É na Floresta que se aprende educação ambiental

Escola municipal localizada em Alter do Chão, em Santarém (PA), coloca meio ambiente e conservação no centro do projeto pedagógico

Esqueça a imagem de sala de aula padrão, com giz, quadro negro e paredes. Na Escola da Floresta, em Santarém, a paisagem exuberante faz parte da sala de aula. Encravada dentro da Área de Proteção Ambiental Alter do Chão, o centro de ensino não funciona como uma escola normal, mas como um espaço para receber turmas escolares em visitas guiadas e exposições complementares às matérias correntes que os estudantes estão tendo em sala de aula. 

Entrada da Escola da Floresta, localizada na rodovia PA 457, em Santarém-PA, mais especificamente na comunidade de Caranazal, dentro da APA Alter do Chão. Foto: Victor Sousa

É assim desde 2008, quando a escola foi criada, em terreno que antes pertencia ao Conselho Nacional das Populações Extrativista (CNS). No local, já funcionou projetos de proteção ao Peixe-boi e até um Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas), antes de ser descontinuado e a área ser cedida à Prefeitura de Santarém. 

“[A Escola da Floresta] atende alunos da rede municipal, estadual, federal, particulares, universitários, turistas e sociedade civil organizada”, explica Márcia Mota, professora e educadora ambiental que faz parte do quadro de educadores da Escola da Floresta, além de ser suplente da APA Alter do Chão. 

Saberes tradicionais

rcia Mota, professora e educadora ambiental. Foto: Victor Sousa.

Há 14 anos a unidade busca aliar a educação ambiental aos saberes tradicionais para a conservação do meio ambiente, tendo como base pedagógica os pilares do conceito de desenvolvimento sustentável. Inaugurada em 2 de junho de 2008, a instituição funciona dentro de uma mata nativa secundária que ocupa uma área de 33 hectares. 

“A educação ambiental não é mais e nem menos importante do que nenhuma outra, ela faz parte da formação integral do nosso aluno. Então o que nós ensinamos primeiramente é a adquirir novos hábitos, porque é muito difícil chegar com alguém e convencê-los a mudar tal coisa, é preciso dar a essa pessoa a oportunidade de adquirir novos hábitos, a sensibilização é o cunho educativo, para que cada um que nos visite seja um agente transformador, um educador ambiental mirim, adolescente ou adulto, pois nós pensamos que nunca é tarde para começar a fazer alguma coisa pelo meio ambiente, pois é um espaço que você está inserido, e se você começar a fazer essas pequenas ações, com certeza ela se tornará importante”, diz Márcia.

Além de falar sobre o meio ambiente, a escola também mostra a importância da cultura dos povos tradicionais, por meio da produção de farinha, alimento essencial para as populações amazônicas: “Os educadores explicam os processos da farinha, tecem os materiais com as palhas, ensinam a plantar; nesse ambiente onde está conservado transitam vários animais e ressaltamos a importância de preservá-los. As experiências que os alunos vivem aqui podem ser contadas, multiplicadas, e levadas para as suas comunidades”, conta.

Casa de Farinha, Jardins, Meliponário e trilhas compõem os cenários da Escola da Floresta.
Fotos: Victor Sousa

A integração entre as disciplinas

“A nossa proposta é mostrar para os professores que independente da sua disciplina, você pode trabalhar a educação ambiental. Aqui tem uma grande quantidade de vegetação, mas você pode trabalhar a educação ambiental em sua própria escola, os professores podem criar um canteiro onde possam trabalhar a matemática, medindo a distância entre as mudas de plantas, podem trabalhar a importância da água e seu ciclo em ciências, podem trabalhar a língua portuguesa, fazendo um relato do que vivenciaram, incluindo a educação ambiental nessas disciplinas”.

A equipe escolar também agrega educadores de diversos ramos, como biólogos, engenheiros florestais, pedagogos e educadores culturais. “Aqui trabalhamos uma educação interdisciplinar, e com os universitários é da mesma forma. Vem do que trabalha a genética ao que trabalha a biodiversidade. Vem do professor que trabalha com agronomia, ao que trabalha a licenciatura em pedagogia. Nossa equipe é multidisciplinar justamente para um dar suporte ao outro. Já veio professor de história, e o simples fato de você falar sobre a questão da comida, dos costumes e da tradição dos nossos ancestrais e o seu respeito com o meio ambiente você já está trabalhando a parte histórica. Outro exemplo é a educação física. Você pode utilizar nas aulas objetos reciclados e estimular nos alunos essa conscientização”, explica. 

“Os professores nos pedem ajuda para a questão dos hortas, nos pedem palestras, conversas com os professores, pedem para a gente ajudar a construir canteiros, plantar com as crianças, falar a respeito do processo do plantio, em um espaço onde só existem muros, por exemplo, nós pensamos e construímos estantes suspensas, levando ideias e ensinando, para que eles levem adiante”.

