Em Barcarena, passam de 100 os atendidos pelo incêndio da Imerys

Fumaça tóxica se alastrou por quilômetros e população se queixa de falta de assistência e dos sintomas de intoxicação que permanecem. Na imagem acima familiares e amigos de William Reis Pinheiro durante o enterro em Barcarena (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)

Com mais de 100 atendimentos de pessoas que reclamaram de mal-estares por causa da fumaça tóxica e uma morte suspeita, o incêndio ocorrido na sede da Imerys Capim Caulim parece ter ficado para trás, se depender da mineradora francesa. Tudo parecia normal no Parque Industrial da cidade, com a própria Imerys funcionando a pleno vapor, apenas seis dias após o incêndio ter provocado cenas de pânico e desespero entre as comunidades ribeirinhas de Barcarena.

A falsa normalidade dos dias que sucederam o incidente contrasta com o ar que ainda se respirava nos locais atingidos pela nuvem tóxica. Há lugares em que há um cheiro fétido e é comum a sensação de sufocamento e ardência nos olhos – às vezes insuportáveis. As pessoas também relataram a sensação de estarem “aéreas”, “andando nas nuvens”, como se estivessem “bêbadas”. 

Os sintomas são praticamente os mesmos em todas as pessoas ouvidas pela equipe da Amazônia Real, que esteve em Barcarena entre os dias 10 e 11 deste mês para acompanhar os desdobramentos do caso e a situação das famílias tradicionais que vivem nas adjacências das instalações da Imerys.

Apesar das declarações da mineradora e da prefeitura de Barcarena de que as repercussões do incêndio e da fumaça produzida pela queima do produto químico Hidrossulfito de sódio – usado no branqueamento do caulim produzido pela Imerys – tenham se restringido apenas à noite de segunda-feira (6), muitas pessoas continuavam, na sexta-feira e no sábado passados, apresentando sintomas de intoxicação e buscando por atendimento médico. 

“Eles estão dizendo que a fumaça já passou. Mas como se depois de todos esses dias a gente ainda está sentindo esse entalo, a boca seca e os olhos da gente pegando fogo? A pele do rosto da gente parece que está fina, enquicrilhando”, contou Domingas dos Santos Dias, 58 anos, que precisou voltar ao trabalho na quinta-feira (9), após dois dias de ausência por conta dos efeitos da fumaça. 

O relato de Domingas diferia pouco do que ela havia contado à Amazônia Real na noite do incêndio, enquanto era atendida na Unidade Básica de Saúde de Vila do Conde. Naquele dia, ela desmaiou no meio da rua a caminho do local. A reportagem tinha ouvido Domingas e outras 15 pessoas que, ainda desorientadas, buscavam por ajuda ou por um lugar onde o ar parecesse menos tóxico.

Domingas dos Santos Dias, 58 anos, mostra uma ferida na perna que atribuiu a contaminação da fumaça tóxica do incêndio na mineradora Imerys no último dia 6/12
(Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)

O “pior acidente

A Imerys é responsável por mais de dez incidentes provocados em Barcarena nos últimos anos. Mas para Euniceia Fernandes Rodrigues, 46 anos, moradora da comunidade ribeirinha Curuperé, “este foi o pior” entre os que já ocorreram em Barcarena. “Nunca tinha visto nosso pessoal sofrendo com problemas de saúde tão fortes como agora. Dessa vez se alastrou e prejudicou centenas de famílias”, revelou.

Diretora de uma escola da rede municipal de ensino, a professora Euniceia, como é conhecida entre os comunitários, é uma voz ativa na denúncia contra as violações de direitos sofridas pelas comunidades tradicionais em Barcarena. A equipe de reportagem da Amazônia Real encontrou a professora no prédio da Defensoria Pública do Estado em Barcarena, onde ela e outras lideranças denunciavam a mineradora pelas repercussões do incêndio na saúde da população.

“Eu pensei que fosse morrer. A gente começou a sentir aquele fedor de pólvora misturado com enxofre e poucos minutos depois já comecei a ter uma crise de falta de ar. O pior é que a gente aqui das comunidades não tem para onde correr, de todo jeito a gente tem que passar na frente dela”, disse a professora se referindo à sede da Imerys e ao fato de que a empresa está ao longo das duas estradas esburacadas que dão acesso às comunidades. 

