais nas comunidades”. Ofícios produzidos pelas diretorias da Funai em Brasília repassadas às Crs de todo o país também recomendam impedir o retorno do turismo nas terras indígenas.

No documento, a CR Juruá reconhece o turismo como importante atividade para as aldeias indígenas do estado, mas que não poderia haver flexibilizações no atual cenário de colapso do sistema de saúde do Acre, com leitos de UTI e enfermaria em lotação máxima. Segundo dados da Comissão Pró-ìndio (CPI), o Acre tem registrado 2.550 casos de Covid entre os povos indígenas, com 29 mortes.

Indígenas durante o Festival Yawá no Acre (Foto: Sérgio Vale/Agência Acre)

Por: Fabio Pontes
Fonte: Amazônia Real

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