Fórum de lideranças Yanomami e Ye’Kwuana cobram saúde e fim do garimpo

Mães sofrem com a morte de seus filhos e lideranças denunciam ameaças que sofrem de garimpeiros e o colapso que toma conta da TI Yanomami. (Foto: Yolanda Mêne/Amazônia Real)

Para marcar o encerramento do II Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’Kwuana, um ato foi realizado na manhã desta quarta-feira (8) em frente à estátua do Monumento ao Garimpeiro, levando faixas escritas com os dizeres “Nossa Luta é pela Vida” e “Fora Garimpo, Fora Xawara”. Simbolicamente, os indígenas apontaram flechas contra a estátua. Mais de 70 lideranças indígenas de sete associações da Terra Indígena (TI) Yanomami participaram do evento, ocorrido entre 4 e 7 de setembro na região da Tabalascada, município do Cantá, ao norte de Roraima. O fórum de lideranças indígenas entregou duas cartas a autoridades no estado.

“Estamos sofrendo muito na Terra Indígena Yanomami, nosso território está sendo ameaçado pelo governo brasileiro. Nós queremos operação na Terra Indígena Yanomami e a saúde está precária. O marco temporal também é ilegal, querem tirar nossos direitos já garantidos. Isso é ilegal e todos nós lideranças somos totalmente contra”, disse Elizeu Yanomami, presidente da Texoli Associação Ninam. 

Durante a manifestação pública de quarta-feira, os indígenas caminharam no volta do Centro Cívico e seguiram pelas ruas da capital Boa Vista. Os documentos que levavam cobram apoio na saúde indígena e retirada de garimpeiros da TI Yanomami ao Ministério Público Federal, Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami (Dsei-Y) e Fundação Nacional do Índio (Funai). 

A primeira parada durante a caminhada foi no Dsei-Y, mas  ao chegar no prédio as lideranças indígenas não encontraram o coordenador, Rômulo Pinheiro de Freitas. Eles entraram no edifício para tentar entregar o documento à autoridade.

“Isso é uma vergonha. Ele fugiu para não nos atender. Só estamos aqui para cobrar nossos direitos. Nosso povo está morrendo, nossas crianças estão morrendo, merecemos uma saúde de respeito, que atenda nosso povo, não precisa fugir da gente, nossa luta não acaba aqui”, afirmou Elizeu Yanomami. A Amazônia Real entrou em contato com o Dsei, mas até a publicação desta reportagem não houve resposta.

Indígenas Yanomami realizaram um protesto pelas ruas de Boa Vista, capital de Roraima, na manhã de quarta-feira (8/9) contra os garimpos ilegais em seu território.(Foto: Yolanda Mêne/Amazônia Real)

As lideranças prosseguiram até a Funai e protocolaram os documentos. “Esse órgão tem que trabalhar para nós, para todos os povos indígenas, têm que cumprir com seu papel. Estamos abandonados, ameaçados e não vemos nenhuma atitude da Funai para nos defender, para nos ajudar. Nós estamos revoltados porque as autoridades estão brincando com a vida do povo Yanomami, estão brincando com nossa saúde, eles estão deixando nosso povo morrer”, protestou Alfredo Himotona Yanomami.

O coordenador regional da Funai, Osmar Tavares, garantiu que o órgão encaminhará os documentos do fórum de lideranças indígenas. “Vamos submeter esses documentos aos órgãos centrais da Funai em Brasília, e a resposta que nós recebemos repassarei para as lideranças. As portas desta da Funai estarão sempre abertas, vamos dialogar sempre com os povos indígenas, estamos aqui para receber e atender as demandas conforme encaminhamento  do órgão central”, disse à Amazônia Real.

Sentada na calçada em frente à Funai, a liderança Ana Lice Yanomami, da região do Baixo Mucajaí, confidenciou à reportagem que se entristece de ver que quem deveria defender os povos indígenas faz o contrário e não presta assistência básica. “Esse órgão era para nos defender, eu fico triste porque é o nosso futuro que está em jogo, não é o futuro dos brancos, e o futuro do meu povo, das minhas crianças, a Funai não chama a gente pra conversar, estamos sendo atacados todo dia pelos garimpeiros, mesmo assim nada é feito”, desabafou. 