Nos dias que se seguiram ao incêndio, Euniceia já precisou ir duas vezes ao hospital por conta do mal estar que tem apresentado e que persiste. Ela se queixa de fraqueza nas pernas, indisposição, sensação de desmaio, dores de cabeça e dificuldade para respirar.

Euniceia Fernandes Rodrigues, 46 anos. Conhecida liderança entre as comunidades ribeirinhas localizadas nas imediações da planta industrial da Imerys
(Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)

“A gente já está tão acostumada com essa poluição daqui, que pensou que ia ser só mais uma. Mas dessa vez não, tem muita gente doente. O pessoal já está dizendo que o impacto foi pior do que a Covid”, relatou Euniceia.

A Secretaria de Meio Ambiente do Estado do Pará (Semas) autuou a Imerys por poluição do ar atmosférico, contaminação do solo e pelo não cumprimento do comunicado de acidente ambiental – atitude que deveria ter sido tomada imediatamente pela Imerys, reportando a ocorrência à Semas e avisando também a população dos perigos.

Por conta dos impactos e pela natureza nociva do produto químico, o Ministério Público Federal (MPF), o Ministério Público do Estado do Pará (MPPA) e a Defensoria Pública do Estado (DPE-PA) requisitaram à Imerys medidas de precaução e apoio imediato às famílias. Os órgãos recomendaram a distribuição de água potável, transporte, alojamento, tratamento médico e medicação para as comunidades do município. Até sábado, a empresa havia atendido apenas duas dessas medidas e de forma parcial: a distribuição de água e os atendimentos médicos.

Morte suspeita

O pai de William Reis pinheiro ao lado do corpo do filho no necrotério
(Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)

Enquanto a reportagem esteve na cidade de Barcarena avaliando as consequências da fumaça tóxica nas comunidades vizinhas à mineradora, um morador do bairro Industrial — uma das localidades mais afetadas pela fumaça tóxica—, morreu. Ele apresentou os mesmos sintomas que os relatados por outras vítimas ouvidas nesta reportagem: dores de cabeça, náusea, vômito, fraqueza e falta de ar.

William Reis Pinheiro, tinha 31 anos e morava há dez no bairro. Sua casa ficava a cerca de 150 metros da principal bacia de rejeitos da Imerys e a 800 do depósito onde ocorreu o incêndio. Segundo familiares, William havia ficado doente no domingo (5), mas amanheceu melhor no dia seguinte. Durante o incêndio ele teria se trancado com a família em um quarto e isolado a porta com toalhas na tentativa de conter a fumaça. 

Segundo a tia, Márcia Leal, 52 anos, antes dele falecer no dia 10, às 16h45, na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do bairro de Vila dos Cabanos, William teria ido três vezes em busca de atendimento médico no posto de saúde de Vila do Conde. Lá teria sido medicado e voltado para casa. 

Às 3 horas da manhã o quadro de William se agravou e ele foi levado para a UPA de Vila dos Cabanos. Foi entubado tão logo chegou. “O coração dele estava muito agitado. Fizeram exames nele, mas não souberam dizer do que ele morreu”, disse a tia, ainda atordoada e que o acompanhou durante todo o processo.

Na certidão de óbito de William, sua morte foi por “causa desconhecida”. A reportagem procurou a diretora da UPA, a médica Thainara Bastos, que informou que o paciente já se encontrava doente antes do incêndio e que era dependente químico. William foi atendido pela primeira vez no posto de saúde de Vila do Conde no dia 2 de dezembro. 

“Não tem uma ligação da morte dele com a intoxicação. Ele já vinha apresentando vômito, febre, diarreia, deu várias entradas no posto do Conde”, garantiu a diretora. A família de William, porém, informou à reportagem que o primeiro atendimento ocorreu apenas no dia 7.

Por decisão da família, o corpo de William não passou por necropsia.

