Ex-governador que atraiu grileiros para o Acre é homenageado na Câmara

Além do arenista Francisco Wanderley Dantas, responsável por transformar seringais em pastos durante a ditadura, “Prêmio Mérito Agropecuário” será entregue a outras dez pessoas e organizações, entre elas a ministra Tereza Cristina e a CNA

Dantas foi deputado federal pela Arena, partido de sustentação da Ditadura Militar

O ex-governador do Acre Francisco Wanderley Dantas, que deu início à conversão de seringais em pastos para a pecuária, nos anos 70, será um dos homenageados na Câmara com o Prêmio Mérito Agropecuário. A cerimônia acontece nesta quarta-feira (27), às 10h, com transmissão pelo YouTube.

Dantas foi deputado federal pelo PSD e pela Arena, partido de sustentação da ditadura, até ser escolhido por Emílio Garrastazu Médici para assumir o Executivo estadual. Durante sua gestão, ele atraiu grileiros sulistas e sudestinos — geralmente chamados de paulistas na região — com o slogan “o Acre é um sertão sem secas e um sul sem geadas”.

Registro de Wanderley Dantas no site da Câmara. (Foto: Arquivo)

Para chamar a atenção também dos mercados asiáticos, a campanha encabeçada por ele fazia referência da proximidade geográfica com o Oceano Pacífico. “Em curtíssimo período de tempo, uma vaga de compradores de terras, pecuaristas, especuladores, grileiros e outras personagens que acompanham as frentes de expansão pioneiras mudaram a face da propriedade das terras acreanas”, como mostra artigo de João Correia no portal ac24horas.

Na justificativa, a Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Casa argumenta que o político, morto em 1982, implantou no estado uma agricultura “com sólida base técnica, estudo do terreno amazônico, produção em escala e implantação da pecuária com genética de ponta”.

Em 2011, o Terra Magazine contou a história do empresário Falb Saraiva de Farias, conhecido como o maior latifundiário do mundo, que se tornou cicerone dos “paulistas” e corretor de imóveis no Acre justamente no mandato de Dantas.

O megagrileiro chegou a ser preso dez anos antes, após prestar depoimento na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Grilagem. O texto foi reproduzido na página do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Farias relatou ao veículo de imprensa que comprou o espólio de uma viúva e que tinha de 6 a 7 milhões de hectares “bem documentados”. “Documentos de 1800 e não sei quanto”, afirmou.

“Naquela época, aparecer alguém interessado em comprar terra no Acre era a melhor notícia”, lembrou. “A terra não tinha valor, os seringalistas estavam falidos e endividados. Pois bem, prontamente falei que era dono de um seringal”.

MINISTRA DA AGRICULTURA É APRESENTADA COMO DEFENSORA DO AMBIENTE

Conforme a Agência Câmara de Notícias, o prêmio é concedido a cidadãos ou instituições, públicas ou privadas, cujos trabalhos ou ações “tenham se destacado nos campos científico, de pesquisa, de desenvolvimento, de inovação e de sustentabilidade na área da agricultura, pecuária, abastecimento e desenvolvimento rural”. Ele leva o nome do ex-deputado mato-grossense Homero Pereira, que foi líder da bancada ruralista e presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA).

A ministra da Agricultura, Tereza Cristina Corrêa da Costa Dias, também ex-presidente da FPA, está entre as homenageadas. Apelidada de “Senhora Desmatamento” pelo jornal francês Le Monde, ela é apresentada como “responsável por diversos programas nas áreas de exportação, sustentabilidade, preservação do meio ambiente e inovação tecnológica”.

Tereza Cristina e Bolsonaro. (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

Na série Esplanada da Morte, que destrincha o papel de cada ministro no governo genocida de Jair Bolsonaro, o observatório destacou que, durante a fase mais aguda da pandemia, a chefe do Mapa minimizou os surtos de Covid-19 nos frigoríficos, mesmo diante do fechamento de plantas, como forma de incentivar as exportações.

Tereza Cristina recebeu doações de campanha da JBS (com quem depois ela entrou em litígio) e de outros fazendeiros sul-mato-grossenses, igualmente produtores de gado bovino, incluindo um acusado de ser o mandante do assassinato de um indígena.

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), uma das principais financiadoras da FPA, encabeça a lista de organizações agraciadas, ao lado da Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra). “O Instituto CNA desenvolve tecnologias produtivas alternativas e divulga informações técnicas e científicas para o meio rural”, diz o release do prêmio.

Por:  Mariana Franco Ramos
Fonte: De Olho nos Ruralistas