Quem também recebeu os documentos foi o Ministério Público Federal. “Estamos aqui para falar contra a PL 490, que quer estragar nossa floresta, estragar nosso rio, matar nossos peixes e destruindo o meio ambiente, eu sou contra o marco temporal, eu não quero o marco temporal, a saúde que é fundamental não está funcionando direito. A Sesai e distritos, eram pra melhorar nossa saúde, mas não está melhorando. Viemos aqui pra falar e entregar documento e pedir que as autoridades se reúnam, falem com o governo federal para mandar retirar os garimpeiros imediatamente da Terra Yanomami”,  disse o líder Davi Kopenawa Yanomami, xamã e porta-voz do povo Yanomami

Saúde em colapso

Indígenas Yanomami realizaram um protesto pelas ruas de Boa Vista, capital de Roraima, na manhã de quarta-feira (8/9) contra os garimpos ilegais em seu território. (Foto: Yolanda Mêne/Amazônia Real)

O documento elaborado pelo II Fórum de lideranças Yanomami e Ye’Kwuana traz uma grave denúncia: a saúde desses povos indígenas entrou em colapso. Muitas comunidades não estão tendo atendimento porque as equipes não aparecem. “Estamos muito revoltados. Estamos enfrentando diarreia, verminoses, leishmaniose, pneumonia, tuberculose, malária, sem ter diagnóstico ou medicação, além de doenças que nós não conhecemos No Marauiá e no Palimiu, muitas pessoas apresentam diarreia com sangue e não estão indicando tratamento”, alerta o documento entregue às autoridades. 

“Temos ficado meses sem receber ninguém da equipe de saúde,  as equipes diminuíram e o problema aumentou, na comunidade Xitei tem subpolos que não estão sendo atendidos porque o Dsei-YY não fez a licitação regular para voos de helicóptero, e não sabemos como está a saúde dos Yanomami lá,  em Mokorosik. No pólo base Parima, não tem visita tem mais de um ano, não houve vacinação contra a COVID-19 e o Dsei-YY não manda profissionais”, prossegue o documento. 

E, mesmo nas comunidades que recebem atendimento, as equipes chegam sem nenhum equipamento e faltam remédios básicos. As comunidades Novo Demini, Xihopi, Toototopi e no Marauiá não recebem mais visitas médicas. Embora a TI Yanomami tenha sido entupida pelo governo com cloroquina, o remédio indicado para tratar a malária – e não a Covid-19 -, os indígenas afirmam que pararam de receber os medicamentos e outras formas de combate à doença forma interrompidos, como a borrifação e a busca ativa. “No Korekorema, de 150 casos de malária no início de 2020, apenas 10 pessoas receberam medicamentos, no Baixo Mucajaí, as pessoas dividem os medicamentos de malária porque não tem suficiente”, informa o documento elaborado pelo fórum de lideranças indígenas. 

Quando os indígenas saem de suas comunidades em busca de atendimento na cidade, o descaso é o mesmo, segundo a denúncia do fórum de lideranças: “Na cidade, as equipes de saúde dizem que os próprios Yanomami devem comprar os medicamentos para o nosso tratamento, no Ajuricaba, a equipe de saúde se recusou a nos atender dizendo que não podiam pegar coronavírus, há muitos anos os coordenadores prometem a abertura de poços artesianos e a melhoria da infraestrutura dos postos, mas hoje, o que estamos vivendo é o abandono completo. Os postos de saúde de muitas comunidades estão com a estrutura comprometida, isso acontece no Haxiu, no rio Marauiá, no rio Mucajaí, e também em outras regiões”. 

O presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena (Condisi), Júnior Hekurari Yanomami, denunciou que em muitas comunidades faltam vacinas contra a Covid-19, agravando uma falta de assistência que se estende para outras áreas. “Temos um coordenador que não tem compromisso com a saúde Yanomami. A população Yanomami, principalmente as crianças, estão morrendo muito. O descaso é muito grande”, afirmou.