O sepultamento de William Reis Pinheiro, 31 anos. A família suspeita que a morte esteja associada à fumaça tóxica da Imerys (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)

Amazônia Real teve acesso a um áudio gravado da reunião ocorrida na subprefeitura de Barcarena, que contou com a presença de deputados e do prefeito municipal Renato Ogawa (PL). Nele, a secretária de saúde do município, Eugênia Jane Chagas Teles, afirma que, por orientação da Secretaria Estadual de Saúde (Sespa), todos os casos atendidos pela rede municipal que apresentassem os sintomas recorrentes de falta de ar, dor de cabeça, entre outros, deveriam ser registrados como “intoxicação exógena”, relacionados à fumaça tóxica da Imerys. No caso de William, isso não aconteceu.

“Mãe, pai, saiam daí”

Ivaneide Rodrigues, 39 anos. Cabeleireira famosa na região e mais conhecida como “Lora”, ela não tem conseguido trabalhar por conta da saúde debilitada
(Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)

Ivaneide Rodrigues, 39 anos, é uma conhecida cabeleireira da região. Seu movimentado salão de beleza – agora vazio – funciona na sala da sua casa, no bairro Industrial, praticamente ao lado da principal bacia de rejeitos da mineradora. Mais conhecida como “Lora”, ela não foi mais a mesma desde o dia do incêndio.

A fumaça invadiu o quarto onde ela e o marido dormiam após um longo dia de trabalho, pelo buraco do ar-condicionado ausente. O filho mais velho do casal foi quem avisou sobre o incêndio.

“Meu filho acordou a gente gritando: ‘Mãe, pai, saiam daí senão vocês vão morrer sufocados; a Imerys está pegando fogo’”, contou Ivaneide que precisou dispensar as suas clientes por conta dos problemas de saúde que vem apresentando. Ela, relatando estar “fraca” e com “muita falta de ar”, se queixa do modo como a empresa tem tratado os casos.

“A pessoa está morrendo, passando mal, e ainda tem que marcar, esperar o dia que tiver uma vaga para ser atendido? Ainda por cima sai de lá sem os remédios que eles ficaram de dar?”, questionou a vítima sobre o atendimento médico oferecido pela Imerys. Como de costume, no início deste mês ela passou no cartão os produtos que utilizaria em suas clientes. Sem poder trabalhar, ela agora não sabe como vai arcar com as despesas.

Marciane Marques Pantoja, 42 anos, moradora da comunidade Canaã, vizinha da planta industrial da Imerys
(Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)

Os atendimentos médicos começaram em 8 de dezembro, na “Casa Imerys”, mediante agendamento, com limite diário de 15 pessoas e durante apenas um turno (manhã ou tarde), segundo relatos ouvidos pela reportagem. A “Casa Imerys” é um espaço mantido pela mineradora no bairro de Vila do Conde – também atingido pela fumaça. 

A população tem se queixado da ineficácia dos atendimentos. “Eu disse para médica o que estava sentindo e ela me passou uns remédios e uns exames. Ela disse que eles iam ligar pra gente ir buscar os remédios, só não disseram quando. Os exames ficaram marcados para segunda-feira (13)”, relatou Marciane Marques Pantoja, 42 anos, moradora da comunidade Canaã, localizada a menos de um quilômetro da Imerys. 

Na receita de Marciene constam os medicamentos Ibuprofeno, Dexclorfeniramina + betametasona e aerolin, os quais têm sido receitados com frequência também pela rede municipal de saúde para amenizar os sintomas apresentados pelas pessoas que buscam por atendimento.

A Clínica Moderna, local marcado para os exames de sangue, Raio X de tórax e eletrocardiograma, recomendados pela médica contratada pela Imerys, fica no bairro de Vila dos Cabanos, a cerca de 20 quilômetros das comunidades. “A gente ainda vai ter que pagar para chegar lá. Primeiro um mototáxi e depois um ônibus. Nem todo mundo tem dinheiro pra isso”, explicou Marciane. 

Fila da água

Outra queixa frequente dos comunitários tem sido sobre os critérios de escolha das comunidades que receberão água potável e quantas comunidades serão atendidas pelas medidas emergenciais. De acordo com uma nota emitida pela Imerys às comunidades no dia 9 de dezembro, apenas duas comunidades receberão os galões de água mineral: Acuí e Ilha São João. 

