Garimpeiros invadem UC em Roraima atrás de fiscais do ICMBio; brigadistas foram mantidos reféns

Armados e encapuzados, oito garimpeiros fizeram três brigadistas reféns, roubaram equipamentos apreendidos em operação de fiscalização e ameaçaram analistas ambientais

Paisagem da Estação Ecológica de Maracá, em Roraima. Foto: Benjamim da Luz.

Um grupo formado por oito garimpeiros invadiu, na tarde de segunda-feira (31), a Estação Ecológica de Maracá, localizada entre os municípios Alto Alegre e Amajari, no norte de Roraima, e fez três brigadistas reféns. Os criminosos estavam fortemente armados e foram à unidade atrás de ferramentas apreendidas durante uma operação de fiscalização no local, ocorrida há duas semanas. Segundo relato de servidores, os garimpeiros ameaçaram matar qualquer um que fosse fiscal do ICMBio, mas não havia nenhum na sede da unidade no momento da invasão. 

Houve o roubo de 05 quadriciclos, 08 motores de popa e outros materiais apreendidos e de patrimônio da unidade. A Estação Ecológica (Esec) de Maracá é a primeira Esec do país e foi criada em 1981. Abriga um arquipélago com mais de duzentas ilhas, entre elas, a ilha Maracá, a terceira maior ilha fluvial do Brasil, onde fica a sede. A unidade é vizinha da Terra Indígena Yanomami e as duas áreas estão separadas pelo rio Uraricoera. É na terra dos povos Yanomami, Ye’kwana e os Isolados da Serra da Estrutura, Isolados do Amajari, Isolados do Auaris/Fronteira, Isolados do Baixo Rio Cauaburis, Isolados Parawa u, Isolados Surucucu/Kataroa que os garimpeiros invadiram e fazem a extração ilegal de ouro. O garimpo ilegal é um problema antigo na região, mas escalou nos últimos dois anos, ao ponto de colocar a área indígena como a mais pressionada da Amazônia ano passado. Em 2020, a TI Yanomami registrou 72 ocorrências de desmatamento e um total de 4,4 quilômetros quadrados de área desmatada, de acordo com o Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) do Imazon.

A pressão sobre a Terra Indígena agora afeta a Estação Ecológica, afinal, para acessar as áreas de garimpo, os criminosos passam pela unidade de conservação. Volta e meia são alvos de operação de fiscalização ambiental, como a que ocorreu há duas semanas.

Área de garimpo na região de Waikás, Terra Yanomami, em dezembro de 2020. Foto: ISA

Antes de irem embora da sede, os garimpeiros afirmaram que estavam monitorando todos os servidores do ICMBio e que não poupariam ninguém caso encontrassem algum fiscal pelo caminho. Também ameaçaram colocar fogo nas viaturas do órgão ambiental. Os brigadistas foram obrigados a levar os materiais até a fronteira da unidade com a Terra Indígena. Ao serem libertados, correram para a mata. Antes, enviaram rádio para informar que estavam abandonando a base após as ameaças. 

Segundo ((o))eco apurou, há uma equipe de resgate indo buscar os três brigadistas – dois deles são indígenas –, que estão ilhados em um ponto da Estação Ecológica. O rio Uraricoera está passando por uma cheia e a região está alagada.

Ao longo do dia, fiscais do ICMBio em toda região, principalmente as próximas de áreas de garimpo, relatam medo com o episódio. A maioria entende que a escalada das tensões torna praticamente impossível o cumprimento das obrigações institucionais do órgão, que já sofre com o menor orçamento desde sua criação e com inseguranças vindas de uma possível extinção do órgão.

Com a palavra, o ICMBio

Procurado pela reportagem, o ICMBio declarou que “a Polícia Federal foi acionada e já está com investigação em andamento, contando com apoio integral do ICMBio e demais órgãos governamentais”.

Por: Daniele Bragança
Fonte: O Eco