Falta de energia compromete atendimento de saúde no Amapá

Uma semana depois do apagão, bairros seguem sem luz e água. População tem saído às ruas correndo o risco de se contaminar no meio da pandemia. Nos hospitais há falta de leitos para os doentes

Falta de energia compromete atendimento de saúde no Amapá
(Foto Dida Sampaio/Estadão Conteúdo)

As desesperadoras cenas da primeira noite de apagão no Amapá permanecem vivas para Lizandra Sanches. Moradora de aluguel no bairro do Beirol, na capital Macapá, ela pouco podia fazer para acalmar a filha Aila, de 2 anos, que chorava muito, assustada com os relâmpagos e trovões. Na escuridão, a menina queria colo, abraços e beijos da mãe. Mas Lizandra está contaminada com a Covid-19. Por ser asmática, teve uma crise que a fez procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS), onde descobriu estar ainda contaminada. Os médicos alertaram que ela continua transmitindo o coronavírus e precisa de repouso absoluto e se isolar.

“Essa doença é maldita, complicada, a gente não conhece ela, mas ela conhece o nosso corpo e estava esperando algo para se segurar. Achou a minha asma. Estou me sentindo muito mal, muitas dores no peito, moleza no corpo. Parece que não vou conseguir levantar, que o vírus está me atacando mais uma vez, provavelmente tentando chegar no meu pulmão, pois a minha asma está atacando demais”, relatou Lizandra, que confidencia como é difícil estar com uma “sensação horrível de morte”. “Olhar para as minhas filhas me faz acreditar que não, é só uma fase difícil e uma doença, algo que vou vencer e vamos comemorar juntas, só isso.”

Histórias tristes e marcantes começam a emergir de milhares de pessoas que moram no Amapá, muito delas em relatos nas redes sociais. Negligenciadas pelo poder público, essas pessoas revelam o desespero vivenciado, em especial, por aqueles que residem nas periferias. A interrupção no fornecimento de energia elétrica completa uma semana nesta terça-feira (10). A falta de água, fundamental para conter a disseminação do vírus, prossegue. 

Com o apagão, Lizandra, que é mãe também de Fernanda, de 5 anos, teve de parar de trabalhar, pois seus rendimentos vêm por meio de um site de vendas de produtos femininos. Sem energia, água e, mesmo sendo do grupo de risco, teve de atravessar as ruas à procura de vizinhos mais próximos para pedir apoio. “Complicado não poder sair, depender de alguns amigos que trazem comida, alimentos, remédios ou algo que precise, porque não posso ir para o sereno, pegar sol, andar muito, fazer esforço algum”, afirmou.

Diante da falta de água e luz, e uma internet com conexão precária na maioria das cidades, os amapaenses saíram às ruas nesses últimos dias, isso gerou aglomerações em plena pandemia. Profissionais de saúde relatam que atendimentos de pessoas em estado grave vêm aumentando nos hospitais e UBS. Desde 3 de novembro o governo não divulga o boletim epidemiológico da Covid-19. No dia 4 de novembro o Ministério da Saúde apontou 52.832 casos confirmados e 751 mortes no estado. No dia  10 os dados foram atualizados: há no estado 53.574 casos confirmados, ou 1,2 novas notificações, e 766 óbitos por coronavírus. A letalidade é de 1,4%, inferior à dos estados do Amazonas (2,8%) e Pará (2,6%).

Mesmo com a população enfrentando tantos problemas, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-AP) confirmou a realização das eleições municipais neste domingo, 15 de novembro. Segundo  órgão, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) cederá baterias novas para as urnas eletrônicas. 

A precariedade no sistema de energia

Militares transportam geradores para solucionar o apagão (Foto: governo do Amapá)
Protestos no bairro de Santa Rita em 07 de novembro de 2020
(Foto: Rudja Santos/Amazônia Real)

O cronograma de rodízio de energia divulgado pela Companhia de Eletricidade do Amapá – CEA apresenta falhas e a população denuncia a distribuição desigual, pois não cumpre o tempo estipulado. Em alguns bairros periféricos reduzem a duração para menos de 2 horas; já em outros, atrasam o fornecimento ou segue de 0h às 6h todos os dias, prejudicando a rotina de milhares de amapaenses, enquanto privilegiam conjuntos e residenciais com energia 24 horas. 

A transmissão da energia no Amapá é de responsabilidade da empresa responsável pela Linhas de Transmissão do Amapá, que o final de dezembro de 2019 era gerida pela espanhola Isolux Corsán, que enfrenta problemas judiciais e dificuldades financeiras, segundo reportagem da revista Veja. 

A Gemini Energydivulgou uma nota à imprensa informando que “procurava engenheiros, técnicos e especialistas para realizar a manutenção de seus ativos há menos de dois meses do colapso no Amapá”. Na noite do dia 3 de novembro, durante uma tempestade, um transformador da subestação, em Macapá, sofreu uma explosão, seguida de incêndio, o que danificou mais outro transformador em operação. “As apurações técnicas acerca do ocorrido ainda estão em curso”, diz a empresa, que não tinha um transformador de reserva, pois o equipamento estava em manutenção.   

O apagão atingiu mais de 700 mil habitantes de 13 dos 16 municípios, incluindo a população da capital, que tem mais de 500 mil moradores. No total, o estado tem 860 mil habitantes, segundo projeção do IBGE/2020. Há uma semana a população protesta em vários municípios.

