De onda em onda, Brasil se afoga na pandemia

Uma das maiores especialistas em políticas públicas de saúde no País, a médica sanitarista amazonense, Adele Schwartz Benzaken, conversou com o Instituto Socioambiental (ISA) sobre o atual momento da pandemia de Covid-19 no Amazonas e a iminência de uma terceira onda começando novamente por Manaus

Atual diretora médica do Programa Mundial da Aids Healthcare Foundation, organização que atua em 45 países no combate ao HIV/Aids, a médica sanitarista Adele Schwartz Benzaken está de volta a Manaus, sua terra natal. Após morar em Brasília, onde por cinco anos ocupou o cargo de diretora do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle de ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis), HIV e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, Benzaken foi exonerada do cargo pelo presidente Bolsonaro, de quem escutou que “uma pessoa com HIV é uma despesa para todos no Brasil”.

Dra. Adele Benzaken em sua despedida do Ministério da Saúde, de onde foi exonerada pelo governo Bolsonaro em 2019|Arquivo pessoal

Epicentro das ondas da pandemia de Covid-19, Manaus tornou-se “um laboratório a céu aberto para a observação de como o vírus se comporta livremente”, como disse o epidemiologista Jesem Orellana, da Fiocruz Amazônia, em entrevista ao ISA. No último dia 6 de maio, Orellana soltou um alerta epidemiológico sobre o aumento de casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) na capital amazonense. “O governador Wilson Lima e Bolsonaro apostaram na narrativa da imunidade de rebanho, deixando o vírus correr livremente. Estamos testando na verdade é a capacidade do vírus de causar desgraça e tragédia”, criticou.

Esse aumento – verificado pelo sistema InfoGripe da Fiocruz – serve de alerta para uma terceira onda da pandemia ou do crescimento da própria segunda onda, que nunca chegou a ir embora. No Amazonas, segundo a Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM), por meio do Boletim Diário de Covid-19 do dia 13 de maio, foram registrados 666 novos casos e a capital tem 390 pessoas internadas com Covid-19, das quais 197 em UTIs.

Esses números mostram que o vírus não está controlado e segue fazendo vítimas em um estado que possui 47% da população vivendo abaixo da linha de pobreza, segundo o IBGE. Com uma triste tendência à naturalização das mortes e a inércia das autoridades que deveriam agir no controle da pandemia, o Amazonas para muitos pensadores é na verdade um laboratório da necropolítica, conceito do filósofo camaronês Achille Mbembe, que faz referência ao uso do poder social e político para decretar como algumas pessoas podem viver e como outras devem morrer na distribuição desigual dos recursos e oportunidades no modelo político econômico atual.

Usina de oxigênio doada pela sociedade civil organizada aos indígenas de São Gabriel da Cachoeira|Wizer Almeida-ISA)

Ritmo de tartaruga

Mais de 12 meses se passaram desde que Manaus sofreu com a primeira onda da pandemia e os 61 municípios do interior continuam sem ter leitos de UTI e com a vacinação bem aquém do necessário. As aulas presenciais do ensino público vão retornar no interior em 19 de maio, como anunciou em 14 de maio o governador Wilson Lima, mas a vacinação dos professores segue em ritmo lento, assim como de toda a população. Segundo o Consórcio de veículos de imprensa a partir de dados das secretarias estaduais de Saúde, o Amazonas tem apenas 8,81% da população do estado imunizada com as duas doses da vacina e 15,27% com a primeira dose.

Apenas nesta sexta-feira (14/05), o Programa Nacional de Imunização (PNI) conseguiu enviar o seu maior lote de vacinas para o Estado do Amazonas. Esse 21º lote inclui 262.500 vacinas da AstraZeneca; e outras 30.400 da CoronaVac, totalizando 292.900 doses. Com a remessa, o Amazonas soma 2.007.300 doses recebidas desde o início da campanha de imunização. Antes desta, a maior quantidade de vacinas já recebidas pelo Amazonas havia sido no dia 18 de janeiro, quando o Ministério da Saúde enviou o primeiro lote para o início da campanha de imunização, com 282.320 doses.

Indígenas distribuem máscaras nas aldeias no Rio Negro|Raquel Uendi-ISA

Vacinação precisa ser acelerada

Na conversa a seguir, Dra. Adele Benzaken, formada em Medicina pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) em 1978 e com doutorado em Saúde Pública pela Fiocruz, fala sobre a falta de gestão da pandemia no Brasil, sobre as preocupantes sequelas da Covid-19 na população e desta possível terceira onda, que pode vir a ser ainda mais trágica caso surjam variantes e a vacinação não avance a tempo de conter novos surtos da doença.