Praia de Alter do Chão Foto: Victor Sousa

Lago Verde Foto: Victor Sousa

As contribuições da Escola da Floresta com a APA Alter do Chão

Por estar inserida dentro da Área de Proteção Ambiental Alter do Chão, a escola busca sempre motivar os alunos e visitantes a conservarem o território, e ainda realiza importantes atividades nas comunidades ao redor: “O nosso intuito sempre é educativo, nós fazemos aqui e temos nossos projetos internos e externos que envolvem as comunidades, como o projeto de recuperação de igarapés, que fizemos em parceria com a escola Irmã Dorothy, onde o igarapé estava assoreando e através de uma pesquisa plantamos novas mudas que conseguimos com a SEMMA (Secretaria Municipal de Meio Ambiente) nas margens, para evitar que o problema se agravasse. Já fomos solicitados por outras comunidades para que fizéssemos uma ação educativa e de contenção para evitar que esses igarapés desapareçam. Temos também, enquanto Escola da Floresta, as nossas idas às escolas de ensino regular para multiplicar essa visão de conservação. Temos reuniões em algumas comunidades para falar sobre a água, sobre as questões de saúde, que estão relacionadas ao cuidado dos igarapés, evitando a contaminação por lixo ou assoreamento; nós participamos mesmo de forma tímida, com essas ações. Então nossa contribuição para com a APA é esse processo educativo, principalmente com as crianças, como uma prevenção para que a gente não discuta no futuro os problemas que podem ocorrer na Área de Proteção Ambiental”. 

Retorno ao presencial 

Após dois anos trabalhando de forma remota, a Escola da Floresta está retornando as atividades presenciais. A expectativa é que, após dois anos de pandemia, dobrem a quantidade de alunos e visitantes que passam pela escola. 



Barracões de aula interativa e auditórios com a estrutura tipicamente amazônica acolhem os visitantes na escola. Fotos: Victor Sousa

As experiências na Escola da Floresta

Diversos alunos e moradores já vivenciaram experiências em educação ambiental na Escola da Floresta, como é o caso de Elivelton Corrêa, morador de Alter do Chão, que inspirado pelo contato com a natureza, decidiu virar biólogo. A reportagem de ((o))eco conversou com Corrêa sobre os conhecimentos adquiridos ao longo de sua formação, e desse seu contato com a APA Alter do Chão:

“Sempre estive presente ali no ambiente, frequentando reuniões e outras atividades da escola, e as experiências sempre foram positivas, por conta, primeiramente, do espaço. Quando a gente passa a conhecer um pouco mais da vivência daquele espaço, de como é repassado o conhecimento de forma prática para os alunos, não tem como a gente não se encantar, tendo em vista que a educação ambiental é uma pauta que atualmente é muito importante e deve ser lembrada a todo momento”, destacou Elivelton.

Elivelton Corrêa, morador de Alter do Chão, Biólogo e Educador Ambiental. Foto: Victor Sousa

O contato com a natureza e a influência na carreira

Elivelton é formado em biologia e como morador de Alter do Chão cresceu em constante contato com a natureza, algo que influenciou em suas escolhas profissionais, além da preocupação em não ocorrer um desenvolvimento sustentável em sua comunidade.

“A principal fonte de escolha do curso foi justamente a preocupação com as futuras gerações. Então a gente que mora aqui em Alter do Chão sempre tem esse medo do amanhã não ter para os nossos filhos, para os nossos netos. A gente que vem de famílias indígenas, gente que mora aqui e que sabe do nosso dia a dia, sentimos essa preocupação de nossos filhos e dos nossos netos não terem a mesma coisa que nós temos, de não  verem a mesma coisa que nós vemos, e principalmente de sentir o que a gente sente, que é o que a própria natureza nos oferece. Então com certeza isso fez com que eu estivesse muito mais voltado para essa área ambiental, nós que nascemos aqui já somos praticamente 90% voltados. E aí a minha formação fez com que eu chegasse a 100% nessa questão de educação ambiental”, diz. 

O papel do educador na defesa da APA Alter do Chão

Como educador ambiental, Elivelton destacou a importância da educação como um agente transformador, principalmente em relação ao meio ambiente, como forma de despertar nos jovens uma motivação para o cuidado com a natureza.

“Hoje nós vivemos dentro de uma grande confusão aqui em Alter do Chão, muitas pessoas querem o seu bem, o seu melhor, que é a questão da preservação e conservação, mas muitas pessoas olham Alter do Chão como um simples lugar que veio para morar e dane-se o resto. Mas acredito que hoje em dia eu com a minha formação tenho um pouco mais de peso e propriedade de falar que a gente vem vivenciando vários processos dentro da APA. Então hoje em dia o ecoar das nossas falas é um pouco mais forte, hoje eu dou aula para o 6º ao 9º ano na maior escola aqui de Alter do Chão, que é a Escola Borari, então todos os assuntos que fazem parte do componente curricular obrigatório, eu sempre trago para nossa realidade. Um exemplo é o caso do ciclo da água, então eu já puxo essa questão da atualidade que está acontecendo no Rio Tapajós, que já estamos vivenciando, então com certeza tem um peso muito mais forte quando a gente tem uma formação, quando a gente vivencia na prática como era, como está, e tem um pouco essa visão de futuro quando a gente fala em questão de degradação ambiental”, concluiu o biólogo.

Por Victor Sousa
Fonte: O Eco