A comunidade do Curuperé será abastecida por caminhões-pipa com água fornecida pela concessionária de água e saneamento que atua no município. A comunidade Canaã e os bairros Industrial, Vila do Conde e Castanheira, devem entrar em contato com a mineradora por meio de um número telefônico para que seja avaliada a necessidade do fornecimento de água.

Amazônia Real questionou a mineradora sobre os critérios utilizados para a seleção das comunidades que estão sendo atendidas, mas até o momento desta publicação não obteve resposta. A empresa também não informou quantas pessoas já receberam a assistência médica fornecida na “Casa Imerys”.

Em nota, a Imerys disse apenas que “já disponibilizou apoio médico para as comunidades e, sem reconhecer responsabilidade, a pedido de autoridades, está também distribuindo água a determinadas comunidades”.

“Aqui, todas essas comunidades são tradicionais. Até mesmo as que o município transformou em bairros e trata como se fossem bairros. Não foi a gente que veio se instalar aqui perto da fábrica, foram eles que vieram para onde nós sempre vivemos”, explicou a professora Euniceia Rodrigues, afirmando que todas as comunidades próximas à indústria sentiram os efeitos da fumaça do incêndio. Ao todo, nove comunidades estão localizadas no entorno da planta industrial da empresa.

A pedido do MPF, MPPA e da Polícia Civil, o Instituto Evandro Chagas (IEC) passou a avaliar, desde o dia 7, a poluição do ar atmosférico causada pelo incêndio da Imerys. Em nota, o IEC informou que ainda está em fase de coleta e análises laboratoriais, mas que deve emitir um relatório em 15 dias. A nota também confirma a toxicidade das substâncias químicas liberadas pela combustão do produto que incendiou no galpão da Imerys, e seus prejuízos à saúde humana.

“Entre os produtos armazenados na área do incêndio havia produto químico à base de enxofre […] O enxofre em combustão libera na atmosfera […] óxidos de enxofre voláteis e tóxicos. Essas substâncias possuem também um forte odor e ao serem inalados pelos seres humanos ocorre uma sensação de asfixia e outros sintomas são relatados como dor de cabeça, enjoo, falta de ar, entre outros”, dizem os pesquisadores por trás das análises.

Planos de contingências

Comunidade Ribeirinha Ilha São João, localizada a cerca de 800 metros da planta industrial da mineradora Imerys
(Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)

Os moradores de Barcarena se queixam de que não foram devidamente informados pela empresa sobre o que estava ocorrendo na noite do incêndio. Ao contrário do que tem sido veiculado, não houve explosão e a notícia sobre o incêndio se espalhou pelas redes sociais ao mesmo tempo que a fumaça branca vinda da Imerys invadia as casas e tomava conta dos bairros e das comunidades vizinhas. 

A prefeitura de Barcarena demorou a se manifestar sobre o ocorrido e não deu orientações preventivas e específicas à população sobre a toxicidade do material produzido pela queima do Hidrossulfito de sódio.  “E se fosse de madrugada, se todo mundo estivesse dormindo na hora, como ia ser? Isso é o que mais chateia a gente, deles não terem avisado nada pro povo”, questionou Ivaneide Rodrigues.

Estrutura da Imerys e bairros vizinhos
(Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)

Situações como essas deveriam estar previstas nos Planos de Contingências tanto da mineradora quanto do governo municipal, sobretudo considerando a proximidade das comunidades e dos bairros do Polo Industrial de Barcarena. As plantas industriais há muito poluem a cidade, possuindo um largo histórico de crimes ambientais já catalogados pelo MPF, pelo MPPA e pelos órgãos de fiscalização ambiental. 

No caso da mineradora Imerys, especificamente, para alguns moradores do bairro Industrial – mais próximo de suas dependências –, basta atravessar a rua.

“Não teve uma sirene sequer para avisar a gente”, afirmou Rosemiro Brito, liderança do bairro Industrial que, agora, dias depois do incêndio, precisou buscar por atendimento médico, pois apresentou febre, inflamação nos olhos e falta de ar.

