Extração de ipês acompanha grandes frentes de desmate ilegal na Amazônia

  • A retirada da madeira mais cara da floresta equatorial sul-americana acompanha as maiores frentes de desmatamento criminoso na Amazônia brasileira.
  • Os 20 municípios que mais extraem ipês já somam no primeiro semestre deste ano uma área do tamanho do município de São Paulo (SP) em alertas para derrubadas da floresta.
  • Concessões fiscalizadas pelo poder público entregam apenas 2% das madeiras nativas que chegam aos mercados; no restante, pairam suspeitas de ilegalidade.

Áreas onde ipês são mais explorados ilegalmente estão em frentes onde dispara o desmate da Amazônia. Maiores consumo interno e exportações estimulam o corte da espécie ameaçada de extinção e levam a destruição para dentro da floresta, já que o manejo autorizado por órgãos públicos não atende às demandas do mercado.

Mais de 80% do ipê que chega aos mercados vêm de 20 municípios que, como levantou a Mongabay, somavam 159,6 mil hectares em alertas para desmates de janeiro ao início de julho – área pouco maior que a do município de São Paulo (SP). A lista inclui líderes em derrubadas como Altamira (PA), Colniza (MT), Lábrea (AM) e Porto Velho (RO).

Na prática, a busca por ipês avança a partir do Arco do Desmatamento, onde já são raros ou foram eliminados, sobre áreas públicas e protegidas, aponta o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora).

Evolução geográfica da fronteira madeireira na Amazônia brasileira, destacando os principais polos de produção em 1998 (A) e em 2018 (B). Imagem: Lentini et al.

Em média, apenas 0,5 metro cúbico de madeira de ipê é extraído de cada hectare de floresta. “Por isso, a ‘garimpagem’ da árvore adentra a Amazônia. Corte, transporte, crimes ambientais e trabalhistas, comércio e perdas em arrecadação de impostos são semelhantes às da mineração ilegal de ouro”, ressaltou Marco Lentini, coordenador de projetos do Imaflora.

A exploração do ipê é mais forte no norte e oeste paraenses, noroeste do Mato Grosso, norte de Rondônia e sul do Amazonas. As duas últimas regiões estão na Zona de Desenvolvimento Sustentável Abunã-Madeira, na zona de influência da BR-319, onde tanto o setor privado quanto governos federal e de estados amazônicos querem mais agronegócio. A região é um dos maiores focos de grilagem de terras e de desmatamento para formação de pastos da Amazônia brasileira.

“O valor do ipê estimula e financia derrubadas e outros crimes”, destacou Lentini. A bela e resistente madeira é a mais cara da floresta sul-americana. Um metro quadrado vale hoje o equivalente a R$ 15 mil em mercados globais, onde serve para pisos e móveis. O Brasil responde por quase todo (96%) o ipê usado no mundo, mostra relatório da Forest Trends. Mas o consumo interno é outro grande vilão.

Maior controle sobre a origem do ipê, exigido por grandes compradores na União Europeia e Estados Unidos, pode ter reduzido em 60% as exportações de madeira serrada entre 2007 e 2019. No mesmo período, porém, a extração mais do que duplicou na Amazônia, o que indica que consumidores brasileiros podem ter absorvido o excedente. E a procura cresceu 15% durante a pandemia de covid-19, sobretudo pela construção civil no Sul e Sudeste.

Tudo se torna mais dramático porque um levantamento de ONGs mostrou que, sem transparência e dados públicos confiáveis, é impossível separar a produção autorizada da ilegal em cinco dos sete estados que mais extraem madeiras da Amazônia, incluindo ipês. O estudo levanta uma alta suspeita de que crimes acompanham a grande maioria dos produtos consumidos no país ou exportados.

O manejo licenciado e fiscalizado é a grande aposta para a sobrevivência do ipê e da Amazônia. Foto: Bruno Kelly / Imaflora

Como conter a derrubada

Frear a tendência de extinção do ipê depende de ações mais duras contra extrações ilícitas, o aproveitamento de outras árvores e, para atender à demanda atual, a ampliação do manejo da espécie. Segundo estimou o Imaflora, seria necessária uma área mínima de manejo florestal de 16 milhões de hectares — seis vezes mais que os atuais 2,5 milhões de hectares sob concessões e empreendimentos certificados nas esferas federal, estadual e municipal. O manejo é a exploração madeireira em lotes intercalados ao longo de até 30 anos, dando tempo para a vegetação se recuperar.

“Estudos mostram uma boa recuperação da floresta desde dois anos após o manejo. Ele gera emprego e renda, mantém a biodiversidade e evita o corte raso, que emite carbono substituindo ambientes naturais por pastagens e monoculturas”, ressaltou o diretor de Concessões Florestais e Monitoramento do Serviço Florestal Brasileiro (SFB), Paulo Carneiro.

Hoje, há 21 concessões federais em florestas públicas na Amazônia. Até meados do ano que vem, o governo quer ampliar as autorizações federais para manejo de pouco mais de 1 milhão de hectares para 4 milhões, um salto de 300%. As ofertas previstas englobam áreas no Norte e Sul do país e permitirão até a exploração de turismo e do mercado de créditos de carbono, para enfrentar a crise climática.

O diretor da Associação Brasileira das Concessionárias Florestais, Daniel Bentes, avalia que o potencial de manejo no país é ainda maior. “As concessões entregam apenas 2% da produção nacional de madeira nativa. É pouco se comparado ao potencial de 35 milhões de hectares para manejo florestal de nativas”, disse. Nos 98% restantes, pairam suspeitas de ilegalidade.

A área potencial para manejo florestal autorizado no país seria de 35 milhões de hectares. Foto: Vicente Sampaio / Imaflora

Mas ampliar o mercado para madeiras nativas manejadas depende da contenção de fraudes na extração e na comercialização do ipê e de outras espécies. Análises de entidades civis, como a do Greenpeace, mostraram que empresas inflam a quantidade de árvores por hectare e os percentuais de toras convertidas em madeira serrada para vender produtos retirados de Unidades de Conservação e de Terras Indígenas.

“Combater essa situação depende da automatização de sistemas e da redução da influência humana sobre processos e informações. Sem isso, empresas e comunidades que praticam o manejo florestal e contribuem para a conservação da Amazônia e de outros biomas continuarão a ser associadas com práticas ilegais e sofrendo com uma concorrência ilegal que não valoriza o recurso florestal brasileiro”, destacou Bentes.

Usar outras madeiras nativas igualmente conterá a pressão sobre árvores mais visadas. Apenas dez espécies somam 80% da madeira que sai da Amazônia, como ipê, maçaranduba, angelim, jatobá e cumaru. “Tentamos fomentar o uso de outras madeiras nas concessões, mas o mercado não aceitou. É difícil convencer quem quer um deck de ipê a comprar outra espécie”, reconheceu Carneiro, do SFB.

Imagem do banner: Toras de árvores amazônicas aguardam seu destino. Foto: Vicente Sampaio / Imaflora

Por: Aldem Bourscheit
Fonte: Mongabay