Covid mata 18 padres na Amazônia e aprofunda desafio do catolicismo na região

Vaticano reflete sobre ordenamento de indígenas e homens casados para amenizar déficit de sacerdotes em áreas isoladas

Papa Francisco convocou o Sínodo da Amazônia em 2019 e recebeu, no Vaticano, representantes de comunidades indígenas do Brasil – Tiziana Fabi / AFP

Dos 69 padres católicos que faleceram no Brasil em decorrência do coronavírus, 18 atuavam na Amazônia. A região, marcada por baixa presença clerical e por avanço das igrejas neopentecostais, lidera proporcionalmente a lista de óbitos de sacerdotes no país.

“Aqui na Arquidiocese, um padre atende mais de 80 comunidades. Então, você pode imaginar o significado dessa perda”, relata Dom Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus (AM).

“Faz uma falta muito grande, porque reduz nossa presença. As comunidades na região da Amazônia são muito numerosas e, ao mesmo tempo, muito distantes uma da outra. Tem comunidades que só é possível visitar no tempo da cheia. E é claro que a presença do padre é muito importante”, definiu o clérigo.

O Brasil de Fato entrou em contato com as seis maiores igrejas cristãs em atividade no país para uma matéria sobre padres, pastores e bispos infectados ou mortos por covid-19. Só houve resposta da Igreja Católica, até o momento. A reportagem aguarda retorno da Assembleia de Deus, da Universal do Reino de Deus, da Convenção Batista Brasileira, da Congregação Cristã e da Igreja Quadrangular.

Cinco infectados a cada diocese

O último balanço mensal da Comissão Nacional de Presbíteros (CNP) sobre óbitos e infecções de sacerdotes católicos por covid-19 foi divulgado em 26 de fevereiro de 2021. Em março, as planilhas não foram atualizadas, justamente porque o responsável pela sistematização dos dados se contaminou e precisou ser afastado do trabalho.

Conforme a lista mais recente, 131 padres foram infectados na soma das regionais Norte 1, que engloba Amazonas e Roraima, e Norte 2, onde estão Pará e Amapá. No país todo, foram 1.455 casos positivos em 278 dioceses.

Cinco mortes foram registradas na diocese de Manaus (AM), quatro na de Belém (PA), duas na de Marajó (PA) e duas na de Castanhal (PA). As dioceses de Abaetetuba (PA), Marabá (PA), Macapá (AP) e Óbidos (PA) registraram um óbito cada.

O balanço de fevereiro apontava 65 sacerdotes falecidos em todo o Brasil em decorrência da covid-19 desde o início da pandemia. Em conversa com a reportagem, o padre José Adelson da Silva Rodrigues, presidente da CNP, confirmou que houve mais quatro mortes desde então – uma delas na região amazônica.

Em todo o país, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) contabiliza sete bispos mortos pelo coronavírus, quatro deles nos últimos 40 dias. A organização não possui registros do número de infectados.

Por que tantas mortes na Amazônia

O presidente da CNP afirma que a região amazônica exige dos padres uma doação acima da média. “Como estamos em número reduzido, os bispos querem que os padres estejam mais próximos do povo, dos leigos”, conta.

“Na capital, embora uma parte atue nas favelas, muitos ficam na área urbana mais abastecida, digamos assim, com mais possibilidade de não ser contaminados. Porque as missas são online, não tem atendimento direto, e o risco é menor”, afirma o padre José Adelson.

O contato com populações vulneráveis ajudaria a explicar o alto número de infecções e óbitos na região.

“Tem que estar no meio de todos, não pode sair. Tem que dar atenção aos mais necessitados, aos que estão passando fome, e então os padres terminam se contaminando, sentindo a dor do povo. Para a gente, é um desafio”, completa Rodrigues.

Na Arquidiocese de Manaus morreram cinco – um em 2020 e quatro em 2021. “A primeira onda coincidiu com as viroses que costumam acontecer aqui. Muitos pensaram que fosse uma virose qualquer. As pessoas só procuravam hospitais quando a respiração já estava difícil, e isso levou as UTIs ao colapso”, recorda o arcebispo Dom Leonardo Steiner. 

O religioso acrescenta que as distâncias entre as comunidades na Amazônia são incomparáveis às de outras regiões do país, o que dificulta o atendimento aos infectados.

