Comunidade de Turé III resiste à pandemia e à falta de assistência

O território quilombola, palco do assassinato em 2018 do líder Nazildo dos Santos do Brito, enfrenta agora a luta pela sobrevivência.

Comunidade de Turé III resiste à pandemia e à falta de assistência
Na imagem acima, quilombola carrega lata de água na entrada da comunidade Turé III. (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real/2019)

Acival Seixas Trindade é agente de saúde da Comunidade de Remanescentes de Quilombos Turé III, no nordeste do Pará. Trabalha na prevenção, na orientação às gestantes, mães e famílias e também no levantamento do censo interno para a Secretaria de Saúde do Pará. No território, há alguns postos de vacinação, ativos apenas durante as campanhas, mas nenhum posto de saúde. Apesar do total abandono do estado, os quilombolas têm o que comemorar nesta pandemia. Muitos contraíram a Covid-19 e adoeceram, mas não houve óbitos entre os moradores.

“A gente cuidava com remédios caseiros porque ninguém vinha na cidade. Os hospitais estavam todos lotados, se levasse para lá nem adiantava, fazia só piorar. Não tivemos suporte de nenhum modo”, informou Evelly Laiane Trindade, filha de Acival, à reportagem da Amazônia Real. No único posto de saúde, desativado anos atrás, faltavam materiais, equipamentos e profissionais de saúde. “A enfermeira ficava 15 dias, quando pegava para saturar, não tinha material”, lembra o agente Acival. O posto de saúde localizado no Alto Acará, onde Acival e a família moram, acabou abandonado e alvo de depredações.

Turé III, que fica na zona rural de Tomé-Açu, na divisa com o município de Acará, resiste à pandemia do novo coronavírus como pode. ‘Resistir’ é uma palavra que marca a comunidade vítima da crônica de mais uma morte anunciada no Pará, o assassinato de Nazildo dos Santos Brito, em abril de 2018. Ele presidia a Associação de Moradores e Agricultores Remanescentes Quilombolas do Alto Aracá (Amarqualta).

Acival, conhecido como “Pastor”, é o responsável pelo único posto de vacinação no território quilombola onde estão as comunidades de Vila Formosa e Turé III.
(Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real/2019)

“O único lutador era ele. Não tinha medo. Enfrentava. Depois que morreu deu uma parada”, afirma Jefferson Amaral Trindade, primo em segundo grau de Nazildo. “Ele buscava os recursos na prefeitura, ameaçava o prefeito para fazer coisas para a comunidade. Ia pra cima mesmo, dizendo que ia fechar rua fazer protesto. Ele era o único cara que saía do nosso meio para ir ao Ministério Público, conhecia alguns candidatos em Belém.” 

Pouco antes de ser assassinado, Nazildo liderava manifestações contra a Biopalma, empresa produtora de dendê da Vale SA. O Ministério Público Estadual denunciou o fazendeiro José Telmo Zani pelo homicídio qualificado contra a liderança quilombola e o caso permanece em julgamento.

A liderança de Nazildo faz falta em um cenário devastador da pandemia sobre comunidades fragilizadas. Lutando para tocar a vida, os quilombolas enfrentam muitas dificuldades e uma das maiores é permitir que as crianças e os adolescentes possam continuar estudando.

A escola desabou de velha

Escola de ensino fundamental São José, em Vila Formosa, território quilombola, no Pará (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real/2019)

No período de isolamento social, os alunos da primeira até a quinta série da escola Salomão 1 receberam um modesto kit merenda, com poucos itens. Como na comunidade não tem sinal de internet para as aulas ministradas à distância, os estudantes receberam trabalhos impressos para responder semanalmente e entregar na escola. Os pais auxiliam, em alguns casos, na realização das atividades diante da falta do suporte de professores.

Em maio de 2019, fomos pela Amazônia Real conferir como as aulas estavam sendo prejudicadas no período das chuvas. De acordo com Evelly Laiane, desde então, a situação só fez piorar. Faltam materiais, professores, merenda e reformas. 

A escola 21 de Abril, uma entre as seis do território, literalmente desabou. A casa cedeu de tão velha. A professora, que mora ao lado da unidade escolar, passou a lecionar do domicílio de seu filho para que os alunos não ficassem sem aulas. 