ISA – Como a sra. analisa o risco de haver uma terceira onda (ou seria o recrudescimento da segunda onda que não terminou) no Amazonas nos próximos meses?

Dra.Adele Benzaken – O que temos observado, tanto na primeira, como na segunda onda, é que aparentemente ocorre uma onda na Europa e depois, o primeiro estado brasileiro a ser atingido é o Amazonas. Não sabemos porque isso ocorre no Amazonas, já que epidemiologicamente não existe uma explicação. Aparentemente, nós não aprendemos a lição depois da primeira onda. O Amazonas, que sofreu tanto no ano passado em março e abril, ficou depois durante sete meses com um número de casos baixo. Entretanto, a segunda onda veio no final de dezembro de 2020 e em janeiro deste ano, explodiu com total colapso do sistema de saúde, com falta de oxigênio etc., como todos vimos pela mídia.

Dizer se vai ter ou não uma terceira onda depende de diversos fatores. Acho que o principal agora é a velocidade da vacinação. Se houver uma maior, provavelmente não teremos uma terceira onda tão expressiva. Os dados têm mostrado que houve uma redução nos óbitos de pessoas idosas e também de enfermeiros e técnicos de enfermagem devido à vacina. Obviamente se nós tivermos a ampliação do maior número de pessoas vacinadas, teremos então uma terceira onda um pouco mais suave do que foi a segunda onda. De qualquer forma depende também do nível de transmissibilidade em que isso vai se dar. O que acabamos de observar é que todas as vezes que temos uma taxa muito alta de transmissibilidade você tem então um aparecimento das variantes. Assim foi com África do Sul, Inglaterra, depois veio aqui mesmo no Amazonas e depois também na Índia. Entretanto, as mutações provocam algumas diferenças nas evoluções. Normalmente elas têm uma alta transmissibilidade, também atingem mais faixas etárias. Pelo menos a P1 e a sua variante P1.2, que surgiu no Rio de Janeiro, atingem pessoas mais jovens, justamente o grupo que não está vacinado. Então, se nós tivermos uma alta transmissibilidade da P1 ou da P1.2, possivelmente então teremos pessoas jovens sendo infectadas com maior velocidade.

A terceira onda depende muito desses fatores, e também do comportamento das pessoas, do nível de aglomeração que irão fazer. Toda vez que tivemos algum tipo de festividade, como foi o caso do Natal, Ano Novo etc., houve então esse aumento. Eu diria até que as pessoas, na verdade, no final do ano passado estavam já cansadas da quarentena e acabaram saindo e com isso houve uma alta transmissibilidade sem, claro, terem sido vacinadas.

ISA – Quais os riscos das enchentes agravarem ainda mais o quadro da pandemia de Covid-19 no Estado do Amazonas, assim como de outros surtos de doenças, como dengue e malária? A sra. poderia descrever um pouco essa situação sanitária bastante delicada do estado do Amazonas hoje?

Dra. Adele Benzaken – O Amazonas vive hoje o período chuvoso. Nós temos tido um volume de chuva bastante elevado e com isso os rios sobem. Esse fenômeno acontece anualmente em nosso estado e é óbvio que quando ele passa demais do seu volume de água a cidade sofre algumas inundações. Existe muito lixo, coisas insalubres que acabam invadindo algumas casas de pessoas que moram em palafitas nos arredores de Manaus. É claro que isso tudo aumenta a transmissibilidade de algumas doenças, mas não tem interferência em relação à Covid-19. Não podemos esquecer que a Covid é uma doença de transmissão aérea. Se as enchentes provocarem uma maior aglomeração de pessoas, aí sim pode provocar algum tipo de intervenção. Mas fora isso não vejo nenhuma correlação entre a enchente e a epidemia de Covid-19. De qualquer forma, vale à pena registrar que o Amazonas está à beira de um estado de calamidade pública, inclusive a cidade de Manaus, por conta do aumento do nível dos rios e os alagamentos.

ISA – Quais seriam as medidas prioritárias e urgentes para se evitar uma terceira onda?

Dra. Adele Benzaken – Na minha opinião o principal ponto a frisar é a aceleração da vacinação. Todas as outras medidas hoje eu não vejo assim como uma questão primordial. Todos os lockdowns (confinamentos com protocolos de isolamento) feitos até hoje no país foram feitos meia boca. Ninguém cumpriu o lockdown realmente. Então, é chover no molhado ficar falando que vai fazer lockdown sem fazer de fato. Acho que é fundamental dar informações corretas e fazer campanhas com a população no que diz respeito a usar máscaras. As máscaras precisam muito ser utilizadas. E a questão do transporte público, que é um problema que persiste gravemente. As pessoas estão indo trabalhar e acabam se aglomerando dentro dos ônibus e se contaminando. De qualquer forma é preciso ter campanhas nas quais os governantes se dispam de toda essa politicagem que vem acontecendo e passem uma mensagem mais correta para a população. O vírus não está controlado. Nós precisamos controlar esse vírus e a única forma são as medidas de prevenção já amplamente sabidas, mas que precisam ser cumpridas. E os governos, sobretudo os municipais, devem resolver o problema dos ônibus super lotados e dos demais transportes públicos.

ISA – Assim como a segunda onda trouxe uma nova variante, a P1, é possível pensarmos no surgimento de novas variantes nesta terceira onda?

Dra. Adele Benzaken – As variantes, como falei acima, acontecem no ambiente de grande transmissibilidade. E o que é grande transmissibilidade? Quando muitos casos ocorrem ao mesmo tempo. Vimos que houve uma nova onda na Europa causada pela cepa da Inglaterra, já na África do Sul foi provocada pela cepa subsaariana, depois veio a indiana e assim por diante. Nós tivemos aqui em Manaus também um momento de alta transmissibilidade e consequentemente o aumento da variante P1 com agravamento dos casos. E obviamente podem surgir a qualquer momento novas variantes. A vacinação também evita o aparecimento de novas variantes. Por isso insisto na importância de aumentar a velocidade da vacinação.

ISA – Como a sra. observa a questão das sequelas deixadas pela Covid-19? Quais são as principais e como o governo deve agir para tratar dessas pessoas?

Dra. Adele Benzaken – As sequelas são tão variadas! Uma coisa que tem que ficar clara é que a Covid-19 é uma doença sistêmica. Ela chega através das vias aéreas, logo ela entra dentro do sistema circulatório e vai para todos os órgãos. Ao chegar nesses órgãos ela provoca um processo inflamatório de grande monta, dependendo da gravidade da infecção. Então, observamos que as sequelas são tão variáveis e ao mesmo tempo muito específicas para cada especialidade médica. Por exemplo, temos desde queda de cabelo até transtornos cerebrais. Temos problemas de fadiga e cansaço crônico enão retorno do olfato e do paladar. Portanto, precisamos mesmo de um atendimento especializado para o pós-Covid. Um tratamento especializado durante a doença, mas também no pós. Porque dependendo do tipo de sequela, a pessoa precisará de um tratamento bastante especializado.

Eu acho que aqui cabe alertar também para outras questões não Covid-19 neste momento delicado da pandemia. O que se observa é um verdadeiro desmonte dos programas relacionados a outras doenças. As pessoas estão deixando de ser atendidas e de receber uma assistência adequada em programas já tão bem estabelecidos no Brasil. Isso nos leva a um quadro bastante preocupante porque nós vamos ter mais óbitos que poderiam ser evitados neste período de pandemia.

Alguns exemplos posso dar, sobretudo, no que diz respeito à saúde sexual e reprodutiva, ao uso de contraceptivos, ao pré-Natal tão essencial para que a gente tenha pequenos brasileiros sadios. Todos os programas estão sendo desmontados. O programa de HIV-Aids vem sofrendo uma redução absurda na testagem e com isso as pessoas que seriam detectadas positivas não estão entrando em tratamento. Existe também uma perda das pessoas em tratamento, porque elas acabam não indo nas unidades de saúde, seja por medo da Covid-19, ou por própria negligência na questão do cuidado do HIV. Os serviços de saúde não estão fazendo busca ativa dessas pessoas. Então, vamos ter um contingente elevado de pessoas vivendo com HIV. As estimativas que são dadas pela Unaids (Programa das Nações Unidas para o controle do HIV/Aids) é que vamos ter mais de 200 mil mortes além do que normalmente o HIV já ocasiona anualmente no mundo. Vejo esse como um exemplo que pode ser levado a todos os outros programas do Ministério da Saúde.

ISA – Quais são os principais gargalos da saúde pública no Estado do Amazonas?