A capital do Amazonas registrou 7,8 mil mortes em decorrência do coronavírus entre janeiro e fevereiro de 2021. “Na segunda onda, houve um descuido muito grande, que se somou à falta de oxigênio nos hospitais, em um contexto em que a nova cepa [do coronavírus] já estava circulando por aqui”, interpreta.

Desafios

Antes que o governo local decretasse qualquer política de isolamento, a Arquidiocese de Manaus já havia suspendido a catequese, as missas e as reuniões do clero.

Os ritos litúrgicos presenciais voltaram a ocorrer no segundo semestre de 2020, foram novamente suspensos no início deste ano, e retomados na semana anterior à Páscoa com uma série de precauções.

Nas missas em locais fechados, foi instituído o limite de 30% da capacidade, com higienização das mãos, distanciamento mínimo de 1,5 metro entre os fiéis e uso obrigatório de máscaras.

“Da nossa parte não houve nenhum descuido. Não realizamos nenhuma das grandes procissões aqui em Manaus, por dois anos consecutivos. E fomos abrindo na medida que vimos que era possível, com grande colaboração dos fiéis”, afirma Dom Leonardo Steiner.

Substituir os padres que faleceram em decorrência da covid-19 não é tarefa fácil. “A gente não pode obrigar ninguém a ir”, ressalta Rodrigues, presidente da CNP. “Tem que ser por meio do convencimento, ver quem se identifica, quem realmente pode ir. Tem toda uma preparação. Alguns querem, mas são impedidos por motivos de saúde. É uma região muito delicada, de muito trabalho, muito corrido.”

Déficit de padres é anterior à pandemia

O aumento da presença evangélica, especialmente de igrejas neopentecostais, na região amplifica o desafio da Igreja Católica.

Dos quatro estados com crescimento mais acelerado de evangélicos entre 1991 e 2010, três ficam na Amazônia – Acre (62,9%), Roraima (61,6%) e Amazonas (52,4%).

Dados de 2018 do Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais da CNBB apontam que há 27,3 mil padres no Brasil, um para cada 7.802 habitantes. Não há informações atualizadas sobre a proporção em cada região.

O diagnóstico de que faltam padres no Norte do país, porém, não é segredo. Esse foi um dos assuntos que motivou, por exemplo, o Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica, realizado no Vaticano entre 7 e 29 de outubro de 2019.

A ideia, segundo o papa Francisco, era “identificar novos caminhos para a evangelização do povo de Deus naquela região.”

Papa em visita à Porto Maldonado, na Amazônia peruana. Encíclica escrita por ele no início do pontificado pedia defesa da floresta / Foto: Vicenzo Pinto/AFP

Entre os obstáculos admitidos pela Igreja está o difícil acesso a algumas comunidades, a variedade de idiomas e modos de vida, os interesses do agronegócio e da mineração e a quantidade insuficiente de sacerdotes.

Em cerca de 85% das comunidades onde há presença católica na Amazônia, não são realizadas missas semanais por falta de padres.

A proposta de ordenar homens casados para exercer o sacerdócio na região foi aprovada por 128 votos a 41 no Sínodo. O papa Francisco descartou essa possibilidade no 12 de fevereiro seguinte.

O líder máximo da Igreja Católica também se posicionou contra a ordenação de mulheres, embora tenha se mostrado aberto a refletir sobre a possibilidade de indígenas atuarem como padres.

“Aquilo que foi aprovado no Sínodo seria uma boa saída. O Santo Padre, naturalmente, teve a precaução de reservar para si essa questão que o Sínodo tinha determinado, sem incluir essa temática na carta que publicou [em fevereiro de 2020]”, avalia Steiner.

O arcebispo de Manaus, que conversou por telefone com o Papa Francisco em abril do ano passado, entende ser necessário refletir com cautela sobre essas mudanças, para o bem da Igreja e das comunidades.

“Para determinadas realidades, vejo como possibilidade. Mas não vejo como seria possível alguém casado ser ordenado e enviado a regiões remotas. Isso seria muito difícil para uma família, especialmente com filhos”, pondera.

Por outro lado, o religioso vê com bons olhos o ordenamento de indígenas. “Vejo como positivo, porque eles convivem nessa realidade, são dessa realidade, esse é o seu estilo de vida. Precisamos refletir, aprofundar e, se chegamos a essa conclusão, ordenar. Mas existe um caminho bastante longo de reflexão e meditação sobre essa questão”, finaliza.

Por: Daniel Giovanaz
Fonte: Brasil de Fato