Rosemiro Brito recebendo atendimento médico no posto de saúde de Vila do Conde
(Foto: Arquivo pessoal)

Questionada pela reportagem, a prefeitura de Barcarena informou em nota que não possui ainda um plano de contingência para atuar em casos de desastres envolvendo as empresas do seu Parque Industrial. Mas garantiu que a gestão trabalha na finalização do plano que prevê medidas em casos de rompimento de barragens das mineradoras que atuam na cidade, Imerys e Norsk Hydro.

Com relação ao incêndio na Imerys, a prefeitura informou que a empresa “não apresentou ainda ao município um PAE [Plano de Ação Emergencial] para risco de combustão para material químico presente no seu parque”, e que só por meio deste instrumento é que se pode elaborar planos de contingência específicos para cada situação.

A informação repassada pela prefeitura, no entanto, contradiz a fala do Secretário Municipal de Indústria, Comércio e Turismo de Barcarena (Seicomtur), Marcos Mendes, que no dia do incêndio informou à reportagem que o município possuía um plano de contingência desde 2016 e que ele havia sido acionado quando o incêndio foi constatado.

Em reunião ocorrida na quarta-feira (8) , o Ministério Público Federal, o Ministério Público Estadual e a Defensoria Pública do Estado solicitaram que neste mesmo dia a Imerys encaminhasse aos órgãos o seu plano de contingência. Além disso, solicitaram também o envio de um relatório sobre as condições atuais do galpão de armazenamento de produtos químicos. A empresa também se comprometeu em apresentar a planta baixa de suas edificações e a indicação do despejo de todos os seus resíduos.

De acordo com o MPF, a empresa já enviou os documentos em questão e eles estão sendo analisados pelas equipes técnicas das instituições. Em nota, a Imerys diz colaborar ativamente com as autoridades, “seja para investigar as causas do incidente, seja para garantir apoio às comunidades”. 

Na quinta-feira (9), uma comissão integrada por deputados estaduais, membros da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e pela deputada federal Vivi Reis (PSOL), esteve nas dependências da mineradora e visitou o galpão onde aconteceu o incêndio. A Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado do Pará (Alepa), investiga o caso e tem cobrado posicionamentos dos órgãos de fiscalização, do poder público municipal de Barcarena e da mineradora.

À Amazônia Real, a deputada Vivi Reis, que na ocasião estava como representante da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal, disse que as informações recebidas pelos deputados por parte dos representantes da Imerys são a de que o galpão abrigava cerca de 500 toneladas do produto químico Hidrossulfito de sódio no dia do incêndio, mas que apenas 10 toneladas haviam sido incineradas.

“O mais chocante nessa história é que a mineradora não possui nenhum plano para proteção dos moradores das áreas de entorno e isso ficou mais nítido na reunião  que tivemos com os técnicos da Imerys”, afirmou a deputada Vivi Reis. 

“Eles sequer conseguiram responder minha pergunta sobre os efeitos tóxicos do hidrossulfito de sódio, que pode provocar lesões de pele, nos pulmões e também no trato gastrointestinal”, complementou a parlamentar, cuja formação é na área da saúde, em fisioterapia.

Segundo informações ainda da deputada, a empresa diz desconhecer as consequências do gás tóxico produzido pela queima do produto químico e a quantidade de pessoas atingidas pela fumaça. Ela também afirmou que o depósito foi descaracterizado após o incêndio e que isso deve dificultar as perícias.

No portão de entrada da Imerys, em Barcarena, famílias atingidas pela nuvem tóxica fazem protesto (Foto: @vivireispsol)

De acordo com uma apuração do G1, junto aos deputados estaduais que compuseram a comissão que visitou as instalações da Imerys, a mineradora não possui as devidas licenças ambientais para as operações em sua planta industrial desde 2012. 

Em nota, a Secretaria de Meio Ambiente do Estado do Pará afirmou que “a planta da empresa tem licenciamento ativo e está em processo de renovação sob condicionantes, em análise pela equipe técnica”. 

Amazônia Real consultou o Sistema Integrado de Monitoramento e Licenciamento Ambiental (Simlan), e não encontrou o licenciamento ambiental atualizado das operações de refinamento de caulim desempenhadas pela mineradora.

