Dilma e Leila, vítimas da violência, são homenageadas no Pará

Dilma e Leila, vítimas da violência, são homenageadas no Pará
Leila Arruda (PT) era candidata a prefeita no município de Curralinho quando foi morta por femincídio pelo ex-marido Boaventura Dias, que está preso (Foto arquivo da família)

As trajetórias de vida de duas mulheres vítimas de violência foram lembradas pelos movimentos feminista e social no Pará. Uma delas é a da pedagoga e ex-candidata a prefeita no município de Curralinho, Leila Maria Santos de Arruda, de 49 anos de idade. No dia 19 de novembro de 2020, ela foi assassinada a facadas, em sua residência, pelo ex-marido Boaventura Dias, acusado de crime de feminicídio. A outra mulher vítima da violência é a então dirigente do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) Dilma Ferreira Silva, de 45 anos, morta a tiros em crime de homicídio, no dia 21 de março de 2019, no Assentamento Salvador Allende, em Baião, no nordeste do Pará; entre seus algozes está o fazendeiro Fernando Ferreira Rosa Filho, acusado de ser o mandante.

Os assassinatos de Leila Arruda e de Dilma Ferreira ganharam grande repercussão no conjunto de casos registrados no estado, um dos mais violentos crimes causados pela condição de gênero da vítima. Conforme o monitoramento “Um vírus e duas guerras”, realizado pela Amazônia Real e outras seis mídias independentes do Brasil, 65 mulheres foram vítimas de feminicídios em 2020 – um aumento de 44% em relação ao ano anterior, com 45 mortes. Neste mesmo período, o número de mulheres vítimas de homicídios caiu de 285 para 178 – uma queda de 60% no último ano.

Dilma Ferreira da Silva tinha 45 anos e deixou uma filha adulta (Foto: MAB)

A campanha nacional “Nem pense em me matar”, promovida pelo Levante Feminista contra o Feminicídio, no Brasil, conta com a participação direta de familiares e de companheiras de militância de Leila Arruda e de Dilma Ferreira, difundindo sua história de vida, celebrando sua memória, reivindicando por justiça, defendendo os direitos das mulheres e coletando assinaturas para o manifesto. As ações se dão principalmente por meio virtual e com atividades presenciais em pequeno número de pessoas, por conta da pandemia da Covid-19.

Leila nasceu em Curralinho, uma das 16 cidades do maior arquipélago fluviomarinho do planeta, o Marajó, localizado no extremo norte do Pará. Havia se mudado para a capital do Estado no intuito de oferecer melhores condições de estudo tanto para os filhos, hoje com 27 e 25 anos, quanto para si mesma. Ela chegou a contar sobre esse percurso em live com seu colega de partido, o deputado estadual Carlos Bordalo (PT), dia 09 de setembro de 2020, e uma delicada edição deste momento foi divulgada por integrantes do Movimento Filhas de Leila, durante a mobilização da campanha nacional. Entusiasmada, Leila relembra: “voltei a estudar depois de 20 anos que terminei o Ensino Médio. Consegui bolsa pelo ProUni, olha que maravilha! Fui cursar Pedagogia, porque a Educação sempre esteve em mim”.

Ela era ativa em causas coletivas e foi uma das fundadoras do Movimento de Mulheres Empreendedoras da Amazônia (Moema), junto com a irmã. “É uma associação que trata de mulheres em situação vulnerável, a mulher que sabe costurar, bordar, mas não tem como colocar no mercado seu trabalho e dali fazer renda própria. Meu trabalho, 14 anos com o Moema, mudou a vida de muitas mulheres”, explicou Leila na live.

De Curralinho e por telefone, um dos irmãos de Leila, Léo Arruda, de 52 anos, falou à agência Amazônia Real sobre a pertinência dessa atuação. “Nossa região é muito precária financeiramente, há muita dependência do marido. Há aqueles que colocam o alimento na mesa e também humilham. Mulheres com três, quatro filhos, ficam em casa, se submetem à violência, porque não têm para onde ir. Não é o caso da Leila. Ela sempre foi autônoma, trabalhou, montou coisas próprias. Com a associação de empreendedoras, elas reuniram um bocado de mulheres; no caso de algumas delas, era para ter um recurso a mais, no caso de outras, era a única alternativa”, narra.

A pedagoga e ex-candidata a prefeita no município de Curralinho, Leila Arruda
(Foto: arquivo da família)

No mesmo dia em que o patriarca e a matriarca da família se vacinaram contra o SARS-CoV-2, Léo fez questão de lembrar que João Damasceno Brito de Arruda, de 76 anos, e Helena dos Santos Arruda, de 78, foram inspiração para Leila, na medida de seu engajamento a movimentos sociais, partidários e religiosos. E todas as ocasiões, mesmo em férias, eram motivo para a irmã estar na cidade. “Ela tinha esse lado focado. Ia contribuir no município. Ela queria se mudar pra cá este ano até pelo sonho político dela”, argumenta.

O assassinato de Leila impôs dores e novas responsabilidades para a família Arruda. “Os dois filhos ficaram sem pai e sem mãe. Conseguimos alugar um apartamento para que morem juntos, trabalhem. Eles têm acompanhamento psicológico e psiquiátrico”, descreve Léo, reiterando que a acolhida dos amigos tem sido fundamental no Marajó e em Belém.

