Emissões de metano fóssil podem ser 70% maiores

Conclusão é da Agência Internacional de Energia, que fez nova estimativa por satélite do volume emitido pelo setor de energia do segundo principal gás de efeito estufa

 Governos vêm divulgando dados subestimados sobre a quantidade de metano que seus países emitem. De acordo com o 2022 Global Methane Tracker, o mais recente relatório da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), as emissões de metano na produção de petróleo, gás e carvão são até 70% maiores do que o relatado oficialmente pelo setor global de energia.

 O documento apresenta pela primeira vez estimativas abrangentes de emissões para cada país e indica que as nações que mais contribuíram pelo setor energético – o que ocorre nas usinas de carvão e por meio de vazamentos nas infraestruturas de petróleo e gás natural, as chamadas “emissões fugitivas”- foram China, Rússia, Irã, India e Estados Unidos, este último principalmente com suas operações por fraturamento hidráulico, ou fracking. O setor de energia responde por 38% das emissões de metano do planeta.

Além das fontes fósseis, o metano também é emitido por uso da terra e mudanças de uso da terra (40%), pelo setor de resíduos (20%) e por fontes naturais, como pântanos e solos.  

O metano, responsável por quase um terço do aumento da temperatura que ocorreu no planeta desde o início da Revolução Industrial, é considerado o segundo maior causador do efeito estufa em volume de emissões, atrás apenas do dióxido de carbono (CO2). Embora tenha meia-vida mais curta na atmosfera, ele é capaz de aquecer a atmosfera 28 vezes mais do que o mesmo volume de CO2 em cem anos. Como o metano se decompõe mais rápido, o corte nas suas emissões pode ajudar a ganhar tempo no controle do aquecimento global. 

 Por isso, o poluente se tornou um dos principais assuntos da COP26, a conferência de Clima da ONU que ocorreu em novembro do ano passado. Na ocasião, quase cempaíses – entre eles o Brasil – assinaram o Compromisso Global sobre Metano, se comprometendo a reduzir 30% das emissões globais desse gás até 2030 em relação aos níveis de 2020. No entanto, entre os cinco maiores emissores do gás apontados no relatório da Agência Internacional de Energia, apenas os Estados Unidos firmaram o compromisso. O Brasil, que no ano passado emitiu quase 20 milhões de toneladas do gás, não aparece com destaque no documento da IEA pois a fonte predominante por aqui é a agropecuária (70%), enquanto os vazamentos das cadeias fósseis representam menos de 2% das emissões.

 No relatório, os autores apontam “a necessidade urgente de esforços aprimorados de monitoramento e ações políticas mais fortes para reduzir as emissões do potente gás de efeito estufa”. Para alcançar esse objetivo, o documento indica que medidas severas deverão ser tomadas, já que as emissões de metano atribuíveis à atividade humana voltaram a crescer 5% em 2021 após uma queda no ano anterior devido à pandemia de Covid-19. Os pesquisadores utilizaram recentes imagens de satélite para monitorar as principais fontes de emissões e constataram que a indústria do carvão contribuiu com 42 milhões de toneladas (Mt), seguidas por 41 Mt  pela indústria de petróleo e 39 Mt pela de gás natural.

 Entre as conclusões do documento, indicaram que caso o setor tivesse contido globalmente todos os vazamentos de metano em 2021, o mercado teria se beneficiado em mais 180 bilhões de metros cúbicos de gás natural. “Isso representa o equivalente a todo o gás necessário anualmente para o setor elétrico europeu. Grandes reduções podem ser alcançadas com tecnologias conhecidas e com políticas testadas e comprovadas”, destacou a AIE.

Isso significaria também menos tensões geopolíticas na Europa. O continente hoje amanheceu em pânico com a invasão da Ucrânia pela Rússia. A Europa é altamente dependente do gás natural russo para sua indústria e para se aquecer no inverno.

 “A redução de emissões, particularmente do vazamento de exploração de gás natural e da produção de carne, pode ser facilmente reduzida com ganhos de produtividade”, explica Paulo Artaxo, especialista em física da atmosfera da Universidade de São Paulo (USP) e um dos autores do relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).

 De acordo com o economista-chefe de energia da IEA, Tim Gould, se até o final desta década os países cumprirem com a promessa de reduzir em 30% as reduções de metano, o impacto no aumento da temperatura global até meados do século será o mesmo que trocar todos os carros, caminhões, aviões e navios do mundo para tecnologias de emissão zero.

Fonte: Observatório do Clima