Esvaziamento do Enem revela a desigualdade no Pará

Jovens contam os desafios de estudar em meio à pandemia do novo coronavírus e o medo de ver o futuro comprometido sem ter escolha

Esvaziamento do Enem revela a desigualdade no Pará
A foto acima mostra o primeiro dia do Enem na Escola Brigadeiro Fontenele, em Belém (Foto: Ricardo Amanajás/Agência Pará)

A jovem Emanuelle Lobato, 17 anos, é um dos nomes por trás da assombrosa estatística de 50% de estudantes paraenses que desistiram de fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) neste ano. Moradora do Distrito de Icoaraci, na região metropolitana de Belém, a aluna da escola pública Emanuelle sentiu-se despreparada e, em cima da hora, optou por não comparecer. Ela e mais dois integrantes de sua família apresentaram sintomas da Covid-19, ainda no primeiro semestre de 2020.

“Foi angustiante ver tanta gente morrendo. E, para fazer a prova, me senti insegura por não ter estudado muito. As aulas virtuais foram boas, mas não são como as presenciais. Com a pandemia, me desliguei da escola.” E, confidencia ela à reportagem, teve medo de ser novamente infectada pelo coronavírus. A prova do Enem aconteceu após a aparição da nova e temida cepa do Brasil.

Apesar do movimento #AdiaEnem, o exame nacional – que permite o ingresso de jovens que concluíram o ensino médio em faculdades e universidades públicas e privadas – ocorreu nos dias 17 e 24 de janeiro, e também em 31 de janeiro e 7 de fevereiro, estes no inédito formato digital. Em todo o Brasil, a desistência ficou em 51% para as provas presenciais e no primeiro fim de semana do Enem digital só três de cada dez candidatos compareceram. 

No Pará, 166.596 dos mais de 320 mil inscritos não realizaram o exame no dia 17, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep). O ministro da Educação, Milton Ribeiro, o terceiro do governo Bolsonaro desde o início da pandemia, chegou a celebrar a realização do exame, relativizando as milhões de desistências de estudantes como a jovem Emanuelle Lobato. Haverá nova prova impressa nos dias 23 e 24 de fevereiro para quem perdeu a primeira aplicação, como os candidatos do Amazonas, que viviam a tragédia humanitária com a falta de oxigênio em Manaus e no interior.

Os dados do esvaziamento do Enem, contudo, não revelam o grave problema da desigualdade que surgirá tão logo as provas sejam corrigidas. Houve jovens que se prepararam adequadamente, enquanto outros mal conseguiram finalizar o ano letivo, ficando pelo meio do caminho do aprendizado. Kassyane Franco Teles da Silva, de 18 anos, estudante da escola estadual Jorge Lopes Raposo, também moradora do Distrito de Icoaraci, fez o Enem “totalmente preparada”. Diferente de Emanuelle, ela não tinha computador com internet em sua casa. O seu aprendizado se resumiu à tela de um celular.

“Na escola, estavam passando as aulas remotas, mas eu não tinha internet suficiente. Ficou meio complicado. As aulas remotas não são a mesma coisa do que as presenciais. Contudo, estamos passando por uma pandemia, então foi o único jeito de tentar aprender pelo menos um pouco”, consola-se a estudante. “Todos queremos um 3° ano sem frustrações. Era importante para a gente. Ainda mais porque seria a nossa saída escolar do ensino médio”, desabafa a estudante, que se sentiu frustrada por não poder estudar e se preparar para o Enem como queria.

Desigualdade no interior ainda maior

Provas do Enem são levadas de Belém para o interior do estado (Foto: Ricardo Amanajás/Agência Pará/16/01/2021)

No interior do Pará, essa realidade é ainda mais delicada. Em Igarapé-Miri, município do nordeste do Pará, a jovem Júlia Corrêa da Silva, de 18 anos, afirma que foi muito complicado concluir no formato remoto o último ano da escola pública Manoel Antonio de Castro. “Quando estourou a pandemia, ea gente começou a saber o que era realmente o coronavírus e o que ele fazia com as pessoas, rapidamente a escola interrompeu o ensino presencial e criou grupos pelo Whatsapp para começar o ensino remoto. Só que nem todo mundo tinha celular. Eu moro em um município muito pequeno e nem todo mundo tem acesso à internet”, lembra. 