Adversidades que se interligam

UBS Mar Abaixo, em Macapá (Foto: Prefeitura de Macapá)

Enfermeira obstetra há 20 anos, Ediane Andrade avaliou 2020 como um ano de muita superação para os profissionais da saúde. Embora não tivesse de plantão no dia do apagão, ela ouviu relatos impressionantes. “No momento em que teve o raio e apagou todas as luzes, estava acontecendo dois nascimentos e foi aquela correria. Os colegas utilizaram as luzes de seus celulares para darem continuidade ao procedimento”, disse.

Ela conta que, por cerca de uma hora, a Maternidade Mãe Luzia ficou sem energia. “E a sensação para muitos era de que o mundo iria acabar, comparada a uma cena de filme de terror naquela noite (3 de novembro)”, afirma.

No dia seguinte ao do apagão, a energia foi priorizada nos hospitais com geradores. Emocionada, Ediane desabafou sobre o que pensa do atual momento. “O mais difícil é nos sentirmos isolados de fato do mundo, inclusive do Brasil. E vem a recomendação que não pode ter aglomeração. Mas como não vai ter aglomeração em uma cidade que todo mundo está com medo de ficar sem comida, influenciando a rotina de todos?”, questionou. 

A técnica em enfermagem Annyele Carvalho trabalha em um hospital particular da cidade de Macapá. Durante esses dias, pode observar a presença de muitas grávidas confusas, achando que poderiam estar em trabalho de parto, segundo a profissional, possivelmente pelo intenso calor ocasionado pela falta de energia elétrica ou pelo abalo psicológico que estão sofrendo com a situação alarmante que o estado se encontra. 

Annyele também exerce a profissão de doula. Em entrevista à reportagem, disse que está acompanhando quatro gestantes. “Tentei manter contato com as outras grávidas que acompanho, mas em toda a cidade ficamos sem rede de telefonia a maior parte do tempo. É frustrante você tentar comunicação com uma pessoa que você sabe que pode estar precisando e não conseguir.” 

A agência Amazônia Real entrou em contato com o Sindicato de Enfermagem e trabalhadores da Saúde do Amapá (Sindsaúde) e com o Conselho Regional de Medicina (CRM-AP). As duas instituições não retornaram para apontar suas perspectivas diante da atual realidade da saúde no estado do Amapá. 

O que dizem as autoridades

População protesta contra o apagão em Macapá (Foto: Rudja Santos/Amazônia Real)

O governo do Amapá e a Prefeitura de Macapá não se pronunciaram sobre a situação da saúde no estado, mas emitiram decretos nesta terça-feira (10) em que assumem o aumento de casos de Covid-19 e os problemas no atendimento nas unidades de saúde, além de fazerem restrições mais rígidas com relação ao combate e prevenção da doença.

O decreto n.º 3885, assinado pelo governador Waldez Góes (PDT), afirma que “a elevação do atendimento, a dispensação de medicamentos nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e o aumento de casos de internação por força do agravamento de saúde acarretada pelo contaminação da Covid-19”.

A decisão seguirá até o dia 17 de novembro e também atende a recomendação conjunta da Procuradoria Regional do Estado e da Procuradoria Geral de Justiça para evitar o aumento do número de casos de Covid-19 no âmbito estadual e municipal durante o período da campanha eleitoral, que no domingo (15) acontece o primeiro turno das eleições.

A Prefeitura de Macapá publicou mais dois decretos municipais: 3.486/2020 e 3.485/2020; em que determinou a prorrogação da suspensão de todo tipo de atividade política de campanha eleitoral, assim como suspendeu o funcionamento presencial em bares, boates, atividades esportivas em academias, esportes de contato e ao ar livre, válidos por sete dias.

Desde 16 de março, a promotora da Saúde Fábia Nilce acompanha diariamente o quantitativo de ocupação de leitos dos hospitais públicos e privados. Segundo ela, foi instaurado um procedimento para acompanhar as políticas públicas direcionadas tanto pelo município de Macapá como pelo estado relacionadas ao enfrentamento do coronavírus.

Ela disse que foi formado um grupo de trabalho interinstitucional, composto pelo Ministério Público do Trabalho, Ministério Público Federal, Defensoria Pública da União e do Estado. O grupo compara a dinâmica de enfrentamento à Covid-19 pelos órgãos públicos e faz as devidas cobranças, por meio de recomendações ou de ações, como nos meses de abril e maio, em que não havia insumos suficientes para entubar os pacientes e o número de leitos eram reduzidos.

“Hoje, em que pese tenha ocorrido o apagão, nós já estávamos em conversa com o estado e município, que desde o dia 11 de outubro, foi visualizado pelos boletins epidemiológicos, que são apresentados a cada sete dias, tanto pelo estado como pelo município, um crescimento de números de casos de Covid-19, tanto taxas de positivação, procuras nas UBS e hospitalização. Nós já estávamos fazendo as nossas cobranças quanto ao aumento de leitos. No dia 25 de outubro, nós fizemos uma recomendação ao estado para que ampliassem os leitos de UTI, no hospital universitário”, disse.

A promotora da Saúde Fábia Nilce salienta que o número de leitos no Hospital Universitário não chegou ao número anunciado pelo Estado ainda. “A capacidade é 188 leitos, hoje nós temos 112 ativos, com a possibilidade de ainda hoje à noite ou amanhã (11) de manhã estar ativo mais 12 leitos. Se não forem implementados, provavelmente o Ministério Público terá necessidade de ajuizamento de ação”, afirma.

Distribuição de água na crise de energia (Foto Prefeitura de Macapá)

Por: Bianca Andrade
Fonte: Amazônia Real

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *