Desmatamento na Amazônia tem alta de 9,5% em um ano

Coletiva de imprensa. Foto: Reprodução/ Youtube

Entre agosto de 2019 e julho de 2020, a Amazônia perdeu 11.088 km² de florestas segundo a estimativa divulgada pelo Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (INPE). O número é a taxa mais alta desde 2008, e representa um aumento de 9,5% em comparação ao mesmo período do calendário anterior quando o desmatamento foi de 10.129 km².

Os dados foram divulgados na tarde desta segunda-feira (30) pelo Coordenador de Monitoramento da Amazônia, Claudio Almeida, com a presença do vice-presidente Hamilton Mourão, que preside o Conselho Nacional da Amazônia Legal e pelo ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes.

Na ocasião, Mourão ressaltou o trabalho do governo no combate ao desmatamento da Amazônia. “O resultado provisório do Prodes significa para nós temos que manter a impulsão do nosso trabalho na busca constante para a redução dos índices do desmatamento”, afirmou. No entanto, foi durante o governo de Jair Bolsonaro que o desmatamento ficou acima dos 10 mil km², o que não ocorria há dez anos.

O INPE utiliza o PRODES para estipular as taxas anuais de desmatamento e orientar a formulação de políticas públicas para a região. O índice apresentado é uma estimativa e será consolidado no primeiro semestre do ano que vem. Outro satélite do INPE, o Deter, que sinaliza desmatamento em tempo real indicava que o aumento do desmatamento na Amazônia poderia ter sido maior. Mourão comentou essa diferença dando créditos às ações do governo.

“Nós iniciamos tarde o trabalho de combate esse ano, começou efetivamente a partir do mês de maio e desde ali começamos a observar uma tendência decrescente. Havia uma expectativa e até uma estimativa de que o resultado atual que fosse ser divulgado nós daria um aumento em torno de 20% do que ocorreu ano passado. Foi um pouco menos da metade. Não estamos aqui para comemorar nada disso. Mas isso significa que os esforços que estão sendo empreendidos começam a render frutos”, afirmou.

O diretor da Amigos da Terra – Amazônia Brasileira, Mauro Armelin, comentou os dados. Para ele há uma conjuntura atual que explica o aumento da ilegalidade. “O desmatamento é como a aplicação em bolsa, tanto o desmatador quanto o investidor estão especulando com um ativo conforme a análise que fazem do contexto. No caso do desmatamento os motivadores são vários, mas os principais quesitos do contexto que é analisado é a chance de ser autuado e os sinais dados pelo governo, através dos exemplos dados por seu chefe maior, pelo seu ministro do meio ambiente e pela falta de ação do IBAMA, que reduziu drasticamente o número de autuações e multas aplicadas por desmatamento. Tudo isso acaba influenciando a abertura de novas áreas”.

Para o secretário-executivo do Observatório do Clima, Marcio Astrini, os dados apontam um projeto de governo que visa a aniquilação da capacidade do Estado Brasileiro e dos órgãos de fiscalização de cuidar das florestas e combater o crime na Amazônia. “Desde sempre, quando o desmatamento sobe, a gente fica se perguntando o que deu errado nas tentativas de controle do crime ambiental. Desta vez, a gente sabe que a alta aconteceu porque deu tudo certo para o governo”, diz.

Ainda segundo Armelin é preciso adotar medidas duras para que esse número não volte a se repetir nos próximos anos. “Esse ciclo vicioso acaba tendo vida própria e para parar com o processo de desmatamento serão necessárias medidas muito mais duras do governo do que se mantivesse um discurso de austeridade ambiental que preza pela responsabilidade de todos os setores da sociedade”, afirma.

O Brasil tem sido cobrado internacionalmente para reduzir os índices de queimadas e desmatamento da Amazônia, colocando em riscos acordos comerciais. “Em 2021 toda a sociedade será penalizada por essa política de tolerância com os crimes ambientais e, mesmo que parte do desmatamento seja legal, o setor agrícola e pecuário brasileiro sofrerão as consequências tendo que adotar medidas extras para se precaver do abastecimento com fontes em não conformidade com o Código Florestal, se justificar cada vez mais para seus clientes e, na pior das hipóteses, tendo seu mercado restrito devido a falta de uma política clara e sólida para o combate ao desmatamento da Amazônia”, resume Armelin.

Astrini também demonstrou preocupações com os impactos do aumento do desmatamento. Segundo ele “esse projeto de destruição tão bem executado custará caro ao Brasil. Estamos perdendo acordos comerciais, transformando nosso soft power literalmente em fumaça e aumentando nosso isolamento internacional num momento em que o mundo entra num realinhamento crítico em relação ao combate à crise do clima”.

Os dados mostram que o Brasil está 180% acima da meta da Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC), a lei nacional que preconizava uma redução da taxa a um máximo de 3.925 km2 em 2020. O que o põe o país numa posição de desvantagem para cumprir seu compromisso no Acordo de Paris (a NDC) a partir do início do ano que vem.

O governo tem utilizado as Forças Armadas como principal medida para conter o avanço do desmatamento na região. O presidente Jair Bolsonaro assinou um decreto prorrogando até 30 de abril de 2021 a continuação das ações de apoio contra crimes ambientais em faixas de fronteira, terras indígenas, unidades federais de conservação ambiental, em outras áreas federais.

Fonte: Amazônia.org.br

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