COP26: Brasil assina dois acordos anti-Bolsonaro

A chegada de 40 indígenas de diferentes etnias à COP26 evidenciou a ausência do governo brasileiro nas discussões sobre as mudanças climáticas. Em um dia que teria tudo para ser celebrado pelo Brasil, que, por pressão dos Estados Unidos e de empresários, assinou junto a mais de cem países o Compromisso Global do Metano para reduzir 30% as emissões do gás até 2030, Alessandra Korap Munduruku, primeira mulher a coordenar a Associação Indígena Pariri, fez questão de explicar ao mundo a farsa dos projetos anunciados por Jair Bolsonaro, já que ele jamais se empenhou em cumpri-los.

O Compromisso Global do Metano, no qual o Brasil afirma que irá cortar em um terço as emissões de metano nos próximos nove anos, foi recebido com entusiasmo pela comunidade internacional, exceto pelos pesquisadores e lideranças indígenas brasileiros. Na verdade, eles receberam com “espanto” essa adesão brasileira, que tem uma economia voltada para o agronegócio. Os acordos são, à luz de seu governo, anti-Bolsonaro por definição.

“Nunca ele vai fazer isso. Primeiro, Bolsonaro tem que demarcar as terras indígenas, tem que parar com esses projetos de lei e mineração em Terra Indígenas, desmatamento, tem que respeitar a população brasileira”, protestou Alessandra Munduruku, enquanto era bastante assediada pela imprensa internacional. “Ele colocou um delegado federal na Funai para perseguir indígenas, pessoas que estão defendendo vidas. Não queremos projeto de morte dentro do nosso território. Ele tem que parar de estar mentindo, ele tem que ser urgente e demarcar as terras indígenas.”

A delegação da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) entrou no pavilhão dedicado aos povos indígenas na COP26 entoando palavras de ordem como “Demarcação já, nenhum sangue indígena a menos”. Desde que assumiu a presidência, Jair Bolsonaro prometeu que sob seu governo nenhuma terra indígena seria demarcada. Mas, diante de seu isolamento perante os demais líderes mundiais, o presidente brasileiro decidiu gravar dois vídeos sinalizando, pelo menos no discurso, uma guinada favorável ao combate do desmatamento.

Líder indígena que ganhou a edição 2020 do prêmio Robert F. Kennedy de Direitos Humanos, Alessandra Munduruku enfatizou o descaso do governo brasileiro para com os povos originários e a agenda anti-indigena de Bolsonaro. “Se realmente estão preocupados com os povos indígenas, respeitem os povos indígenas e não criem projetos de lei que vão afetar o nosso povo, que vão afetar todos os povos”, disse, desmascarando o discurso do governo federal, literalmente, para inglês ver. 

Alessandra Korap (de camiseta vermelha) com parte da delegação do movimento indígena na COP26, em Glasgow (Foto: Samela Sateré Mawé (@sam_sateremawe/Apib/CopCollab26)

A ecologista e membro da Rede Amazônia Sustentável Erika Berenguer ressaltou, para a reportagem da Amazônia Real, como os povos indígenas são fundamentais na manutenção da floresta. “É o que diversos estudos mostram: como as áreas indígenas comparadas com as áreas vizinhas que não são terras indígenas demarcadas, como elas têm o desmatamento muito mais baixo do que a área vizinha”, lembrou.

A pesquisadora disse que vê com desconfiança o anúncio feito por Bolsonaro no primeiro dia da COP26. “[A revisão das metas de emissão de carbono] É uma coisa que a gente quer, enquanto comunidade científica, para desacelerar as mudanças climáticas e manter a floresta em pé. Mas por que sou cética? Desde que o Bolsonaro entrou no governo, estamos com o desmatamento acima de 10 mil quilômetros quadrados anualmente. Ou seja, estamos em dois dígitos, e essa mudança foi no governo dele”, resumiu, traduzindo um sentimento de cientistas, ambientalistas e ativistas. 

Pressão de Biden

No último dia de reuniões com os chefes de governo da COP26 presentes na Escócia, foram assinados dois acordos históricos: o da redução de metano e outro que acaba e reverte o desmatamento florestal – cujas implicações são totais no Brasil. Diante da fragilidade em cumprir as metas acordadas em Paris, em 2015, para a redução de carbono, a solução pragmática foi a de reduzir 30% as emissões de metano. Embora este gás seja 80 vezes mais poluente do que o dióxido de carbono (CO2), o metano fica menos tempo no ar, em torno de 11 anos, ao contrário do considerado vilão do efeito estufa, o CO2, que só se dissipa totalmente em mil anos. 

Como o metano representa hoje metade das emissões de gases estufa no planeta, os líderes mundiais decidiram não esperar 2050 chegar e entenderam que é possível frear o aquecimento global a partir desse novo acordo.