As escolas Salomão 1 e Ouro Verde, no Turé III, estão estáveis, com “banheiro e professor”. Apesar de Amarqualta pertencer ao município de Acará, a prefeitura de Tomé-Açu fundou as duas escolas em Turé III. A escola Fé em Deus não está funcionando porque não tem professor recorrente. “Quando tem, vem um mês, dois meses, depois some.” Não tivemos notícias sobre as demais unidades, São José e Manoel Silva. 

Ao fim do quinto ano na Salomão 1, os alunos precisam pegar o ônibus e ir para uma escola situada a mais de 30 quilômetros da comunidade do Turé. “A estrada é horrível. Os alunos vivem esse drama”, relata Evelly.

A sua avó e a quem trata como mãe, Marta Amaral Trindade lecionou na comunidade por muito tempo. De início, as lições eram passadas nas casas. Mais tarde, os pais se juntaram para a construção das escolas feitas de madeira. Na comunidade, estudantes de mais de uma série distinta se agrupam em turnos. Marta tinha de dividir os grupos dentro da sala para poder ensinar a todos em níveis diferentes. Mesmo com um salário baixo, a professora chegou a contratar uma prima para lhe auxiliar, pagando ela do próprio bolso.

“Trabalhei 14 anos pelo município de Acará e 2 anos por Tomé-Açu. Na época que comecei a trabalhar o salário era de 25 reais por mês. Terminei ganhando 1.300”, explica Marta. “Desde 2010 parei de dar aula com problemas de saúde. Comecei a passar mal na sala, fui ao médico, descobri que sou hipertensa. Aí a diabetes apareceu e parei. Faz 20 anos que sofro de reumatismo.” Marta foi professora de Nazildo dos Santos. 

A história das terras de Amarqualta

Vila Formosa, território quilombola, Alto Acará
(Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Realq2019)

O território de Amarqualta é formado por Vila Formosa, Turé III, 19 do Maçaranduba, Monte Sião, Ipitinga Grande e Ipitinga Mirim, que ocupam uma extensão de 18 mil km², o que representa aproximadamente 22 mil hectares. O acesso se dá por estradas de chão batido. Quando alagadas ou em períodos de intenso tráfego de caminhões carregados de madeiras, causando buracos, obrigam a parada constante dos motoristas. 

Na visita da reportagem a Turé III, na temporada de chuvas de 2019, motorista, fotógrafo e eu tivemos que descer do carro mais de uma vez para vencer o caminho. A estrada que atravessamos foi planejada pelos dois amigos Laelson de Souza e Nazildo dos Santos, que lutavam constantemente para melhorá-la. Hoje em dia, segundo informações do próprio Laelson, o ramal “mudou para pior” e os moradores seguem na luta. “A estrada piorou, porque não teve manutenção, chovendo, vai destruindo o curso da estrada”, diz Laelson.

Cerca de 600 famílias vivem no território, em torno de 2 mil pessoas. Nem todas são associadas, sendo que aproximadamente 60 famílias moram em Turé III. Raimundo Nunes dos Santos vive da roça. Amanhece o dia cedo, ele pega a estrada ou pega a rabeta. ”Trabalho sempre, minha atividade é essa. Eu vivo disso aí. Tudo que tem direito de plantar dentro da roça, tenho. Eu planto para colher no tempo certo”, conta. 

Em maio de 2018, um mês depois do assassinato de Nazildo, Raimundo teve uma surpresa desagradável. Mais de 20 bois de um fazendeiro, que mora dentro do território a dez minutos de sua casa, no mesmo igarapé, invadiram o seu roçado. Destruindo todo o cultivo de arroz, no ponto da colheita, “não ficou nem um cacho para fazer remédio”, afirma. Raimundo fala manso e demonstra uma serenidade admirável no seu modo de ser. Retomou a capina e as plantações. “Eu plantei um bocado. A maniva, alguma renasceu. O milho e arroz eu perdi tudo.” A história acabou na Justiça depois de algumas tentativas de resolução. “Ele [o fazendeiro Edson Donatti] se chorou tanto para não pagar porque dizia que estava no vermelho.”

