COP26: governo Bolsonaro condiciona menos desmatamento a mais dinheiro

COP26: governo Bolsonaro condiciona menos desmatamento a mais dinheiro
Chegada do ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, à COP26 deixa claro interesse brasileiro em aumentar os recursos financeiros para combater o aquecimento globalNa imagem acima, com a delegação dos Estados Unidos com o Enviado Presidencial Especial para o Clima, John Kerry (Foto: MMA)

A chegada do ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, à COP26, em Glasgow, na Escócia, nesta terça-feira (9), marcou o tom da posição brasileira diante da comunidade internacional: para preservar as florestas e adotar outras medidas de combate ao aquecimento global, o governo Bolsonaro quer mais dinheiro. Até mesmo a proposta pactuada em 2009, na qual países ricos ajudariam nações em desenvolvimento com 100 bilhões de dólares, é insuficiente. Segundo Leite, o desafio é chegar a uma neutralidade de carbono “de forma rápida, mas responsável”.

“O que significa isto? Que nós precisaremos de mais recursos do que os 100 bilhões de dólares anuais”, disse o ministro ao participar de um evento do pavilhão brasileiro na COP26. Leite citou ainda, segundo a Agência Brasil, um estudo do Boston Consulting Group (BCG) indicando que o planeta precisará de investimentos da ordem de 5 trilhões de dólares anuais para fazer com que todos os países adotem um modelo de economia de baixa emissão de gases de efeito estufa.

Mas fontes ouvidas pela Amazônia Real, presentes desde a semana passada na COP26, estão descrentes de que o governo brasileiro esteja convicto nessa mudança de orientação em prol de uma economia mais verde, com ou sem investimentos vultosos. 

“Dá um pouco de desespero, porque a gente não sabe o quanto do que foi falado aqui de fato vai se concretizar em ações”, declarou Ane Alencar, diretora de Ciência do Instituto de Proteção da Amazônia (Ipam). Ela alerta que Estados e municípios, empresas, produtores rurais e a própria sociedade civil têm um papel a cumprir para derrubar o desmatamento no Brasil. “Mas acho que sem o comprometimento do governo federal, principalmente, vai ser muito difícil.”

Ane Alencar e Paulo Artaxo durante conferência em Glasgow (Foto: Ipam)

Dados do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostraram que a Amazônia Legal tem uma área de 796 quilômetros quadrados sob alerta de desmatamento, números contabilizados até 29 de outubro. É o mesmo patamar do último ano, o primeiro da gestão de Jair Bolsonaro. O município de Altamira, no estado do Pará, é o que acumula recordes de desmatamento, segundo a plataforma de monitoramento Prodes, também do Inpe. 

Segundo Ane Alencar, esses dados indicam que o país está longe de conseguir reduzir o desmatamento e que na conferência, se discutiu muitas soluções futuras, mas não se falou sobre o hoje. Na semana passada, ainda sem a presença de Joaquim Leite em Glasgow e a notada ausência de Jair Bolsonaro, que apenas enviou um vídeo oficial para o evento, o governo anunciou que as etapas para cumprir o objetivo de zerar o desmatamento ilegal até 2028 são de diminuição de 15% anual até 2024 a  redução de 50% em 2027.

Dois Brasis na COP26

Helder Barbalho no Brazil Climate Actions Hub (Foto: Agência Pará)

Duas agendas brasileiras distintas, senão antagônicas, se encontram na COP26. Uma é capitaneada pelo governo, mas tendo ao seu lado a Confederação Nacional da Agricultura e a Confederação Nacional da Indústria (CNI). É lá que batem ponto políticos e empresários, como o presidente do Congresso, Rodrigo Pacheco, e o presidente da CNI, Robson Braga de Andrade. 

Já em outro espaço, o Brazil HUB, bancado pelo IpamInstituto Clima e Sociedade e ClimaInfo, movimentos da sociedade civil, composto por indígenas, quilombolas, cientistas, ambientalistas e ativistas, contrapõem o discurso governista, meramente centrado no pagamento aos produtores pelos serviços florestais.

