Greve nacional pede saída de presidente da Funai

Com atos de protesto em 34 cidades brasileiras, servidores afirmam que a exoneração de Marcelo Xavier é um primeiro passo para acabar com o desmantelamento do órgão.

Greve nacional pede saída de presidente da Funai
Na imagem acima, indígenas em frente da sede da Funai em São Gabriel da Cachoeira (Foto: Paulo Desana/Dabakuri/Amazônia Real)

Os servidores da Fundação Nacional do Índio (Funai) fizeram um manifesto em frente à sede do órgão em Brasília, entre as 10 e 14 horas desta quinta-feira (23), como parte da greve que deflagraram no início desta semana. O movimento recebeu apoio de associações, sindicatos, especialmente de servidores públicos, representantes nacionais e locais da Central Única dos Trabalhadores (CUT), partidos políticos, deputados e indígenas. Embora o número de presentes não tenha sido o mesmo das grandes manifestações indígenas, eles representaram algumas dezenas de povos de todas as regiões do País.

Os eventos ocorreram no mesmo dia em que os corpos de Bruno Pereira e Dom Phillips, que morava no Brasil, foram liberados para sepultamento. O velório e a cremação do indigenista será nesta sexta-feira (24), em Paulista, em Recife, capital de Pernambuco. A cerimônia deve ser restrita apenas para os familiares, mas o cemitério Morada da Paz disponibilizou uma página na internet para que as pessoas deixem uma mensagem e orações. O corpo do jornalista britânico também será cremado e sepultado, no domingo (26), em Niterói, no Rio de Janeiro. A cerimônia ocorrerá das 9 às 12 horas, no Cemitério Parque da Colina. Às 16 horas (horário de Brasília), haverá uma homenagem a Dom, que era colaborador assíduo do jornal The Guardian, nos Arcos da Lapa. O pedido é que as pessoas vão ao local vestidos de verde.

Segundo a Indigenistas Associados (INA), instituição que representa os servidores, a greve e os manifestos ocorreram em 34 cidades brasileiras: Brasília (DF), Lábrea, Atalaia do Norte, Tabatinga e São Gabriel da Cachoeira (AM), Dourados e Campo Grande (MS), em Canarana (MT), em Porto Seguro (BA), em Fortaleza e Iguatu (CE), Maceió (AL), Imperatriz (MA), Oiapoque (AP), Altamira, Itaituba e Santarém (PA), Palmas (TO), em Governador Valadares (MG), Museu do Índio (RJ), Guarapuava e Curitiba (PR), e em Florianópolis (SC). Os atos aconteceram em frente às sedes da Funai, das Coordenações Regionais (CRs), das Coordenações Técnicas Locais (CLTs), de organizações indígenas ou nas ruas.

O movimento está marcado para encerrar à meia-noite desta quinta-feira. Mas a greve da Funai poderá ser prorrogada numa assembleia a ser realizada nesta sexta-feira, a partir das 9 horas, em frente ao Ministério da Justiça. Eles reivindicam a exoneração do presidente da Funai, Marcelo Xavier, e também a apuração dos mandantes e circunstâncias em que foram executados, esquartejados e enterrados o indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips, no Vale do Javari, no extremo oeste do Amazonas.   

Os servidores denunciam clima de terror por perseguição em todas unidades da Funai no Brasil. No último dia 13, a INA publicou um dossiê que mostra o desmonte institucional do órgão e a militarização do comando e das chefias nas unidades estaduais. Segundo o documento, o objetivo é favorecer a ação de garimpeiros, madeireiros, ruralistas, caçadores, pescadores e até mesmo narcotraficantes que saqueiam recursos naturais em territórios indígenas.

“Cansamos do absurdo. Não tem como continuar com a gestão anti-indígena que vivemos nestes três anos e meio”, exclamou Luana Almeida, coordenadora de Direitos de Servidores da INA, no palanque montado com caixas de som em frente à Funai. “Os assassinatos de Bruno, Dom e Maxciel Pereira dos Santos (indigenista da Funai morto na cidade de Tabatinga em 2019) não são tragédias ocasionais, mas anunciadas”. Ela enfatizou que muitos funcionários em campo vivem constantemente ameaçados, assim como os indígenas.

“Baixamos a cabeça”

Manaifestação dos indígenas e indigenistas em São Gabriel da Cachoeira (Foto: Paulo Desana/Dabakuri/Amazônia Real)

Representando a Associação Nacional dos Servidores Ambientais (Ascema) no movimento em apoio à INA, Carla Lessa ressaltou que o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) vive situação bastante semelhante. A Ascema denunciou em maio que funcionários também do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) sofreram pressões do Governo Bolsonaro, para deixarem de atender os Yanomami do Amazonas e de  Roraima, favorecendo ataques de garimpeiros.

“Baixamos a cabeça demais”, acentuou Carla Lessa. “Baixamos a cabeça para esse governo assassino que disse que veio para matar. Não derrubamos o (ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo) Salles, porque Leite está lá”, disse referindo-se ao atual ministro, Joaquim Álvaro Pereira Leite. “Estão nos matando e não é pouco. Temos inimigos no poder”, acrescentou ela.