Fazendeiros em propriedades griladas coabitam o mesmo território junto às comunidades de Amarqualta. Esse convívio conflituoso alinhava as escritas desde o período da escravidão. Acival Seixas Trindade, amigo de Raimundo e pai de Evelly Laiane, chegou ao território, vindo da região do baixo Acará, com sua família em 1962, quando tudo era selva e as pessoas entravam para caçar.  Vieram ele, seus irmãos, os pais, tios e avós.

“Lá era uma fazenda de escravos, eles trabalhavam aí. Aquela casa lá… lá… era descendente de escravos. Os pais dele eram escravos”, relembra. As pessoas trabalhavam em troca de utensílios. O serviço era esse, trabalhar para os fazendeiros. “Tinha que comprar munição dele para matar uma caça. Você matava para comer a caça, o couro era dele. Se quisesse tirar uma madeira assim. Tinha que tirar pra eles lá. O boi… ninguém tinha boi desse aí pra trabalhar. Quem tinha eram eles. Tinha que vender pra eles a madeira. O barco pra levar pro rio.. Tudo…”

Com o fim da escravidão, as populações libertas ficaram às margens das fazendas e as dinâmicas foram se reformulando para práticas análogas à escravidão, as chamadas “escravidão por dívidas”, muito comuns na Amazônia. 

territorialização das comunidades da Amarqualta se deu a partir do avanço do dendê na região impondo uma necessidade de organização “em torno da apropriação de suas etnias para lutar por seu território contra a lógica predatória” de sua produção, conforme pontuou em suas pesquisas na região a geógrafa Jamilli Medeiros da Silva. 

Os três anos da morte de Nazildo

Nazildo era agricultor e na foto está ao lado da sua plantação de mandioca
(Foto: Jamilli Medeiros)

No dia de seu assassinato, o jovem líder de 33 anos deu sinais de que algo não ia bem. Nazildo dos Santos Brito chegou à casa de sua irmã mais velha, Ruth Amaral de Brito, no distrito de Quatro Bocas, no município de Tomé-Açu, fumando cigarro, coisa que não tinha por hábito. Também se recusou a jantar. “Acho que estão querendo armar algo pra mim”, confidenciou Nazildo à irmã. “Não dá as tuas costas para ninguém”, respondeu, aflita, Ruth.

Por volta das 19h45 de 14 de abril de 2018, um sábado, Nazildo foi alvejado por 20 tiros de arma de fogo ao retornar para a sua casa no Quilombo Turé III, em uma estrada de acesso, na região rural de Tomé-Açu, de acordo com as investigações da Polícia Civil.  O corpo foi encontrado no dia seguinte no ramal Roda D´água. Nazildo havia solicitado proteção e não foi atendido pela Justiça. 

Além da potência na articulação política e da valentia na defesa do território, Nazildo tinha espírito congregador, sorridente e respeitado. Era muito inteligente a despeito de não ter seguido com os estudos. Costumava agrupar a família, que passou a se reunir menos depois de seu assassinato. “O titio já chegou a passar fome para dar ao povo. Ele levava as pessoas para o hospital, dava dinheiro dele para dar ao povo. Hoje, se eu sou formada, é por causa dele. Me ajudou e me influenciou”, conta com admiração Vanessa Amaral de Brito, filha da irmã de Nazildo, que fez curso de secretariado e finalizou o ensino médio. Nazildo ajudou a cuidar e a pagar as despesas referentes às necessidades das três sobrinhas, filhas de Ruth, quando ela se separou. Vanessa pretendia fazer a faculdade com o auxílio do tio, no entanto, ele faleceu quando ela estava completando o ensino médio.

No velório de Nazildo, a rua em que fica a casa de Ruth, ficou repleta de pessoas. Participaram das homenagens indígenas da comunidade originária Tembé do território Turé-Mariquita, também em Tomé-Açu. As comunidades de Amarqualta e de Turé-Mariquita compartilharam lutas. Em 2015 ocuparam a empresa Biopalma produtora de óleo de palma.

Nazildo era pai de três meninas: Marina, Karina e Naiane. A sua companheira, Ivanete Ferreira, mudou-se da comunidade. O amigo e companheiro de lutas de Nazildo Laelson de Souza relata que houve episódios de ameaça a Ivanete. “Depois que mataram o Nazildo, vieram de moto na casa dela duas vezes. Bateram lá, mandaram recado para ela. Ela ficou com medo e se retirou da comunidade.”