Dra. Adele Benzaken – Um exemplo que normalmente usamos é que o Amazonas só tem UTI na capital Manaus e nenhum outro dos 61 municípios tem esse suporte de UTI. Então, uma doença como a Covid-19 que precisa de um bom apoio de terapia intensiva, encontra no Amazonas um verdadeiro vácuo. Os pacientes do interior são removidos para a capital, mas mesmo assim o número de leitos não é suficiente para atender a demanda na pandemia. No auge da contaminação, as pessoas morreram em casa, morreram na fila esperando um leito e todo esse quadro macabro que vocês sabem que ocorreu aqui em Manaus, principalmente no início deste ano. O que precisa ser feito? A gente tem um Sistema Único de Saúde (SUS). Se não fosse o SUS, imagina o que teria acontecido! Observo que apesar de sua importância, esse sistema continua negligenciado. É preciso fortalecer o SUS urgentemente. Ao fortalecê-lo podemos ter um direcionamento mais concreto das medidas. Uma das coisas que não foi utilizada durante a pandemia, por exemplo, é a atenção básica e o programa de saúde da família. Esses profissionais de saúde da atenção básica poderiam ter ajudado muito na questão da prevenção, do isolamento dos casos, na questão de busca das ocorrências. É uma estrutura que precisava ter sido utilizada desde o início da pandemia, mas que continuou fora do enfrentamento. É preciso que se amplie a testagem. Só testando é que se consegue fazer esse tipo de bloqueio. Tudo isso para afirmar que é preciso reforçar o SUS, não só no Amazonas, mas em todos os estados brasileiros. Reforçar o SUS é primordial para enfrentar as próximas epidemias que virão com certeza.

ISA – Como a sra. observa a condução da crise sanitária no estado pelos governos federal e estadual?

Dra. Adele Benzaken – Acho bastante simples responder essa pergunta já que não houve nenhum tipo de condução da crise sanitária. As informações eram divergentes entre os governos estadual, federal e municipal. Cada um fez por si e todo esse processo resultou na tragédia que vimos. Então, não existiu e não existe ainda uma organização e um direcionamento que deveria ter ocorrido a partir do governo federal e que todos os estados e municípios cumprissem.

ISA – O Amazonas é o estado com o maior contingente de população indígena no País. Como a sra. observa os serviços de saúde prestados a essas comunidades na pandemia de Covid-19?

Dra. Adele Benzaken – As populações indígenas no Amazonas estão sofrendo terrivelmente com a pandemia. Estão desassistidas e com uma mortalidade bastante elevada. Nós estamos junto com alguns profissionais requerendo faz algum tempo, promover um bloqueio vacinal em algumas cidades do estado com grande número de indígenas. Vou dar o exemplo de São Gabriel da Cachoeira. Neste município, grande parte da população é indígena não aldeada. Daí, por serem indígenas não aldeados, a Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena) não os reconhece e não lhes presta assistência. Mas, o que ocorre em São Gabriel? Os parentes, outros indígenas aldeados, vão para a cidade para fazer compra, receber pagamento etc. e acabam ficando na casa desses indígenas não aldeados. E aí a transmissão se dá. E esse indígena aldeado leva a doença para a comunidade. Então, o que chamamos de bloqueio vacinal é vacinar toda a cidade de São Gabriel da Cachoeira independentemente de comorbidade e faixa etária. A cidade inteira deveria ser vacinada rapidamente e assim teríamos um bloqueio vacinal. Isso impediria a transmissão do vírus para as aldeias dos parentes das pessoas que vivem na cidade, no Alto Rio Negro. E assim em outras cidades no Amazonas, como Tabatinga. Moradores da cidade tem contato quase diário com a população indígena do entorno. Então, são locais onde facilmente existe a transmissão entre as pessoas que estão na cidade para as aldeias indígenas. Esse bloqueio é fundamental e esse tipo de atitude deveria ter sido logo tomada para que pudéssemos prestar realmente um serviço às populações indígenas do Estado do Amazonas.

ISA – Qual mensagem a sra. deixa hoje para a população brasileira que vem enfrentando diariamente a tragédia e o luto?

Dra. Adele BenzakenBom, vou procurar não me emocionar. A pandemia tem levado muitos profissionais de saúde, muitos amigos e familiares. Às vezes fico pensando como estou triste e abalada de tirar nomes de pessoas que faleceram de Covid-19 do meu WhatsAPP. Muitas delas poderiam não ter morrido. Acho que a vacina deveria ter chegado no Brasil com bastante antecedência. E cada vez que se fala de Covid-19 tem que se falar dos profissionais de saúde que estão na linha de frente. Isso já se tornou um jargão, mas não deveria ser. Essas pessoas estão cansadas, estão trabalhando em turnos extras porque perderam colegas de trabalho para a doença, porque têm menos gente trabalhando. E muitas vezes é preciso dobrar plantão para que os pacientes não fiquem sem assistência. Essas pessoas estão cansadíssimas. Eu reverencio os profissionais de saúde com muito respeito e gratidão por tudo que eles têm feito na linha de frente.

Por: Juliana Radler
Fonte: ISA