Além disso, a reportagem ainda constatou que a fábrica da Imerys opera em Barcarena sem Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e sem o Relatório de Impacto Ambiental (Rima), instrumentos importantes utilizados pelos órgãos de fiscalização para medirem os possíveis danos ambientais decorrentes de qualquer empreendimento, seja ele minerário ou não. 

Essa documentação é produzida com base nas características ambientais dos locais que sediarão os empreendimentos, com o intuito de fornecerem parâmetros para análises futuras sobre possíveis alterações no meio ambiente. 

De acordo com o advogado Ismael Moraes, que ocupa uma cadeira do Conselho Estadual de Meio Ambiente (Coema) como representante da OAB do Pará, o fato da Imerys não possuir EIA/Rima de suas instalações industriais em Barcarena viola a resolução 237 do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama), que estabelece as normas para licenciamentos ambientais no Brasil. 

“Qualquer licenciamento ambiental de empreendimentos como os da Imerys, deveria ser precedido de EIA/Rima, de acordo com o que prevê o Conama. Mas a Senas desconsiderou isso e a Imerys sempre operou sem esses estudos prévios”, disse o advogado.

“A Imerys se instalou em uma área densamente ocupada e, justamente por isso, ela não poderia em hipótese alguma estar operando hoje sem demonstrar a dimensão de seus impactos socioambientais”, concluiu Moraes.

De acordo com a Transparência Ambiental do governo do Pará, a Imerys possui Rima apenas do seu mineroduto.

Cronologia do incêndio

6 de dezembro: Às 19, tem início o incêndio no galpão de armazenamento de Hidrossulfito de sódio, na planta industrial da mineradora Imerys Capim Caulim. MPF, MPPA e DPE pedem explicações e providências à Imerys; a equipe de jornalismo da Amazônia Real chega à cidade quatro horas depois do início do incêndio. O incêndio foi controlado por volta de 22 horas, segundo a empresa, mas o ar continua infecto e irrespirável.

7 de dezembro: População ainda sente o odor da fumaça em diversos bairros e comunidades tradicionais adjacentes à Imerys e relata sintomas de intoxicação; Semas aplica três autos de infração na mineradora por poluição do solo, do ar atmosférico e por não comunicação de dano ambiental. Sob demanda do MPF, Imerys apresenta plano emergencial de atendimento às pessoas impactadas pela fumaça.

8 de dezembro: Comitiva de deputados e membros da OAB visitam as instalações da Imerys, reúnem com o prefeito municipal, Renato Ogawa (PL), e demais membros do poder executivo. Comitiva de deputados, membros do MPF, MPPA e Defensoria Pública do estado fazem reunião com a comunidade. Representantes da Imerys dizem que não sabem medir a quantidade de localidades atingidas pela fumaça e que desconhecem seus efeitos tóxicos. A Casa Imerys inicia atendimento médico à população.

9 de dezembro: Apuração do G1 junto aos deputados que visitaram as instalações da Imerys, apontou que a mineradora funciona sem as devidas licenças ambientais desde 2012. População continua buscando atendimento médico e relatando sintomas de intoxicação pela fumaça tóxica do incêndio. Primeiro lote de água mineral (dois galões por família) começa a ser entregue nas comunidades Ilha São João e Acuí.

10 de dezembro: A equipe de reportagem da Amazônia Real retorna à Barcarena. População ribeirinha e de outras comunidades tradicionais relatam insatisfação com o atendimento médico realizado na casa Imerys. Neste mesmo dia, no fim da tarde, morreu William Reis Pinheiro, 31 anos, que apresentava sintomas semelhantes aos relatados pela população intoxicada pela fumaça. Ele morava a menos de 150 metros das instalações da Imerys. Diretora da UPA nega morte por intoxicação.

11 de dezembro: William Reis Pinheiro é sepultado, às 11h15. A família optou por não fazer a necropsia do corpo. Rosemiro Brito, liderança do bairro Industrial, precisou ficar em observação no posto de saúde de Vila do Conde, após apresentar grave inflamação nos olhos, febre e falta de ar. Ele foi uma das pessoas que esteve na linha de frente desde o dia do incêndio para acionar as autoridades, avisar a população sobre a gravidade do incêndio e da fumaça.

Por: Cicero Pedrosa Neto
Fonte: Amazônia Real