Em um painel sobre o futuro da Amazônia, “Conciliando produção agropecuária e conservação sustentável”, o governador do Pará, Helder Barbalho, enfatizou que o estado tem o quarto maior rebanho de bovinos Brasil, mas não falou abertamente sobre os dados do desmatamento que continuam avançando em seu território. Governadores da região Norte foram até a conferência buscar financiamentos para inibir a ação de desmatamento. Na maioria das vezes, utilizam do discurso de faltas de verbas para fiscalização e monitoramento dessas áreas, mas omitem a discussão principal: quem está desmatando a Amazônia? 

No sábado (6), o consórcio Amazônia Legal, representado também pelo governador do Pará, assinou um memorando junto do Emergent Forest Finance Accelerator, que contou com a presença de Espen Barth Eide, ministro do Clima e Meio Ambiente da Noruega, e Fiona Clouder, embaixadora da COP26 para a América Latina. Esse acordo prevê que caso a região Norte consigam manter o desmatamento na Amazônia em um número baixo, esses estados obterão recursos financeiros.

O governador do estado do Pará, estado campeão em desmatamento na região Norte, afirmou que a reunião em si já era vitoriosa “por colocar em uma mesma mesa governos subnacionais que representam a sociedade brasileira, Congresso, parlamentares, a iniciativa privada, o interesse internacional no campo de suas instituições e federações e, claro, a articulação das organizações não-governamentais, e sem esquecer a presença dos povos da Amazônia”, pontuou.

Barbalho tem sido criticado por ter assinado decreto publicado no Diário Oficial estadual que instituiu o “Dia do Garimpeiro”, uma das atividades que avançam na destruição da floresta.

Péssima imagem mundial

Protestos contra Bolsonaro em Glasgow (Foto: @oliverninja/#CopCollab26)

Para Ane Alencar, essas alianças formadas, que são diversas e grandes, podem ser um indicativo de solução, mas isso não ocorrerá sem um engajamento do governo federal. Mesmo que o Brasil, fragmentado e sem um discurso unificado, consiga se incluir nos acordos firmados essa semana, o país continua com uma péssima imagem nesta COP26. 

O presidente Bolsonaro, um dos líderes mundiais que se ausentou do evento, usou do seu espaço nas redes sociais para atacar a jovem indígena Txai Suruí que participou do discurso de abertura da COP26. O presidente ganhou o prêmio Fóssil da semana, dado por ativistas ambientais por sua maneira de agir contra os povos indígenas. Esse prêmio é tradição, e é a sexta vez que o Brasil leva o “troféu” nos últimos anos,  sendo ele dedicado ao país que tem a pior política ambiental.

Na semana passada, os principais países presentes na COP26 celebraram o acordo para redução das emissões de metano e do uso do carvão, e acertaram financiamentos voltados para o combate do desmatamento. Para o acordo que visa reverter a degradação florestal até 2030,  124 países aceitaram financiar quase 12 bilhões de dólares. 

Para Alice Thuault, cientista política e diretora da organização Instituto Centro de Vida (ICV), esses acordos são importantes, mas precisa ter garantias que servirão para construir essas políticas públicas, para só assim se controlar o desmatamento. “É uma COP importante porque a emergência climática nunca foi tão palatável. No Mato Grosso, perdemos um terço do pantanal. Vivemos a receita de adaptação muito na pele, com o calor, a queimada, a questão de saúde. É interessante ver como o empoderamento das populações indígenas na COP traz transformações.”

Ane Alencar, diretora do Ipam, adverte esses recursos ainda tem um longo caminho até chegar de fato ao destino. “Se a gente somente zerar o desmatamento, vamos estar reduzindo muito das emissões brasileiras. Isso significa investir em comando e controle, incentivar as boas práticas e é economicamente viável porque temos uma área aberta muito grande no Brasil”, lembrou. 

O problema é que o País ainda padece de uma vontade política. A diretora do Ipam alertou que parte da destruição florestal em curso no Brasil vem da grilagem e ela  está a reboque de outros grandes agentes atuantes na Amazônia. “Se pegar com inteligência esses peixes grandes, a chance de outros que estão aproveitando essa onda pararem é maior. É importante vir um claro sinal do governo federal e dizer que não vamos tolerar mais grilagem”, finalizou.

Por: Alicia Lobato
Fonte: Amazônia Real