Em três décadas, Brasil concentra perda de vegetação nativa na América do Sul, aponta estudo

Pecuária de baixa intensidade e o crescimento exponencial na produção de soja têm sido os principais responsáveis pelos maiores impactos na cobertura de vegetação natural

Nos últimos 34 anos, o uso da terra para atividades como pastagem e agricultura resultou na perda de uma área equivalente a 21,6 campos de futebol por minuto de vegetação nativa na América do Sul (8,1 milhões de hectares/ano). Essa alteração tão expressiva e rápida nos ecossistemas naturais, que transformou a região em um centro global de produção de commodities agrícolas, está trazendo graves consequências ambientais em escala regional e global, com impactos já identificados no clima, na biodiversidade, nos ciclos da água, entre outros. O alerta é de um estudo publicado na revista Science Advances, que trouxe pela primeira vez uma análise detalhada e em escala continental do impacto da antropização na cobertura natural dos países sul-americanos. Na comparação entre todos países do continente, o Brasil foi o que perdeu, proporcionalmente ao seu tamanho, mais terras naturais ao longo deste período.

De acordo com os pesquisadores, o uso da terra e a perda de vegetação nativa sofreram uma expansão de 60% entre 1985 e 2018, período em que ocorreu a análise. Em 2018, 713 milhões de hectares (Mha) – ou 40%, da massa de terra da América do Sul – havia sido impactada pela atividade humana. Desde 1985, a área de cobertura natural de árvores diminuiu 16%, e os usos de pastagens, cultivo de grãos ​​e plantações aumentaram 23, 160 e 288%, respectivamente.

O estudo aponta que, no continente sul-americano, a pecuária de baixa intensidade (onde há um baixo número de gado por hectare) e o crescimento exponencial na produção de soja têm sido os principais responsáveis pelos maiores impactos na cobertura de vegetação natural. Um estudo de 2019 focado somente no Brasil já havia identificado que as principais causas do desmatamento no país estavam relacionadas com o uso da terra que ocorre em duas etapas: florestas são derrubadas para a criação de pasto; depois esses pastos são, ao longo do tempo, convertidos em plantações, especialmente de soja.

Para chegar às conclusões do atual estudo, os pesquisadores utilizaram uma metodologia de análise híbrida, que incluiu análise de imagens de satélite, mapeamento das regiões afetadas e sorteio de pontos dentro do mapa para realizar um processo de inspeção. Leandro Leal Parente, pesquisador do Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento (Lapig), da Universidade Federal de Goiás (UFG), e um dos autores do estudo, explica que essa metodologia traz mais acuidade para a análise e evita erros de interpretação de imagens: “Quando você gera produtos a partir de mapeamentos feitos só com imagens de satélite, você pode incorrer em erros. Não é possível ter 100% de acerto nas análises somente com imagens de satélite. Por isso, uma análise como a que foi feita neste estudo gera resultados mais confiáveis”, explica.

Segundo o pesquisador, para as análises do território brasileiro, o grupo ainda usou um conjunto de amostras de imagens do MapBiomas, iniciativa do Observatório do Clima criada para mapear anualmente a cobertura e uso do solo do Brasil e monitorar as mudanças do território, e as comparou com as amostras obtidas no novo estudo. “Geradas por metodologias diferentes, essas amostras apontaram para os mesmos cenários sobre o uso de terras brasileiras”, explica.

Viviana Zalles, principal autora do estudo e pesquisadora do Departamento de Ciências Geográficas da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, destaca ainda que foram identificados 55 milhões de hectares (3% da cobertura vegetal do continente sul-americano) desmatados e que não foram usados para qualquer propósito econômico perceptível. “Esta área, do tamanho da Espanha, representa uma perda significativa de serviços ecossistêmicos sem nenhum benefício econômico, uma situação perdedora em termos econômicos e ambientais”. Zalles explica que o cenário provavelmente se deve à especulação de terras, à degradação da vegetação natural por corte de madeira, fogo e outros tipos de perturbação.

“A produção de commodities agrícolas tem permitido o desenvolvimento econômico dos países que produzem e comercializam esses bens. No entanto, a perda de ecossistemas saudáveis ​​é acompanhada da perda de valiosos serviços ecossistêmicos, como proteção contra eventos climáticos extremos como secas e inundações, acesso a água doce, acesso a ar puro e muitos outros, que também podem ser quantificados em termos econômicos”, afirma a pesquisadora.

Entre as consequências da perda de cobertura vegetal natural no Brasil, o estudo destaca, por exemplo, o caso da bacia amazônica, que sofreu um aumento de temperatura do ar próximo à superfície e uma diminuição da evaporação em decorrência do desmatamento. Essas mudanças, explicam, podem deixar a vegetação da região semelhante à do Cerrado em um futuro próximo.

Para os pesquisadores, o estudo serve como um alerta para que governantes levem em consideração todos os custos e benefícios da perda do ecossistema natural ao tomar decisões sobre a alocação de seus recursos terrestres.  “Sabemos também que, no Brasil, as terras dos povos indígenas são frequentemente invadidas, assim como as áreas protegidas por legislação. Nossos resultados destacam a necessidade de boa governança para equilibrar o desenvolvimento e a natureza”, conclui Zalles.

Fonte: Observatório do Clima