Emissões de gases de efeito estufa são uma ameaça real aos ecossistemas e à humanidade

É urgente implementar estratégias de adaptação para evitar pontos de inflexão ecológicos e sociais, afirma Patrícia Pinho, autora do Sexto Relatório do IPCC

Um relatório especial do IPCC publicado em 2018 já havia alertado o mundo que o limite considerado mais seguro, de até 1,5ºC de aquecimento global almejado pelo Acordo de Paris de 2015, poderia ser alcançado até 2050, caso a humanidade continuasse com o mesmo padrão de emissões de gases de efeito estufa (GEE). Em meados de 2021, e nesse ano, no final de fevereiro e na primeira semana de abril, tivemos a publicação, respectivamente, das três partes (ou volumes) do Sexto Relatório do IPCC, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU. 

Esse relatório, que também é conhecido como AR6 (Assessment Report 6, na sigla em inglês), mostrou em sua primeira parte um cenário pior em relação ao relatório de 2018, projetando que o aquecimento de 1,5ºC do planeta deverá ser alcançado em menor tempo, entre 2030 e 2040. No começo de maio deste ano, cientistas da Organização Meteorológica Mundial da ONU anunciaram a projeção de 50% de chance do aquecimento do planeta em 1,5ºC ser atingido até 2026. Sob o título de divulgação para a imprensa “Mudanças climáticas: uma ameaça ao bem-estar humano e a saúde do planeta”, a segunda parte do AR6 mostrou, de modo inequívoco, que às ações humanas estão causando rupturas perigosas e amplamente distribuídas na natureza, exemplificadas por suas consequências já afetarem a vida de quase metade da população mundial, em torno de 3,5 bilhões de pessoas; e que a mortalidade devido a frequência de eventos climáticos extremos – inundações, secas, ondas de calor e tempestades – foi 15 vezes maior na última década para os países que se encontram em situação de maior vulnerabilidade em relação aos demais. 

A especialista Dra. Patricia Pinho, autora líder do capítulo sobre “Pobreza, modos de vida e desenvolvimento sustentável”, que compõe a segunda parte do AR6, fala sobre o novo relatório do IPCC nesta entrevista feita para o podcast Oxigênio (em breve), da rádio Unicamp, publicada na íntegra na revista ComCiência, e republicada em versão parcial em ((o))eco. Patrícia Pinho é doutora em Ecologia Humana pela Universidade da Califórnia e pesquisadora do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia). A pesquisadora tem como interesses a perspectiva social e antropológica das mudanças climáticas, buscando compreender quais são os principais impactos das mudanças climáticas na vida das pessoas, sobretudo na Amazônia. 

Nesta entrevista, conversamos, dentre outras coisas, sobre as conclusões do relatório; o papel do Brasil no combate às mudanças climáticas; as contribuições e novidades trazidas para nosso país no capítulo de sua autoria, com ênfase para a região amazônica; e sobre os desafios, as estratégias e os limites de adaptação das pessoas para o enfrentamento das mudanças climáticas.

De todas as conclusões da segunda parte do novo relatório do IPCC, quais você diria que são as principais mensagens para o mundo? 

Patrícia Pinto: Acho que a primeira conclusão é que as emissões de gases do efeito estufa de origem antropogênica [humana] tem gerado impactos adversos expressivos e significantes em todos os países ao redor do mundo, conferindo-se genuinamente como uma ameaça à humanidade. Trouxe também com muita propriedade que essa vulnerabilidade, essa ameaça é real para a sociedade, para a humanidade globalmente, mas existe um componente de alta desigualdade nos impactos, o que significa que esses impactos e os riscos não são experienciados de maneira homogênea ao redor do mundo, por todos os ecossistemas ou por todas as pessoas. Então existe um componente de assimetria das mudanças climáticas que é a contribuição histórica das maiores emissões de gases do efeito estufa. Elas são em sua maior parte oriundas de países desenvolvidos, que também têm sofrido com os impactos compostos das mudanças climáticas na sociedade, na economia. No entanto, esses países têm uma maior capacidade de adaptação justamente por serem países desenvolvidos economicamente. Embora de base não sustentável, possuem a capacidade de implementar as respostas – têm recursos econômicos, capital social, cultural, governança e instituições que podem promover isso.

Por outro lado, os impactos mais negativos, mais expressivos, têm sobrecaído nas populações ou regiões do Sul Global, onde a capacidade de resposta é reduzida porque existe uma alta concentração de pobreza, desigualdade social – desigualdades de interseccionalidades, como estão sendo chamadas. São justamente os países subdesenvolvidos do Sul Global que pouquíssimo ou praticamente nada contribuíram para o agravamento da crise climática que estão sofrendo os maiores impactos.

Como devem ser entendidas as estratégias de adaptação e os limites de adaptação para as mudanças climáticas?