Dois anos antes da pandemia, o IBGE foi a campo levantar dados sobre uso de internet para a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua. Em todo o Brasil, 79,1% dos domicílios tinham algum acesso à internet em 2018. No Norte do País, este percentual ficou em 72,1%. Mas foi nas zonas rurais da região amazônica que a desigualdade se revelou abissal: apenas 33,1% das casas nessas localidades tinham acesso à rede mundial de computadores – ante os 61,4% entre os moradores dos interiores do Sul do Brasil.

Júlia Corrêa conta que a escola disponibilizou chips que continham internet, mas que muitos dos seus colegas não tinham celular para acompanhar as aulas remotas. “Ficou muito complicado. Eles nos davam cadernos de questões para a gente completar as coisas. Alguns professores demoravam muito para responder. Ocorreram vários conflitos porque, às vezes, a gente não sabia onde responder as questões. Às vezes, o espaço não dava. Acho que tudo era um pouquinho mal calculado”, relembra.

A sala de aula remota também não foi a mesma na escola Manoel Antonio de Castro. Os professores de Júlia desabafavam sobre a falta de alguns alunos, que eram justamente os que não tinham celular ou estavam trabalhando. Com a crise econômica, muitos tiveram que procurar um emprego para ajudar a família. “Eu sempre tentei ficar ao máximo perto do celular para tentar acompanhar e ler as coisas. Geralmente, estudava à noite, pegava o celularzinho e os professores mandavam texto ou áudios. Eram muitos áudios, pois não tinham como fazer vídeo. Eles (os professores) não tinham suporte. O governo, eu acho que de alguma forma, não ajudou.”

Para o estudo remoto, a mãe de Júlia investiu em um serviço de internet e um celular melhor. Não foi possível adquirir um computador. “É muito caro de comprar. Então, um celular foi mais acessível e conseguiu ajudar bastante”, diz Júlia. Mesmo não se sentindo segura, a estudante fez a prova do Enem, mas diz temer pelo que virá. “O que vai acontecer comigo? Quero estudar, quero ter uma profissão, ‘ser alguém’, ter um emprego bom, mas está muito complicado”, declara. A jovem teme seguir o mesmo destino de muitos que param de estudar no terceiro ano do ensino médio e conseguem um emprego de um salário mínimo em uma loja ou então em um supermercado. “Eu não quero esse futuro pra mim, ser humilhada pelas pessoas e passar por situações desagradáveis.” 

Abandono revela falta de prioridade

Preparação das escolas estaduais para o Enem em Belém (Foto: Alex Ribeiro/Agência Pará/17/01/2021)

O abandono escolar, em todos os níveis educacionais, foi a síntese triste do ensino brasileiro nesta pandemia. O Brasil foi um dos países que manteve as escolas fechadas por mais tempo. Foram liberados bares, restaurantes e shopping centers, mas o Ministério da Educação optou por uma atitude passiva em relação ao ensino presencial. Deixou a cargo de estados e municípios a decisão do retorno, contribuindo para aumentar ainda mais o fosso entre quem estava tendo conteúdos de forma remota e quem só podia fingir que estava aprendendo alguma coisa.

Pesquisa do Datafolha mostrou que 8,6% dos estudantes, de 6 a 34 anos, abandonaram as escolas. Significa que cerca de 4 milhões de brasileiros deixaram de estudar em 2020. Os principais motivos foram a impossibilidade das aulas presenciais e também a falta de estrutura mínima para acompanhar as aulas à distância.

A professora de geografia Eleida Nunes Corrêa, de 40 anos, além de se preocupar em aprender a dar aulas remotas, também tinha de motivar os alunos a não desistirem, mesmo diante das dificuldades. Mesmo com a experiência de 15 anos na docência, desenvolver aulas online foi um desafio para Eleida. Hoje, ela diz ter desenvolvido estratégias para seguir em frente, mas tudo aprendido por conta própria, sem quase nenhum apoio oficial. “Na verdade, eu tive que ser o apoio emocional de muitos alunos e seus familiares. Sempre busquei ser a ‘professora fascinante’, que Augusto Cury fala. O professor que fascina não apenas ministra conteúdo, ele vai além: conta suas histórias de superação para incentivar seus alunos a superarem os seus desafios. Planta sonhos, incentiva-os a realizá-los, busca entender seus conflitos”, ensina. 