Os assassinatos e o clima de terror vivido pelos servidores no País resultaram em agendas que buscam solidariedade e providências na Câmara e no Senado.  A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) realizaram um encontro com a imprensa em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF) em protesto contra o adiamento do julgamento do marco temporal. No local, Norivaldo Guarani Kaiowá citou mais de uma dezena de nomes de lideranças assassinadas de seu povo. “Pelo número de despejos que sofremos e pelo sangue, talvez o futuro de nosso território seja um grande cemitério tradicional”, afirmou.

A deputada Joenia Wapixana (Rede/RR) esteve na Praça dos Três Poderes e disse que nesta quinta-feira lideranças foram ouvidas em audiência pública requerida por ela na Comissão de Direitos Humanos da Câmara sobre o adiamento do julgamento do marco temporal. Ela enfatiza que a indefinição deixa os povos indígenas ainda mais vulneráveis. “A proposta do marco temporal é absurda e inconstitucional”, afirmou. A deputada ainda se referiu à comissão externa criada, em 15 de junho, pela Câmara para acompanhar os assassinatos no Vale do Javari.

Assim que encerrou o protesto na Praça dos Três Poderes, no outro extremo do Eixo Monumental, às 16 horas, iniciava no Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal uma coletiva com o assessor jurídico da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Unijava), Eliésio Marubo. Ele disse ter vindo a Brasília porque fez questão de se solidarizar com a greve dos funcionários da Funai. Pela manhã, participou do ato em frente ao órgão indigenista.

“Inimiga dos indígenas”

Eliésio Marubo disse que a Univaja está em Brasília para diálogo com as autoridades nacionais. Ele citou que os indígenas já foram recebidos por parlamentares no Congresso e que o procurador-geral da República, Augusto Aras, esteve no último dia 19 em Tabatinga, onde anunciou a proposta de reestruturação do Ministério Público Federal na região do Vale do Javari. Mas que não tiveram nenhuma possibilidade de diálogo com o Executivo. “Nem com a Funai, nem com nenhum órgão ou ministério vinculado ao Poder Executivo.”

Questionado por um jornalista se considerava a Funai como inimiga dos indígenas, o assessor da Univaja admitiu que sim. “Com certeza a Funai é inimiga dos povos indígenas. É inimiga porque persegue servidores que são favoráveis aos povos indígenas. A EVU (Equipe de Vigilância da Univaja) já sofreu várias tentativas de criminalização, como se fosse um grupo de malfeitores. A Funai atenta contra o próprio ato que a instituiu”, disse.

Entre os pontos principais que a Univaja pretende nesses diálogos está a segurança. “Não apenas dos indígenas, mas dos ribeirinhos”. Eliésio Marubo citou que Tabatinga é um dos mais violentos municípios brasileiros e disse que após os assassinatos de Bruno e Dom o clima ficou ainda mais tenso os moradores da região. “As pessoas estão amedrontadas, inclusive por causa das investigações sobre os crimes.” 

Sobre as buscas policiais que iniciaram no dia 5 de junho quando Bruno e Dom desapareceram, Eliésio Marubo fez questão de citar “atuação de cinco policiais militares” do 8º Batalhão de Tabatinga. E criticou as Forças Armadas e a Polícia Federal. “Aquele aparato todo e helicóptero foi só CSI”, ironizou, citando a série americana sobre investigações forenses. “A grande atuação foi dos homens da PM, acostumados a trabalhar na rua.”  

Eliésio chegou a se emocionar enquanto falava sobre a importância do indigenista Bruno Pereira para os povos do Vale do Javari. “Ele era muito mais do que um simples colaborador. A relação que tinham com nossa família e com as famílias de outras etnias da nossa região vai durar por toda a eternidade”, afirmou. E disse que na sexta-feira haverá uma cerimônia “pelo passamento” de Bruno na Universidade de Brasília (UnB).

Na capital do Amazonas, o ato da greve da Funai será realizado no sábado (25), às 9 horas, em frente à sede da Funai, que fica localizada no bairro Adrianópolis, em Manaus. O protesto será organizada pelo Sindicato dos Servidores Públicos Federais no Amazonas (Sindsep-AM). Em entrevista à Amazônia Real, um dos diretores do Sindsep-AM Menandro Sodré afirmou que entre as reivindicações está a valorização dos servidores, mais recursos para as atividades e, principalmente, uma investigação no assassinato de Bruno Pereira e Dom Phillips.

“É um desmonte total dos órgãos públicos, teve essas duas mortes, desses dois companheiros, mas houve também um tempo atrás outro assassinato lá em Tabatinga. Até agora foi esquecido. Queremos denunciar a impunidade, porque hoje a gente entende que acontece tudo isso pela impunidade”, disse Sodré. 

O servidor relembrou o assassinato de Maxciel Pereira dos Santos, entre outros crimes ambientais que ocorreram onde ainda não tiveram a prisão dos responsáveis. E citou ainda o helicóptero do Ibama incendiado em Manaus, em janeiro deste ano e o incêndio criminoso na sede do órgão no município de Humaitá, em 2017, noticiado pela Amazônia Real na época. 

“Pouco tempo queimaram um helicóptero do Ibama, e está todo mundo solto. Queimaram a sede do Ibama lá em Humaitá, e está todo mundo solto. Temos que denunciar, chega. Não aguento mais essa política de impunidade que vivemos e esses assassinatos de trabalhadores que estão ocorrendo,” enfatiza o servidor público.

Eliésio Marubo, procurador da Univaja
(Foto: Avener Prado/Agência Pública)

Por: Cris Ávila e Alicia Lobato
Fonte: Amazônia Real