Governo Wilson Lima omite ataques no interior do Amazonas

Governo Wilson Lima omite ataques no interior do Amazonas
Chegada de tropas da Força Nacional, a partir da noite de terça-feira, só atende até agora à capital Manaus. Chegada de policiais da Força Nacional no aeroporto Eduardo Gomes (Foto: Secom).

O governo do Amazonas mentiu ao listar apenas um incêndio em uma escola municipal no município do Careiro Castanho dentro da série de atentados do Comando Vermelho (CV) no fim de semana. Já a prefeitura de Manaus listou ataques a pelo menos sete prédios públicos. Se o poder estadual tivesse ouvido os dois únicos policiais militares que, auxiliados por um guarda municipal, tentavam em vão proteger os moradores, saberia que a situação foi muito mais grave.

“A gente está aqui no Careiro Castanho. O efetivo do policiamento aqui: dois PMs. A cidade está sendo atacada, deram rajadas na prefeitura, tacaram fogo na Secretaria de Obras, deram rajadas no Centro do Idoso. Tacaram fogo em outro prédio por trás da prefeitura, e felizmente a realidade aqui nossa é essa. Dois PMs e um guarda municipal para tentar combater essa situação aí”, desabafou uma policial em um vídeo, dentro de uma viatura.

A radialista Anderleia Oliveira, de 40 anos, descreveu para a Amazônia Real as cenas do horror que ainda estão vivas em sua memória. “Atacaram a Secretaria de Obras, sindicato dos trabalhadores, Centro Digital de Mídias, Centro do Idoso, a prefeitura, um posto de gasolina, a escola da zona rural, a UBS, a Secretaria de Assistência Social, e ainda incendiaram uma kombi”, descreveu.

No Amazonas, os ataques começaram por volta da meia-noite de sábado (5), segundo a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas, com incêndios em veículos, incluindo do transporte urbano, depredação de prédios públicos e até postos de saúde e ambulâncias. O motivo seria uma retaliação à morte do traficante e líder do Comando Vermelho, Erick Batista Costa, o “Dadinho”. Ele morreu em uma troca de tiros com militares da Rocam (Rondas Ostensivas Cândido Mariano) da Polícia Militar, na mesma noite.

Na segunda-feira (7), Careiro do Castanho parecia uma cidade fantasma, vazia e com poucos se aventurando a sair de casa. “As igrejas não estão funcionando, tem pouca gente nas ruas, somente pela manhã. À tarde fica um vazio total. A maioria das instituições suspenderam o funcionamento, paralisou tudo”, contou Anderleia, na terça-feira (8).

Careiro fica a 124 quilômetros da capital amazonense e com pouco mais de 38 mil habitantes. Banhado pelo rio Amazonas, enfrenta uma grande enchente este ano. Um total de 254 famílias estão atingidas pela alagação de suas casas e 411 desalojadas, segundo a Defesa Civil. Foi considerado pela polícia como um dos municípios mais atingidos pelos ataques do CV, fora a capital Manaus.

“Teve duas explosões. Eles (os criminosos) chegaram pela área de rio. Eles eram cinco. Quebraram um monte de coisa lá (…) Foram duas bombas que explodiram para lá. Hoje (segunda) eu não vou dormir à noite, por causa dessa situação que não é fácil”, disse um agricultor que mora próximo à escola municipal incendiada e pediu anonimato por medo de represálias. 

O município já recebeu o reforço das Rondas Ostensiva Cândido Mariano (Rocam) e da Polícia Rodoviária Federal, mas nenhum reforço da Força Nacional de Segurança (FNS), segundo a prefeitura. Do contingente de 144 policiais da FNS prometidos pelo governo federal, apenas 20 chegaram na noite de terça-feira (8) e se encontram alocados em Manaus. Quando questionada sobre como seria feita a distribuição dos demais 124 membros da Força Nacional, no interior do Estado, a Secretaria de Segurança do Estado do Amazonas (SSP-AM) recusou a informar por “questões estratégicas”.

“Aqui tocaram fogo no ônibus”

Viaturas na delegacia de Caapiranga (Foto: Reprodução das redes sociais)

As forças de Segurança Pública do Amazonas registraram ataques em nove municípios do Estado: Iranduba, Parintins, Careiro Castanho, Manacapuru, Carauari, Rio Preto da Eva, Caapiranga, Anori e Itapiranga. Não houve registro de novos ataques e nem de feridos desde a tarde de segunda (7). 

Ainda menor do que Careiro Castanho, o município de Itapiranga, com 17 mil habitantes, também foi atacado pelos traficantes de drogas. O autônomo e ex-secretário de finanças do município, Fábio Elias de Queiroz, relatou como foram os ataques: “Aqui  eles tocaram fogo num ônibus de uma empresa aqui, e também no Mercado Municipal.Nunca teve nada dessa natureza aqui. As pessoas ficaram aterrorizadas com a situação”.

O município de Itapiranga, na região do Médio Rio Amazonas, é uma espécie de “cidade santa”, já que se tornou ponto de peregrinação, por conta da suposta aparição de “Nossa Senhora Rainha do Rosário e da Paz”, na primeira metade da década de 1990.

Mas a cidade que já foi santa, hoje é dominada pelo tráfico. “O tráfico é muito presente aqui. O efetivo (da polícia) não é suficiente para coibir ou até combater o tráfico”, lamentou Elias. 

Além dos casos dos municípios do Careiro Castanho e Itapiranga, outras cidades também registraram ocorrências. Em Caapiranga, a 133 quilômetros de Manaus, dois carros da Polícia Civil, um da PM e um particular foram incendiados.

Até o momento, 41 suspeitos (22 na capital e 19 no interior) foram presos em todo o  estado do Amazonas. Dois adolescentes e uma criança foram apreendidos.

David Almeida e Bolsonaro

Coronel Menezes, Bolsonaro e David Almeida no Planalto (print vídeo das redes sociais)

O prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), que é da mesma base de apoio de Jair Bolsonaro (sem partido), teve um encontro com o presidente na terça-feira (8), no Palácio do Planalto. No último domingo (6), Almeida chegou a pedir tropas do Exército nas ruas para restabelecer a ordem.

“O Estado não pode recuar, tem que ter muita firmeza nesse momento. Já conversei com o comandante militar da Amazônia (general Estevam Cals Theophilo Gaspar de Oliveira) e falei com o Wilson Lima. Se estão fazendo isso a luz do dia, durante a noite pode ser muito pior, delegacias estão sendo atacadas. Tem que convocar a GLO, está mais do que na hora do Exército entrar nas ruas, não se pode deixar que os marginais tomem conta”, disse à ocasião.

O Comando Militar da Amazônia (CMA) divulgou uma nota, ainda na noite de domingo, afirmando que a Garantia da Lei e da Ordem (GLO) – que concede provisoriamente aos militares a faculdade de atuar com poder de polícia até o restabelecimento da normalidade – só poderia ocorrer por ordem exclusivamente da Presidência da República.

Restou, nessa política de enxugar gelo no combate ao crime organizado, pedir o envio de tropas federais. A solicitação foi feita pelo governador no domingo. Wilson Lima (PSC), também apoiador de Bolsonaro e que deve depor na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia, nesta quinta-feira (10), em Brasília, disse que o objetivo da Força Nacional era atuar “no combate aos atos de vandalismo que têm acontecido nas últimas horas”.

Força Nacional em Careiro Castanho (Foto: Divulgação)

Por: Leanderson Lima
Fonte: Amazônia Real