Mortes de crianças

Crianças Yanomami (Foto reprodução Instagram Júnior Hekurari/@hekurari08)

Neila Paliwithele, da comunidade Palimiu, contou à Amazônia Real o sofrimento enfrentado pelas mães Yanomami. “Estão morrendo nossas crianças, as mães quando estão grávidas não têm atendimentos, nossas crianças nascem fracas e não suportam as doenças de malária, febre, diarreia. Tem que ser feito algo, quem está chorando são as mães Yanomami, porque estão morrendo seus filhos, suas crianças”, contou.

O documento elaborado pelas lideranças, na comunidade Kayanau, aponta que 12 crianças morreram em 2020. No Baixo Catrimani, foram 2 crianças mortas este ano por pneumonia. No Palimiu, foram 13 crianças entre 2020 e 2021, de diarreia e pneumonia. No Surucucu, 54 pessoas morreram em janeiro após o pólo-base ficar 30 dias fechado. No Haximu, 4 crianças morreram neste ano. 

“Não somos ignorantes. Não podemos aceitar que nossos parentes continuem morrendo sem atendimento de saúde. O sofrimento é muito grande. Vocês pensam que é fácil falar dos nossos netos e filhos que estão morrendo? Nós não queremos falar dos nossos mortos. Nós não queremos mais mortes nas nossas comunidades. Exigimos respeito às nossas vidas”, diz o documento assinado por mais de 70 lideranças do povo Yanomami e Ye´Kwarera.

No Baixo Mucajaí, foram 3 mortes de crianças este ano. No Marauiá, 4 crianças morreram de malária em 2020 e 2021. No Korekorema, 3 crianças morreram de pneumonia em 2020. No Keeta, 5 crianças morreram entre maio e julho por falta de atendimento. No Homoxi, uma criança Yanomami morreu em maio porque foi negado o atendimento por ter nacionalidade venezuelana. 

“Por que só os nossos filhos têm que morrer? Eu fico revoltada, por isso estou nessa luta com as lideranças, não quero mais vez as mães Yanomami chorar, tudo isso tem que acabar. As autoridades tem que cuidar do nosso povo, oferecer medicamentos, atendimento. Só queremos o que temos direito, não estamos pedindo nada de mais, estamos lutando pelo essencial, a vida dos nossos filhos, lutamos pelo futuro do nosso povo”, finalizou Leila, com os olhos lagrimando.

Destruição do garimpo 

Dário e Davi Kopenawa no protesto pelas ruas de Boa Vista, capital de Roraima, na manhã de quarta-feira (8/9) contra os garimpos ilegais (Foto: Yolanda Mêne/Amazônia Real)

“Antes era tudo lindo, tudo limpo. Agora, nesse ano, a  água virou lama. O  garimpo ilegal está se espalhando na nossa terra. Ee chegou em lugares onde a gente não pensava que ia chegar, agora o peixe não enxerga nada,  ficamos preocupados porque o peixe tem mercúrio e não queremos envenenar nossas crianças e adultos,  agora o garimpo está expulsando nossa caça”, lamentam as lideranças Yanomami, apontando a origem da maioria dos problemas que afligem os indígenas.. 

O Fórum de Lideranças da TI Yanomami cobra fiscalização permanente pelos órgãos responsáveis. Sugerem que haja fiscalização sobre os postos de combustível que abastecem os garimpos, na circulação nas estradas, dos aviões e helicópteros que trabalham para os garimpeiros  e os  portos que dão acesso à TI Yanomami pelos rios e pistas de pouso. Pedem também que a destruição de todos os equipamentos e sistemas de comunicação, como internet e satélite, além de investigação dos empresários que financiam o garimpo ilegal. 

“Os garimpeiros não estão de brincadeira, além da destruição da natureza eles estão todo dia nos ameaçando, eles andam com fotos das lideranças. Eles têm minha foto, já apontaram 10 armas para mim falando que iam me matar. Eles estão em todos os lugares, com nossos nomes e fotos, estão na terra indígena, mas tem muitos deles na cidade também. Algo precisa ser feito urgente, estamos resistindo, mas eles estão querendo guerra”, afirmou à Amazônia Real uma das lideranças, que por motivos de segurança, não será identificada.

Para baixar mais imagens desta reportagem acesse nosso Flickr

Por: Ana Lucia Montel
Fonte: Amazônia Real