Estudantes indígenas cobram mais vagas na graduação da UEA

Estudantes indígenas cobram mais vagas na graduação da UEA
Os certames da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) ofertam 773 para candidatos com deficiência e apenas 264 para indígenas (Foto: Meiam)

Organizações indígenas realizaram na sexta-feira (19) um ato na sede da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) cobrando políticas de permanência e de inserção para alunos da graduação. A cobrança ocorreu após a divulgação dos editais do Vestibular 2021, acesso em 2022, e do Sistema Integrado Seriado (SIS), que ofertaram 4.870 vagas, sendo 773 vagas para Pessoas com Deficiência (PcDs) e apenas 264 para alunos indígenas – o que representa 5,4% do total. Nos dois certames, as vagas para os PcDs representam 15,8%.

As lideranças tentaram um diálogo com o reitor da UEA, Cleinaldo Almeida, mas ele não recebeu os estudantes.

A universidade divulgou os editais do Vestibular e do SIS 2021 em 10 de novembro. Segundo a UEA, os dois editais vão oferecer 37 cursos no estado. Em todos os cursos há reservas para indígenas. 

Para o Vestibular 2021, acesso em 2022, são 2.300 vagas de ampla concorrência para o Amazonas. Além dessas vagas, foram ofertadas 466 vagas para PcDs e 140 para estudantes indígenas.

O Edital do SIS dispõe de 1.533 vagas no estado. Dessas, 307 para PcDs e 124 para estudantes indígenas. Em 2020, a UEA também ofertou menos vagas para indígenas: 182; e para PcDs foram 270.

Participaram do ato representantes do Movimento de Estudantes Indígenas do Amazonas (Meiam) e da Coordenação dos Povos Indígenas de Manaus e Entorno (Copime). “Para nós que estamos apenas com a questão de 5%, diminui muito as possibilidades de ingresso. Há também uma diminuição de vagas por turma. Hoje ela disponibiliza 12 vagas para um curso”, explica Ludimar Kokama, da Copime.

Ludimar afirma que todas as propostas para aumento de vagas para indígenas foram ignoradas pela instituição. “Eles estavam sempre embargando as nossas propostas, alegando que não existe legislação, que não há artigos. E temos conhecimento que há amparo legal. Essa resolução para PcDs foi aprovada após organização dos movimentos e agora nós vamos retomar essa discussão e apresentar novo documento”, diz.

A indígena Alva Rosa, do povo Tukano, que faz parte da Comissão de Políticas Indígenas da UEA, cobrou um posicionamento do reitor e disse que foi surpreendida com a resolução, tendo sido excluída do debate. “Existe uma comissão de política indígena na UEA, que foi constituída em 2019. O que aconteceu? A gente quer conversar com o reitor, fomos surpreendidos. Senhor reitor, eu sei que você está na sua agenda, queremos conversar e não brigar. O Estado do Amazonas tem a maior população indígena do país, o que aconteceu?”, questiona. 

Procurado pela reportagem, o reitor Cleinaldo Almeida não respondeu aos questionamentos e se limitou a enviar o contato da assessoria de imprensa.  Em nota, a assessoria UEA informou que os estudantes foram recebidos pelo vice-reitor Cleto Leal e vai discutir novas definições para o sistema de cotas dos vestibulares da instituição. A universidade afirmou que está “aberta ao diálogo com as lideranças indígenas e, principalmente, comprometida em viabilizar os direitos e garantias constitucionais de todos os povos”. (Leia mais no final do texto).

Para Ludimar Kokama, o processo de permanência dos povos indígenas na Universidade tem sido negligenciado com políticas escassas que dificultam a obtenção do diploma. Essa problemática envolve questões financeiras, mas também sociais.

“Quando se fala na questão da permanência, temos alguns parentes que conseguem manter os filhos lá (na Universidade). Quem ainda é sustentado pelos pais ou familiares consegue, mas isso é diferente de quem já tem uma família, e é responsável por ela. Como vai conseguir estudar e trabalhar ao mesmo tempo sendo que o curso requer a integralidade? É impossível continuar”, explica. 

Os movimentos pretendem fazer outra reunião, desta vez com a Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e outra com o prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), para discutir a concessão de bolsas em universidades. 

O Amazonas é o estado com a maior população indígena no país, sendo que na capital são 168.680 indígenas, segundo Censo do IBGE de 2010. De acordo com organizações indígenas da região, o número atualmente já passa de 200 mil.