Embora os impactos e riscos para os ecossistemas ao redor do mundo e também para a humanidade sejam comuns, sejam altos, a gente tem diferentes pontos de partida para implementar estratégias de adaptação para os próximos anos, ou implementar o que o IPCC chama de trajetória de resiliência climática. Isso quer dizer que dependendo em que espectro de vulnerabilidade a pessoa ou um país se encontra, será a partir daí que as estratégias de adaptação terão que ser tomadas. Então isso mostra quais são as maiores barreiras de adaptação para se implementar.

É sabido que a marginalização – os grupos étnicos, as questões de gênero, as mulheres, as crianças, os idosos – é a geografia onde os riscos se projetam, se materializam. Eles produzem impactos diferenciados. Essas desigualdades também foram pautadas para que estratégias de adaptação e trajetórias resilientes sejam possíveis.

O relatório também destaca os limites de adaptação que a gente tem que evitar, os tipping points (pontos de inflexão ou pontos de virada) ecológicos. O aumento da temperatura global leva a uma degradação ou praticamente a eliminação de alguns ecossistemas. E existem também os limites de adaptação que são mais suaves. São suaves não porque sejam fáceis ou menos impactantes economicamente ou em relação a perda de vidas, mas porque são factíveis de serem implementados. São limites sociais, na esfera mais sócio-política. Por exemplo, ao se implementar um mecanismo de proteção social, você reduz as condições de pobreza e evita como consequência a insegurança alimentar; e trazendo vegetação, implementando soluções baseadas na natureza em meio urbano, você reduz o estresse térmico. Como consequência, a incidência de internações por doenças associadas a ondas de calor são reduzidas. 

Em relação ao Brasil, quais você considera as principais mensagens trazidas na segunda parte do AR6?

O que a gente vê é que o Brasil tem de média a alta vulnerabilidade aos impactos das mudanças climáticas. Primeiro por ser um país de muita dependência econômica de base agrícola. Alto número de pessoas ou populações, comunidades vivendo intrinsicamente dependentes de atividades que são sensíveis ao clima, como agricultura e pesca. Trabalhadores que exercem suas atividades no meio externo, sujeitos ao clima. Há também alto número de populações ainda em situação de pobreza, e uma alta desigualdade socioeconômica. Mas também tem interseccionalidades como gênero, etnia, cor da pele e geografia. Então para o Brasil a gente tem uma vulnerabilidade já observada.

O país possui uma das mais longas extensões costeiras, o que o torna extremamente suscetível ao aumento do nível do mar e erosão costeira, afetando populações que moram e/ou dependem dessas áreas costeiras. A gente também vê que, para o Brasil, existem impactos já observados em todos os ecossistemas, com perda acelerada de biodiversidade. E em um futuro próximo, quando há a expectativa do planeta atingir 1,5ºC de aquecimento na temperatura global, teremos um severo comprometimento para as espécies e ecossistemas tropicais, e para suas funções ecológicas, como já têm sido observadas para a Amazônia. 

Também há processos acelerados de desertificação, sobretudo para a área do Nordeste brasileiro ocupado pelo bioma da Caatinga, com comprometimento e efeitos cascatas, como na segurança alimentar, no que diz respeito à habilidade da população se manter; desses modos de vida que são dependentes da agricultura, da pesca ou de ecossistemas, tal como a população indígena e tradicional. Então há um cenário de alerta para a vulnerabilidade do país.

Você poderia falar um pouco a respeito das novidades/conclusões para o Brasil e para a Amazônia do capítulo sobre “Pobreza, Modos de vida e Desenvolvimento Sustentável” em que foi a autora líder, na segunda parte do AR6? 

Dentre as principais novidades estão trazer para a linha de frente os conceitos de justiça climática e de limites de adaptação – a necessidade de implementar estratégias de adaptação urgentes para evitar pontos de inflexão, sejam eles ecológicos como também sociais com relação ao aquecimento da temperatura global. 

O capítulo também trouxe o papel do desenvolvimento, da trajetória de desenvolvimento socioeconômico, tanto no Brasil como globalmente, que é algo que tem levado a uma maior exposição dos ecossistemas e amplificado os impactos e os riscos para a população e para as economias. 

Outra contribuição foi mostrar que mesmo implementando estratégias de adaptação urgentes e necessárias, uma vez que ainda existem lacunas, algumas populações em algumas regiões do mundo, e alguns ecossistemas vão experienciar impactos residuais, ou seja, impactos que vão ocorrer, sejam eles econômicos ou não-econômicos independente dos esforços de adaptação. Esses são os riscos residuais que vamos ter que lidar, e é isso que tentamos minimizar. 