Dia 15 de fevereiro deste ano, ele participou da audiência de instrução e julgamento, na capital paraense, e espera que o ex-marido de Leila, Boaventura Dias, vá a júri popular. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2020 aponta que 89,9% das vítimas de feminicídio no país tiveram como algozes seu atual companheiro ou o ex-companheiro.

“Para nós, é muito importante que, depois do falecimento, tenham surgido movimentos como o Filhas de Leila e o Mulheres Livres. É um problema o feminicídio; é muito sério o que antes enxergávamos só como machismo”, avalia Léo, que já foi prefeito de Curralinho, pelo PT, de 2013 a 2016.

O crime fortaleceu a organização de mulheres em defesa da vida na região, e é o caso do Movimento Filhas de Leila, citado por Léo. Camila Castro, coordenadora do coletivo, explica que tem agregado adesões à campanha Nem Pense em Me Matar na região do Marajó. Mas o grupo se reuniu pela primeira vez durante a campanha eleitoral, em Curralinho. Eram 25 mulheres interessadas em sistematizar propostas de auxílio a ribeirinhas em diversas situações de vulnerabilidade social. O nome “Filhas de Leila” foi dado ao grupo após o assassinato de sua principal protagonista. 

Camila Castro avalia que as formas de violência contra mulheres no país são semelhantes, mas o acesso a serviços de amparo às vítimas é diferente. “Como uma região tão grande como a nossa [Marajó], com mais de 2.500 ilhas, tem apenas duas delegacias especializadas para a mulher? Não tem nenhuma vara especializada para violência contra a mulher”, exemplifica. Uma das ações mais recentes do movimento foi apresentar à Câmara Municipal dois projetos de lei, um para a criação da Secretaria de Políticas para Mulheres e outro para a criação do Conselho Municipal do Direito da Mulher.

Assassinada em conflito agrário 

Homenagem do MAB à Dilma Ferreira Silva em Brasília (Foto Thisabino/MAB)

A memória de Dilma Ferreira, atingida pela obra da usina hidrelétrica de Tucuruí e membro da coordenação do MAB no Pará, também segue viva entre os familiares e companheiros de jornada. No dia 22 de março, quando completou dois anos do assassinato, ela foi homenageada em vídeos, lives e em celebração religiosa na casa onde morava e onde foi assassinada.

Dilma foi morta no Assentamento Salvador Allende, no KM 50 da BR-422, conhecida como Transcametá, e junto a ela foram assassinados ainda o marido, Claudionor Costa da Silva, de 43 anos, e o vizinho do casal, Milton Lopes, de 38 anos. O fazendeiro Fernando Ferreira Rosa Filho continua preso. A Justiça tem negado seus pedidos de habeas corpus e liminares; a mais recente decisão é do dia 22 de março deste ano.

“O requinte de crueldade nos choca e revolta, mas também demonstra quão incômoda é a atuação de mulheres na luta pelos territórios nessa região. É uma tentativa de calar as vozes das que ousam levantar-se contra os grandes projetos, mas também das que ousam lutar contra esse sistema opressor, que quer, a todo custo, restringir o papel das mulheres aos cuidados domésticos”, disse Cleidiane Vieira, membro da coordenação do MAB no Pará e integrante da Frente Feminista do estado.

Há cautela na concessão de entrevista e na exposição de parentes. Não à toa. “Estamos acompanhando com muita preocupação as ameaças cotidianas que as lideranças vêm sofrendo, como, por exemplo, os casos de ameaças nas usinas Belo Monte (PA) e as usinas no Madeira (PA). Em grande maioria, as ameaças recaem sobre as mulheres que estão à frente da organização”, denuncia Cleidiane.

Irmã de Dilma, Francisca Ferreira Silva é solícita à reportagem da Amazônia Real com mensagem breve sobre a dor da perda. “Foram interrompidos os sonhos dela. O crime acabou com o sonho dela. Eu e minha família… a gente sente muita falta dela, a gente vive com aquele aperto, muita dor de ter perdido a Dilma”, desabafa. Francisca faz a abertura do vídeo de homenagem à Dilma.

Mas há firmeza de propósitos e isso os autores e mandantes dos crimes contra as mulheres não destroem. “Internamente, estamos nos articulando no coletivo de mulheres do MAB, buscando construir redes de proteção coletivas nas regiões, participando das redes de mulheres, com organizações e frente de mulheres. De forma institucional, realizando as denúncias aos órgãos competentes, para investigar, mas também buscando formas de proteger essas lideranças através de medidas protetivas”, garante Cleidiane.

A ativista do MAB destaca que “o feminicídio é o extremo, mas tem uma série de situações em que as mulheres enfrentam cotidianamente. No Pará e na Amazônia, em geral, verificamos que as mulheres sofrem com a ausência histórica de políticas públicas e que as formas com que o capital se organiza para explorar economicamente as riquezas da região acabam afetando as mulheres de maneira especial”.

Por: Erika Morhy
Fonte: Amazônia Real

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