Entenda como o combustível caro estrangula a economia de ribeirinhos na Amazônia

Invisíveis aos olhos do governo federal, extrativistas fazem o que podem para driblar a crise e pedem fim dos aumentos

Embarcações paradas e tráfego fluvial menor: preço dos combustíveis deixou rio Purus menos movimentado – Murilo Pajolla

Açaí, copaíba e castanha do Brasil. Caros nas metrópoles brasileiras, esses produtos são encontrados com fartura nas áreas preservadas da Floresta Amazônica. Mas de nada adianta a abundância, se os moradores das matas não conseguirem transportar a carga para os distribuidores. 

É o que pode acontecer em decorrência dos sucessivos aumentos dos preços dos combustíveis, com efeitos que vão muito além das estradas asfaltadas. Para quem usa os rios sinuosos da bacia amazônica para escoar a produção agrícola e extrativista, a atividade já está ficando inviável. 

Invisíveis aos olhos do governo de Jair Bolsonaro (PL), moradores de comunidades do interior do Amazonas ouvidos pelo Brasil de Fato pedem a estabilização dos preços e dizem que praticamente estão tendo que pagar para trabalhar.

“Alguém tem que olhar a nossa produção”

Em Lábrea (AM), as embarcações são abastecidas nos postos fluviais no porto da cidade, à beira do rio Purus. Em um estabelecimento visitado pela reportagem, o preço da gasolina saltou de R$ 7,39 para R$ 8,29. Já o diesel foi de R$ 6,17 para R$ 7,59. O etanol não é vendido na região. 

Para tirar o sustento, Edmilson Martins da Silva precisa levar a castanha colhida por ele e sua família até a área urbana. Ele vem tentando driblar a crise, mas admite que, às vezes, pensa duas vezes antes de fazer o trajeto, que custa R$ 3 mil reais, só de combustível.

“Tem hora que a gente não sabe se vai para a forca ou se morre enforcado”, resume a situação. 

No ano passado, ele adaptou o motor de sua pequena embarcação para rodar a base de gás de cozinha. Mas desistiu da estratégia quando começou a pagar R$ 150 pelo botijão. Sem solução, foi obrigado a investir em um motor a diesel, que gasta menos. Mesmo assim, diz que está cada vez mais difícil transportar a carga. 

Depois de vender a castanha na cidade, Edmilson quase não tem dinheiro para voltar para a comunidade / Murilo Pajolla

“Dá vergonha quando você chega na cidade e vê que o preço da castanha está lá embaixo e o do ‘inflamável’ lá em cima. A gente quer voltar para casa e não vai dar nem para comprar o ‘inflamável’ para voltar”, diz o morador da comunidade de Praia Alta. 

“Então a gente pede que alguém veja isso para nós. O ‘inflamável’ está subindo e ele não tem que estar subindo e descendo, ele tem que chegar a um limite. Alguém tem que olhar a nossa produção, a nossa farinha, a nossa castanha, ver o nosso açaí. É triste”, desabafa. 

“Quase não compensa trazer o açaí”

Outro morador da Resex (reserva extrativista) Ituxi, Wellington Ricardo da Silva Apurinã colhe açaí junto com os filhos. De origem indígena, ele e a família vão à cidade a cada dois meses para vender a produção. Ele também reclama que o lucro mal dá para pagar o combustível. 

“A gente vem [para a cidade] com um motor a diesel. Quase não compensa trazer [o açaí] se for para queimar a gasolina. A gasolina, de lá, nós gastamos 80 litros. E a gente vê o preço que está, quase nove reais… Só nessa despesa já acaba o dinheiro da produção”, relata. 

De origem Apurinã, Wellington relata logística inviável / Murilo Pajolla

Associação pede respeito a populações tradicionais 

Na Resex Ituxi, as famílias produzem castanha, açaí, farinha de mandioca e copaíba. Das comunidades, os produtos são beneficiados na cidade de Lábrea, a 850 quilômetros de Manaus. De lá, os produtos típicos floresta amazônica seguem para o restante do país e até para exportação. 

Os mais de 180 produtores do rio Ituxi são representados pela Associação dos Produtores Agroextrativistas da Assembleia de Deus do Rio Ituxi (Apadrit). Laureni Barros Flores, presidente da entidade, diz que os ribeirinhos não deveriam pagar a conta pelo descontrole no preço dos combustíveis.  


Preço dos combustíveis no posto fluvial de Lábrea (AM) em 21/03/2022 / Murilo Pajolla

“Se continuar subindo, a gente não vai conseguir trabalhar. Não vamos conseguir arcar com esse prejuízo que está sendo jogado em cima de nós. Não dá para trabalhar com esse governo, a gente não tem estrutura para isso”, diz a ribeirinha. 

“É um governo que entristece muita gente. Nós somos populações tradicionais. E o governo precisa respeitar nossos direitos enquanto extrativistas”, exige. 

Por: Murilo Pajolla
Fonte: Brasil de Fato