Em conversa com a Amazônia Real, a ecologista Erika Berenguer analisou este novo rearranjo global: “Acho bom o acordo de hoje, não é ambicioso o suficiente em termos de mundo, mas é bom que essa causa veio à tona em relação ao Brasil. O Seeg (Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa)  mostra que 20% das emissões brasileiras são por conta da agricultura e a maior parte disso é por conta da pecuária”.

Biologicamente conhecida como “fermentação entérica”, portanto parte do processo digestivo do boi, a emissão de metano na atmosfera foi potencializada pelo crescente consumo de carne bovina. O Brasil é o quinto maior emissor de metano no Planeta por causa de sua extensiva produção agropecuária – 61% das emissões brasileiras derivam da pecuária, que avança a passos largos Amazônia adentro.

Até antes da COP26, sempre que esse tema de redução da emissão de metano era pautado, as possíveis ações aventadas pelo Brasil se limitavam a expandir a eletrificação do transporte público. Além da flatulência dos bois, o metano que eleva a temperatura na Terra tem origem em atividades humanas, como a produção de óleo e gás e os resíduos de aterros sanitários, outras duas questões sensíveis à economia. Como a indústria frigorífica brasileira vai reagir a esse acordo ainda é uma incógnita, ainda que os principais conglomerados do setor, como a JBS e a Marfrig, tenham sinalizado políticas de redução de carbono. A estimativa é a de que 80% das áreas já desmatadas na Amazônia são ocupadas por pasto.

De acordo com o Seeg, as emissões da agropecuária brasileira cresceram 2,5% no ano passado, contribuindo para que o metano na atmosfera atingisse níveis recordes – mais que o dobro do que na era pré-industrial. Diante desse acordo, que foi capitaneado pelo presidente norte-americano, Joe Biden, e líderes da União Europeia, o anfitrião da COP26 e primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, afirmou que este é um “primeiro passo”, embora ainda haja um longo caminho para que essa nova meta seja cumprida. Em suas palavras, ele está “cautelosamente otimista“.

Enquanto o presidente Bolsonaro continuou ausente das discussões na Conferência de Clima na ONU, Biden afirmou nesta terça-feira que o acordo sobre o metano “muda o jogo”: “Isso vai fazer uma grande diferença. E não apenas quando se trata de combater as mudanças climáticas, mas vai melhorar a saúde, reduzir a asma e emergências respiratórias, e também melhorar o suprimento de alimentos, reduzindo a perda de safras e a poluição no nível do solo”.

Floresta viva

Em um dia em que empresários bilionários também discursam na Escócia, como Jeff Bezos, dono da Amazon, e Bill Gates, ex-Microsoft, outro acordo deixado pelos líderes mundiais na COP26 foi o de cortar o desmatamento e ampliar o reflorestamento. Este segundo acordo também recebeu a assinatura de mais de cem líderes, que representam 85% das florestas do mundo, incluindo o Brasil.

Este segundo acordo é vantajoso para o Brasil, já que para o País pode representar volumosos recursos para manter a floresta amazônica viva. No total, foi firmado um compromisso de 19 bilhões de dólares para proteger e restaurar as floresta – 12 bilhões de dólares de governos e 7 bilhões de dólares em investimentos privados. Só Bezos, que se diverte viajando ao espaço com sua própria aeronave, doou 2 bilhões de dólares para o cumprimento deste acordo.

Alessandra Munduruku afirma que para o Brasil atingir essas ambições o País tem que parar com os projetos de lei e mineração em terra indígena e o desmatamento. “O marco temporal, que está no Supremo (Tribunal Federal), não tem que olhar só para o agronegócio. São os povos indígenas que vão sofrer. Nós somos o meio ambiente, a floresta e o rio”, disse.

marco temporal é uma ação que tramita no STF e impõe que os povos indígenas só podem reivindicar terras se eles estavam até 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição Federal. Além de se opor à tese ruralista do marco temporal, os Munduruku lutam contra a invasão dos territórios indígenas, especialmente aquela praticado por madeireiros, garimpeiros e grandes empreendimentos no Rio Tapajós.

Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas, falou sobre a estimativa de árvores derrubadas no Brasil, que chegou a 500 milhões de árvores na Amazônia neste ano. Isso equivale a 23 árvores por segundo. “Essa discussão é fundamental. O Brasil ontem (1/11) reafirmou o compromisso de neutralizar as emissões até 2050 e fazer uma redução bem expressiva até 2030”, lembrou, reforçando a cobrança de que as mudanças climáticas na Terra têm sido causadas também pelo desmatamento, tanto na Amazônia quanto no cerrado.

Por: Alicia Lobato
Fonte: Amazônia Real