Como nasce, cresce e morre a febre da cloroquina no Brasil

Medicamento usado como boia de salvação pelo presidente perdeu respaldo do Ministério da Saúde para o tratamento da covid-19 e começa a ser substituído, nos discursos, por nova droga

Jair Bolsonaro segura uma caixa de cloroquina em frente ao Palácio da Alvorada, em julho do ano passado.ADRIANO MACHADO / REUTERS

Passado um ano e meio do primeiro caso oficial de contaminação pela covid-19 na China, o mundo ainda não encontrou um remédio capaz de curar a doença. No Brasil, ao longo de todo esse período, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), contrário ao isolamento social, se agarrou à cloroquina como alternativa pronta ao que a ciência vinha pesquisando. Contrariou recomendações internacionais, incluindo a Organização Mundial da Saúde (OMS), derrubou ministros que não quiseram seguir sua determinação pelo “tratamento precoce” e até intercedeu junto ao Governo indiano pelas farmacêuticas que produzem a droga aqui. Mas, sua jornada definha quando até mesmo o Ministério da Saúde passou a reconhecer, contrariando o presidente, que a droga não tem eficácia no tratamento de pacientes com coronavírus. Com a munição esgotada, Bolsonaro agora lança mão de uma nova droga, a proxalutamida, de eficácia tão duvidosa quanto a anterior.

Antes de virar essa página para começar outra aventura científica, muitas perguntas ainda precisam ser respondidas sobre a propaganda e o uso indiscriminado da cloroquina e a hidroxicloroquina para tratar pacientes com a covid-19. Pesa sobre o Laboratório Químico e Farmacêutico do Exército (LQFEx) a produção de milhares de comprimido cuja ordem para a produção se transformou em um jogo de empurra: O LQFEx diz que recebe ordens do Ministério da Defesa e da Saúde. A Defesa, por sua vez, diz que atende a orientação da Saúde. Já a Saúde, diz que não pediu nada para ninguém. Com 1 milhão de comprimidos em estoque, produzidos sem uma demanda clara, o laboratório teria doado todo o medicamento ao Ministério da Saúde. É o que informa nota técnica enviada pela pasta à CPI da Pandemia.

O documento diz que no final de março do ano passado, após a publicação de nota informativa pela Saúde, recomendando o uso da cloroquina como “terapia adjuvante no tratamento” (complementar) de formas graves do coronavírus, foi informado ao Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos (DAF) do ministério que o Laboratório do Exército dispunha de produção para pronta entrega à rede pública de saúde cerca de um milhão de comprimidos do remédio. “Entende-se que o quantitativo foi recebido como doação do Laboratório Químico e Farmacêutico do Exército (LQFEX), ou seja, sem ônus para o Ministério da Saúde, uma vez que não houve solicitação do DAF para produção e aquisição deste medicamento”, conclui a nota. À reportagem, o Exército reitera que o LQFEx “é um órgão executor, não competindo decidir a respeito da ampliação ou redução da produção de medicamentos, tampouco avaliar sua demanda”. Não diz, no entanto, quem pediu para produzir o medicamento, tampouco o custo dessa produção e se a distribuição foi, de fato, de graça ao Ministério da Saúde. Só no ano passado, cerca de 3,2 milhões de comprimidos de cloroquina foram produzidos pelo laboratório do Exército. Antes da pandemia, a cada dois anos o laboratório produzia um lote de 250.000 comprimidos.

O LQFEx é um dos seis laboratórios credenciados pela Anvisa para produzir a droga no Brasil. Os outros cinco são Farmanguinhos/Fiocruz, Sanofi-Medley, Cristália, EMS e Apsen. A matéria-prima para a produção da droga é importada da Índia e um dos principais laboratórios que a produzem naquele país é o indiano IPCA. Aqui entra outro capítulo na história da cloroquina. Reportagem de O Globo publicada no mês passado mostrou que o presidente Jair Bolsonaro atuou diretamente em favor da Apsen e da EMS, solicitando ao primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, que acelerasse a exportação de insumos para a fabricação das drogas. Segundo a reportagem, baseada em documentos enviados à CPI, Bolsonaro teria feito o contato em abril do ano passado.

O empenho do presidente beneficiava a Apsen, cujo presidente, Renato Spallicci, declarou voto em Bolsonaro em 2018 e era um costumeiro publicador de posts em favor do presidente em suas redes sociais. Tudo isso chamou a atenção dos senadores da CPI que já fizeram uma convocação para que ele deponha à comissão, quando os trabalhos forem retomados em agosto. Já Carlos Sanchez, CEO da EMS, é mais discreto. Já participou de reuniões com o presidente no Planalto e do jantar com empresários realizado em São Paulo em abril, no qual o presidente foi ovacionado.

Bolsonaro já foi garoto propaganda dos produtos de ambos os empresários. Em 26 de março do ano passado, o presidente mostrou a caixinha Reuquinol, feito a base de hidroxicloroquina pela Apsen, na reunião virtual do G-20, transmitida para todo o mundo. Spallicci aproveitou o feito e compartilhou a imagem em suas redes sociais. Já em julho, quando havia testado positivo para a covid-19, Bolsonaro afirmou em uma live que havia tomado cloroquina. “Recomendo que vocês façam a mesma coisa”, disse, com a caixinha da EMS nas mãos. E ainda acrescentou: “Não estou ganhando nada com isso. Não tenho nenhum negócio com essa empresa”.

Quem então ganhou com isso?