Fuga de pesquisadores indígenas

Estudantes indígenas em ato na UEA (Foto: Meiam)

Os movimentos denunciam que a falta de políticas está causando uma fuga de pesquisadores indígenas que antes produziam ciência no Amazonas, mas encontraram em outros estados maior suporte. 

A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) fez neste ano a terceira edição do Vestibular Indígena. Foram 88 vagas destinadas e a Universidade tem mais de 200 alunos indígenas, de 40 etnias diferentes.

A Universidade Federal de São Carlos  (Ufscar) adota um Vestibular Indígena em Recife, Manaus, São Gabriel da Cachoeira e São Paulo. Apesar de o Amazonas ser o estado com a maior população indígena do país, Ufam e UEA não adotam um vestibular específico .

“Sempre que a universidade tem uma política afirmativa, que dá essa possibilidade, abre vaga todo ano para indígenas, isso ajuda. A UEA destina 5% das vagas para indígenas, mas isso é o mínimo. É nesse sentido que estamos reivindicando esclarecimentos, estamos lutando para que a gente consiga abrir mais vagas para estudantes”, afirma Ludimar. 

A socióloga Valéria Baniwa, integrante do Meiam, saiu do Amazonas para desenvolver sua tese de doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O título da pesquisa dela é “Saúde Mental indígena na cidade Manaus a partir dos Baniwas”.

“Nesse momento estou no doutorado da UFRJ, entrei por cota indígena. Os anos que estudei na Ufam eu não via segurança, as pessoas me tratavam como cidadã comum e não como indígena”, lamenta. 

Mesmo em outra universidade, Valéria afirma que precisa continuar lutando pela cobrança de políticas no Amazonas, para que outros indígenas tenham melhores condições de ensino e mais apoio das instituições. “Temos que dar força aos outros jovens que estão chegando que querem ter expectativa de vida, querem entrar nas universidades. Isso tudo é projeto político que quer nos exterminar mesmo, tentaram e querem tirar tudo de nós. Nós somos indígenas e não somos como os outros cidadãos”, diz.

Sem acesso à educação superior

Protesto dos alunos indígenas na Reitoria da UEA (Foto: Meiam)

A tendência é que no próximo ano menos estudantes indígenas consigam acessar o ensino superior. O cenário que ocorre na UEA se reflete em todo o País. Neste ano, o Enem teve o menor número de inscritos desde 2007. Os baixos números de inscrições pioram quando é feito recorte por gênero e raça.

De acordo com dados do Semesp (Sindicato das Mantenedoras de Ensino Superior), houve uma queda de 54,8% nas inscrições de pessoas indígenas, comparado ao ano de 2020. Naquele ano, os alunos pardos eram 2,7 milhões, neste ano foram 1,3 milhões. 

Essa expectativa significa uma quebra com os dados de aumento do acesso dos povos indígenas, identificados até 2018. Levantamento feito pela Gênero e Número, com dados do Censo da Educação Superior mostram que em 2013, 3.876 indígenas acessaram o Ensino Superior. Em 2014 foram 9.018. Em 2016 atingiram o número ainda maior, de 26.062.

Esse ingresso começou a cair em 2018, quando 17.269 indígenas conquistaram uma vaga. A preocupação das lideranças indígenas perpassa a falta de acesso, mas também as dificuldades de permanência dos que conseguem alcançar esse espaço.

 “Se a gente não lutar hoje, quem vai entrar em cinco anos vai passar pela mesma necessidade. Se eu estou sendo beneficiado, qual a minha contribuição para que outros possam ter uma melhor performance? É por isso que continuamos lutando dentro da UEA. Não queremos que outros passem pelas mesmas dificuldades que passamos”, conclui Ludimar Kokama.

Universidade acena em alinhar cotas

Ato contra menos vagas para indígenas na UEA (Foto: Meiam)

Procurada pela reportagem, a assessoria de imprensa da UEA disse que a Gestão Superior da Universidade do Estado do Amazonas recebeu na manhã desta sexta-feira, lideranças indígenas do Amazonas para alinhar demandas referentes ao sistema de cotas no Vestibular e Sistema de Ingresso Seriado (SIS) da UEA, além de questões da Comissão para Articulação de Política Institucional para Alunos Indígenas da universidade.

“Na oportunidade, o vice-reitor da UEA, Cleto Leal, ouviu todas as reivindicações das lideranças e firmou o compromisso de apresentar posteriormente uma definição sobre os assuntos debatidos no encontro. A UEA destaca que sempre esteve aberta ao diálogo com as lideranças indígenas e, principalmente, comprometida em viabilizar os direitos e garantias constitucionais de todos os povos”.

Por: Jullie Pereira
Fonte: Amazônia Real