Mais do que “fascinante”, Eleida tinha de estar sempre disponível na educação remota. Para a educadora, o adiamento do Enem permitiria mais equidade em relação aos alunos que puderam se preparar para a prova. Nesta pandemia, ela e outros professores de todo o País se sentiram sós, sobretudo com um governo que não valoriza os educadores e uma sociedade que os julga como culpados pelo atual estágio da educação pública. “Um de meus focos é justamente a luta contra as desigualdades sociais, as quais certamente estão sendo agravadas com a pandemia”, destaca a professora de geografia.

Pandemia afeta saúde mental dos estudantes

Jovens esperam para fazer a prova do Enem, em Belém (Foto: Eliseu Dias/Seduc Pará)

A psicóloga clínica e terapeuta cognitivo comportamental Taynara Sena Cardoso, que atende crianças, adolescentes e adultos, lembra que o exame nacional do ensino médio tem um grande significado, sobretudo para a população negra, de baixa renda. “Fazer o Enem é ressignificar um lugar social como ato político. Os fatores sociais que nos fazem abandonar o nosso emprego ou precisar escolher entre trabalhar e estudar, porque precisamos sobreviver, fragilizam 64% da população que é negra, de baixa renda e que tem todos esses direitos de forma reduzida, deficitária”, pontua. 

Nesta pandemia, questões universais acabaram voltando à tona e até se sobressaindo. “Os pais colocam os filhos para estudar, para ter compromisso com as atividades de casa, então fomos moldados a ir para uma sala de aula, a ver um professor, toda essa figura, toda essa representação que precisa acontecer e sentir, de precisar estudar, de estar na escola, no espaço, para estudar. Mas isso tudo foi restringido”, explica a psicóloga.

Taynara acredita que outro fator, um que não se aplica somente aos estudantes, é a questão das nossas crenças sobre a vida que cada um possui, na crença de desamor e desamparo. “Isso tudo influencia na maneira como a gente vive e recebe o mundo”, diz. E ela questiona quais são as crenças sobre a capacidade que os jovens que não se sentem preparados têm em relação a fazer uma boa prova do Enem.

Para governo, vínculo foi mantido

Aluno da rede pública estadual em atividades não presenciais Foto: Agência Pará)

A Secretaria de Estado de Educação (Seduc) do Pará garantiu que, apesar da pandemia, o vínculo entre aluno-professor foi mantido, por meio do movimento “Todos em Casa Pela Educação”. com áudios como o Seducast, as vídeo-aulas transmitidas pela TV Cultura, a plataforma educacional Enem Pará, o Para Casa, os cadernos de atividades estruturantes (impressos e virtuais), e os chips de internet com franquia de 20 gigabytes para os concluintes do ensino médio.

Para a agência Amazônia Real, o governo estadual informou por intermédio da Assessoria de Comunicação, que atendeu de “forma isonômica todas as unidades de ensino da rede estadual, para assegurar que todos os 576 mil alunos da rede tivessem acesso aos conteúdos programáticos disponibilizados pela Seduc”. Outra ação promovida, segundo a nota da secretaria, foi a oferta de cursos aos profissionais da educação pública pelo Centro de Formação dos Profissionais da Educação Básica do Estado do Pará (Cefor). “Cerca de 15 mil educadores fizeram o curso de formação continuada, a fim de levar ao alunado um aprendizado de qualidade e minimizar os impactos da pandemia”, afirma.

A secretaria afirmou que neste ano de 2021 o retorno às aulas depende do cenário epidemiológico do estado, que no momento se encontra com “embandeiramentos diferenciados”. A Seduc adotará o formato de “currículo continuum”, conforme a Resolução nº 020/2021, aprovada pelo Conselho Estadual de Educação (CEE). Como houve defasagem nos aprendizados, alunos que passaram de ano terão também conteúdos da série que cursou em 2020.

Abertura dos portões de escola, em Belém, para prova do Enem (Foto: Eliseu Dias/Seduc Pará/17/01/2021)

Por: Vivianny Matos
Fonte: Amazônia Real

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