À reportagem, a Apsen afirma, por meio de nota, que “desde 2016, o volume de vendas do medicamento Reuquinol, à base de hidroxicloroquina, tem aumentado, em média, 16% ao ano, de forma orgânica, devido ao maior acesso ao produto de pacientes crônicos, com o diagnóstico das doenças previstas em bula”. Mas, com uma maior procura pelo medicamento durante a pandemia, o aumento foi de 30,7% no volume de comprimidos vendidos em 2020, em relação ao ano anterior.

Sobre o contato do presidente com o governo indiano, a companhia diz que “como houve um bloqueio das exportações pelo governo indiano, a Apsen procurou, em março de 2020, a Câmara de Comércio Brasil-Índia, que se prontificou a ajudar em relação a essa questão diplomática, inclusive junto ao Ministério das Relações Exteriores. Posteriormente, houve o contato do presidente da República com o primeiro-ministro indiano”. O bloqueio, a empresa esclarece, foi de matéria-prima comprada em 2019.

A EMS também afirmou que fez um pedido ao fornecedor indiano no final de 2019 e que em março o governo da Índia comunicou o bloqueio do embarque desses insumos, “sendo que a empresa já havia feito o pagamento antecipado de 100% do valor da mercadoria ao fornecedor”. A empresa solicitou então, depois de ter pedido a liberação de insumos à Índia e não ter obtido êxito, apoio ao Ministério das Relações Exteriores brasileiro. Em abril parte da entrega foi feita e, o restante, em junho. “A EMS reforça que a relação com governos, em todas as instâncias, é institucional”, diz a nota. A companhia também afirma que no ano passado, as vendas de hidroxicloroquina representaram 0,2% do faturamento total da empresa e 11,6% do mercado total desse medicamento.

Droga nova

No início da pandemia, o Ministério da Saúde autorizava o uso da cloroquina para tratar sintomas graves da doença, contanto que médico e paciente assumissem juntos o risco dos efeitos colaterais. Em seguida, em nova orientação da pasta que já admitia a falta de comprovação de eficácia, a droga podia ser receitada até no caso de sintomas leves da doença. Para isso, entretanto, o paciente precisaria assinar um termo de consentimento, afirmando expressamente que ele sabia que não há estudos conclusivos de que a cloroquina melhoraria seu quadro de saúde e ciente dos inúmeros efeitos colaterais. Ainda sem comprovação da eficácia, o remédio foi distribuído no SUS em todo o país até mesmo para pacientes assintomáticos.

Ministros caíram. Ao todo, foram quatro os que ocuparam o comando da pasta da Saúde, até o momento. Luiz Henrique Mandetta, o primeiro a sair, e Nelson Teich, o segundo, deixaram o Ministério por não seguirem as ordens do presidente. O uso da cloroquina era uma delas. Houve até a tentativa de modificar a bula da cloroquina, via decreto, para contemplar a covid-19, como relataram o ex-ministro Mandetta, e o presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antonio Barra Torres. A sugestão surgiu numa reunião no ano passado com os dois, além do ministro Braga Netto, que ocupava então a Casa Civil, e a médica Nise Yamaguchi. A proposta não prosperou.

Isso não impediu que o Governo insistisse na distribuição da cloroquina. Até mesmo uma plataforma, a Tratecov, para o tratamento precoce em pacientes com o coronavírus foi lançada no início deste ano, em caráter experimental em Manaus. Deu tão errado que seu uso não avançou e virou também alvo da CPI. Mas os seguidos estudos acerca do uso da droga na pandemia, aliados ao desejo da população em se precaver da doença com vacina e não com remédio – 94% dos brasileiros são favoráveis à vacina, segundo o Instituto Datafolha em julho deste ano – deixaram a cloroquina em segundo plano.

Sem ter uma caixinha de remédios para apresentar em suas lives, Bolsonaro lançou mão então de uma nova droga para a covid-19. “Tem uma coisa que eu acompanho há algum tempo, e nós temos que estudar aqui no Brasil. Chama-se proxalutamida. Já tem uns três meses que isso aí… Não tá marcado, é uma droga ainda estudo, sendo estudada”, afirmou o presidente, sem usar máscara, quando deixava o hospital em São Paulo onde se internou para tratar de uma obstrução intestinal. Isso depois de dizer, ironicamente, que quem fala sobre a “cura da covid” no Brasil “passa a ser criminoso”.

A nova droga do presidente “tem curado gente”, como ele vem dizendo, sem dados para apresentar. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) liberou nesta semana seu estudo para verificar a eficácia no tratamento de pacientes com coronavírus. Por enquanto, a proxalutamida é um bloqueador de hormônios masculinos, como a testosterona, ainda sob testes e apontado como droga experimental contra câncer de próstata. O medicamento é manufaturado na China, mas ainda não é comercializado. Seu nome passou a ser lembrado pelo presidente depois que um estudo com a droga foi realizado em Manaus, em parceria com a empresa de biotecnologia americana Applied Biology, especializada em medicamentos para pele e cabelo, e o grupo amazonense Samel. No entanto, a droga pode ter uma meia vida curta no papel de nova boia de salvação do presidente. De acordo com Malu Gaspar do jornal O Globo, há indícios graves de erros na condução da pesquisa, o que levou a Comissão de Ética em Pesquisa (Conep) a produzir um relatório que deve ser encaminhado ao Ministério Público pedindo para que um inquérito seja aberto. A suspeita é de fraudes e falhas graves, como a morte de um número alto de voluntários, o que deveria ter levado à suspensão imediata da pesquisa.

Por: Marina Rossi
Fonte: El País