Dados apontam para crise hídrica no Brasil, intensificada pelo desmatamento amazônico

Cobertura da floresta amazônica é diretamente responsável pela formação de chuvas em outras regiões do país

Abastecimento nas cidades é afetado por baixa formação de chuvas; fenômeno acontece em razão do desmatamento florestal da região amazônica – Divulgação/Sabesp

No dia 31 de março deste ano, o Sistema Cantareira, que abastece a Grande São Paulo, operou com 52,8% da sua capacidade. O registro representa 10% a menos de água do que foi registrado no dia 31 de março de 2013, período que configurou a pré-crise hídrica em São Paulo, intensificada no ano seguinte. Nesta sexta-feira (14), o sistema está operando com 49,3 % da capacidade.

Paralelamente, no entanto, o consumo residencial na região metropolitana de São Paulo, que corresponde à maior demanda por água, na frente da atividade industrial e agrícola, é menor do que o registrado em 2013. Naquele ano, foram 169 litros por pessoa e por dia. Hoje, são 126 litros por pessoa e por dia. 

Mas o que explica, então, o baixo nível nos reservatórios? Segundo especialistas, fator expressivo nesta conta é o desmatamento florestal da região amazônica, que influencia diretamente a formação de chuvas na região sudeste do país. 

Segundo Pedro Luiz Côrtes, professor do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE-USP) e coordenador da Rede Internacional de Estudos Sobre Meio Ambiente e Sustentabilidade (Rimas), a água das chuvas que caem sobre a cobertura florestal volta à atmosfera por meio da transpiração das árvores, conhecida como evapotranspiração, repondo a umidade do ar. Na região da amazônica, há uma zona de convergência de ventos que trazem essa umidade para a região sudeste, onde se precipita na forma de chuva.

“Nós estamos realmente em uma situação climática muito desfavorável que foi potencializada, no caso da Cantareira, por esse desmatamento da Amazônia que vem se acumulando ao longo dos últimos anos”, afirma Côrtes.

Recordes em desmatamento

Em abril deste ano, o desmatamento da Amazônia bateu mais um recorde pelo segundo mês consecutivo. Dados do Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), mostram que foram registrados 580 quilômetros quadrados de destruição. Em março, foram 367 quilômetros quadrados.

O número também representa um aumento de 43% em relação ao mesmo mês de 2020, quando foram contabilizados 406 quilômetros quadrados destruídos. O mês deste ano também foi o pior abril desde o início da série histórica, que começou em 2015.

 “Uma coisa importante é que as mudanças climáticas decorrentes do desmatamento na Amazônia não são uma aposta para o futuro, algo que um dia pode acontecer. Nós já estamos sofrendo as consequências desse desmatamento exatamente por conta da redução do volume de chuvas que acabam afetando importantes reservatórios”, reafirma Côrtes.

Déficit de chuvas

O professor explica que, ao longo dos últimos 10 anos, o desmatamento vem gerando um déficit de chuvas não só no Sistema Cantareira, mas em outros reservatórios de grandes usinas hidrelétricas, como Furnas, Emborcação, Serra da Mesa e Nova Ponte. Com isso, trata-se da possibilidade de escassez de água, bem como de energia elétrica.

“Quando as hidrelétricas perdem reserva de água, tem de reduzir a sua contribuição para rede, o mesmo fica impossibilitado de gerar energia elétrica. Nós, então, temos de usar as termelétricas, que, além das emissões de gases de efeito estufa e poluentes, têm uma operação mais cara. Isso faz com que a gente pague mais caro pela energia, fato esse é que nós estamos sob a bandeira vermelha, que é a energia mais cara.”

Para Côrtes, a situação tende a se agravar ao longo do ano e até mesmo durar até o verão do próximo ano, tendo em vista que os prognósticos climáticos não indicam para um volume de chuvas significativo. Até o momento, por exemplo, choveu somente 1% do esperado para maio, sendo que já transcorreu pouco mais de um terço do mês. Em abril, choveu apenas 10% do esperado.

Segundo o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, os registros de chuvas atuais são os piores desde 1931. “Eu já adianto, vai exigir bastante atenção por parte de todos os agentes públicos”, afirmou o ministro durante audiência da Comissão de Minas e Energia (CME) da Câmara dos Deputados. Conforme dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), os reservatórios de hidrelétricas são responsáveis por cerca de 61% da energia elétrica consumida no país.

Fenômenos naturais

Além do desmatamento, dois outros fatores implicam nesta conta: os fenômenos naturais El Niño e El Niña. Na explicação do professor Pedro Luís Côrtes, ambos são responsáveis por levar a umidade do Oceano Pacífico para o interior da Amazônia. “Quando nós temos o El Niño, nós temos chuvas mais abundantes na região sul e seca no nordeste e norte do Brasil. Quando nós temos o El Niña, nós temos o oposto.” 

Ocorre que esses fenômenos não são desconhecidos, mas com os quais os “meteorologistas estão plenamente habituados”, “não é uma descoberta recente”. Não explicam, portanto, por si só, os níveis extremamente baixos de chuvas.

Segundo Côrtes, esse sistema de abastecimento que é altamente dependente de questões climáticas está se mostrando cada vez em uma situação limítrofe. Uma mudança estrutural, nesse sentido, aponta não só para uma mudança no sistema de abastecimento, mas também para políticas de preservação ambiental. 

Mas a realidade mostra que o governo brasileiro vem atuando na mão contrária. Somente neste ano, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) perdeu 4% em corte de verba. No caso do Instituto Chico Mendes (ICMBio), a redução foi ainda mais drástica, cerca de 12%. Ambos são órgãos responsáveis pelo trabalho de preservação ambiental no país.

Por: Caroline Oliveira
Fonte: Brasil de Fato