O relatório também traz a novidade das perdas não-econômicas, que são tidas como perdas mais subjetivas e não quantificáveis, mas que dão qualidade de vida ao indivíduo, a uma cidade, a um país. Trouxemos essas evidências e também a própria evidência do ponto de inflexão social, que são pontos em que alguma pequena perturbação, seja ela ambiental ou climática, gera uma desestabilização social – na sociedade, na comunidade – e isso faz com que exista uma transformação radical do comportamento, nas opções de modo de vida. Geralmente esses pontos de inflexão social são muito negativos, estando muito vinculados a um processo de erosão do modo de vida das populações – aumento de conflitos, violência, crises humanitárias e migração.

Como você vê a percepção das pessoas no Brasil (ou de grupos específicos) sobre a relação entre episódios (eventos) climáticos extremos e as mudanças climáticas? 

A gente tem tido evidência sobre o Brasil – sobre o que a população pensa em relação às mudanças climáticas. Acho que a maioria da população, sobretudo as que dependem de atividades agrícolas, atividades extrativistas, pesca – essa população já está percebendo e já tem convivido e experienciado o que são as perdas econômicas e não-econômicas. Perdas como saúde, cultura e modo de vida atreladas aos impactos de extremos climáticos como alterações da sazonalidade, isso é, o período de plantio e colheita tem mudado. E essa mudança tem sido não só para se estabelecer um novo calendário, mas também tem mudado a cada ano. 

Agora eu vou falar de um estudo que está saindo e tem o professor David Lapola do [Laboratório de Ciência do Sistema Terrestre] da Unicamp como coautor. O estudo investigou realmente, o que as pessoas em diferentes bacias hidrográficas no estado de São Paulo tem experienciado de impactos das mudanças climáticas. Mais de 97% das pessoas disseram que tem sentido e experienciado um aumento da temperatura, e isso consequentemente está afetando a saúde, o bem-estar e a renda, além [das pessoas] estarem lidando também com comprometimentos de infraestrutura. 

Há medidas ou estratégias já adotadas no Brasil para a adaptação das pessoas às mudanças climáticas?

No país ainda não existem medidas de adaptação estabelecidas e implementadas em grande escala. O que a gente tem visto são adaptações autônomas de pessoas, comunidades, de indivíduos tentando se adaptar aos eventos e as mudanças climáticas. O que tem sido mostrado é que há um comprometimento nessa habilidade autônoma de resposta. Por isso é necessário institucionalizar e dar escala às estratégias de redução de risco no país, tanto para as pessoas como para a economia, porque a gente vai atingindo pontos onde em algum momento, como em relação a perda de ecossistemas, a ação humana não será capaz de repor serviços [ecossistêmicos] perdidos.

Que estratégias para aumentar a resiliência climática das pessoas e da natureza em nossos biomas podem ser citadas? 

O que se mostra como estratégias factíveis é sobretudo para a população mais vulnerável. Sabemos que mecanismos de proteção social como bolsa família e bolsa floresta reduzem muito os riscos dos impactos da mudança climática. Reduzem a insegurança alimentar, hídrica, a proliferação de doenças e a habilidade das pessoas em terem respostas. Outra estratégia é a realocação das pessoas através do próprio ordenamento territorial, que evita e tira as pessoas de situações de risco diário. E a gente também tem estratégias bem-sucedidas, como o pagamento sobre serviços ambientais.

Há ainda soluções baseadas na natureza, trazendo biodiversidade para a recuperação do meio urbano, desde jardins filtrantes – que limpam, filtram a água – até a redução da temperatura atmosférica com o plantio de árvores.

Alguma mensagem final? 

Eu gostaria de lembrar que esse relatório é fruto da literatura, da mensagem global do que a literatura tem dito, mas também é fruto de 270 autores – muitos deles mulheres, muitos deles jovens, muitos deles cientistas sociais, que é uma vertente de inclusão nova nos relatórios do IPCC. Eu queria que as pessoas se atentassem para quando lerem o relatório que se trata de um alerta do sofrimento humano às mudanças climáticas. 

Como disse o próprio secretário-geral da ONU, temos que pensar que existe uma mensagem específica ali para você porque algumas pessoas falam: o que isso tem a ver comigo? Tem a ver, porque tem cientista do mundo inteiro representando todos os países ao redor do mundo, mesmo aqueles que são extremamente vulneráveis.

Então esse relatório é uma visão de cada um de nós, de cada cultura que a gente tem na medida do possível representada, e sobretudo uma busca por soluções para nossa humanidade. Eu queria que todos lessem esse relatório com isso em mente. Que essa é realmente uma mensagem dos autores da literatura científica sobre o estado da nossa habitabilidade no sistema terrestre, que é comum a todos. E lembrar que qualquer ação importa. Mesmo falar sobre isso já estará dando um passinho a mais sobre o estágio em que a gente se encontra e sobre a necessidade de reverter esse processo para se evitar mais riscos, perdas de vida e de qualidade de vida na Terra.

Por: Leandro Magrini
Fonte: O Eco