As principais lutas da liderança eram na defesa do território, pela melhoria das estradas de acesso ao território, educação e saúde no território. Segundo relato de pessoas da comunidade, não houve melhorias desde o assassinato de Nazildo, com agravo das condições durante o ano na pandemia. Mas a esperança persiste nas novas gerações.

A perseverança para manter os estudos 

Evelly Laiane é quilombola do Turé III (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real/2019)

Evelly Laiane se apoia na bancada, os cabelos cacheados, uma toalha a cobrir suas pernas e o jeito duro e doce, ao mesmo tempo, de falar com desenvoltura e determinação. A mesma determinação que a mantém nos estudos diferente da maioria das colegas de sua idade. Leitora exímia, de romances e poemas, apreciadora de Fernando Pessoa, está finalizando o terceiro ano do ensino médio e pretende cursar a graduação no curso de administração. 

A rotina nos últimos anos se dividiu entre a permanência na casa de uma parente no município de Quatro Bocas nos dias de semana e no território de Amarqualta nos finais de semana. A mãe e os irmãos se revezavam semanalmente para acompanhá-la na cidade.

Os pais se esforçam porque apostam tudo nela, a única mulher na família. Marta e Acival são seus avós, mas cuidam da jovem desde que nasceu estabelecendo uma relação de pais e filha. A mãe biológica faleceu ao ter a menina. 

Em Quatro Bocas, só há uma escola do ensino médio para todas as comunidades rurais e da cidade. Quem não consegue realizar a matrícula e perde a vaga, precisa estudar em Tomé-açu, que fica ainda mais distante. Os irmãos de Evelly desistiram dos estudos. “Não tinha a facilidade, digamos entre aspas, que tem hoje para mim. Não tinha transporte, por mais que o transporte hoje seja naquela dificuldade, mas já tem. Eles acabaram desistindo.” 

Ao fim do quinto ano as aulas passam a ser fora da comunidade. O seu meio de transporte para a escola do sexto até o sétimo ano foi um caminhão contratado pela prefeitura do município. O caminhão era daqueles bem altos, com uma cabine separada atrás, em que o motorista fez uma uma espécie de casinha coberta de compensado. “À tarde, quando a gente vinha, era um fogo dentro de tão quente. Só tinha uma janelinha desse tamanho”, mostra o tamanhinho do buraco, pequeno tanto de um lado quanto do outro, deixando o ar entrar com sufoco. 

São inúmeras as vezes em que ela ou seus colegas da comunidade ficaram no meio da estrada pelos contratempos no trajeto. Num dia o motorista do caminhão não apareceu no final da aula. Depois de pegar uma carona com um ônibus, que vinha com outros alunos da outra comunidade, até metade da viagem e esperar cerca de duas horas o motorista chegar, acabaram andando para não dormirem na estrada. Foram caminhando de estômago vazio, pois a merenda da escola incluía um suco e algum lanchinho.  Na manhã seguinte acordaram às 3 horas para tomar o caminhão às 5h40. “Nesse dia mesmo todo mundo sentiu vontade de desistir, aí um deu força pro outro. A maioria desistiu. Dos que estudavam lá só os que permaneceram foram três ou quatro.”

Evelly Laiane prestou a prova do Enem em janeiro. O terceiro ano, que deveria ter finalizado em dezembro, continua em 2021 devido aos atrasos no calendário escolar provocados pela pandemia. 

Há aproximadamente um mês, ela e sua família, devido a necessidade, instalaram uma internet rural para a sua casa em Turé III, e agora, a jovem não precisa mais passar a semana inteira em Quatro Bocas, pois estava difícil ter a companhia diária dos irmãos e os gastos eram muito altos para se manter no município. Atualmente vai à escola semanalmente apenas para entregar os trabalhos do cartão respostas das atividades que estão sendo realizadas à distância.

O que lhe dá motivação para completar a sua educação escolar? “Na minha comunidade, das mais de 50 famílias, acho que até agora se formaram pouquíssimas, umas três pessoas no máximo. Não quero seguir o que os demais seguiram. Eu enxergo para mim um futuro melhor. Eu vejo em mim um caminho para ajudar as pessoas da minha comunidade e da minha família”, diz Evelly Laiane.

Por: Joana Zanotto
Fonte: Amazônia Real

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