Há milhões de anos, Mar do Caribe inundou a Amazônia e transformou a biodiversidade da floresta

  • Novo estudo confirmou que a Amazônia Ocidental foi inundada pelas águas do Atlântico há menos tempo do que se pensava. O fenômeno contribuiu para a riqueza da biodiversidade da região, incluindo os golfinhos de água doce.
  • Segundo a pesquisa, a fonte mais provável destas incursões marinhas, de cerca de 23 milhões a 8,8 milhões de anos atrás, foi o Mar do Caribe, com a água entrando pela atual Bacia do Rio Orinoco, na Venezuela.
  • Pesquisadores dizem que investigar o passado distante da Amazônia pode dar pistas sobre seu futuro próximo, dado que o final do Mioceno foi um período de aquecimento global, com temperaturas muito superiores ao aumento de 2 °C que o Acordo de Paris está tentando evitar.
  • No entanto, atualmente, o aquecimento global está ocorrendo em uma escala de tempo exponencialmente mais curta; segundo os cientistas, esse fenômeno, aliado às taxas recordes de incêndios e desmatamento, não deixa tempo suficiente para as espécies animais e vegetais se adaptarem.

Os cientistas já sabiam que a área onde hoje se encontra a Floresta Amazônica ocidental foi no passado um megapântano – quase seis vezes o tamanho de Minas Gerais – periodicamente inundado pela água do mar. Agora, um novo estudo alega que a fonte desses fluxos marinhos era muito provavelmente o Mar do Caribe. E que outra inundação, mais tardia e muito mais significativa, contribuiu para a riqueza da biodiversidade da região como a conhecemos hoje, incluindo os golfinhos de água doce (botos).

“O novo artigo confirma esta ligação entre o Caribe e a Amazônia”, disse Carina Hoorn, pesquisadora da Universidade de Amsterdã, que nos anos 1990 foi a primeira a sugerir a ideia de incursões marinhas na Amazônia ocidental.

Pesquisas anteriores feitas por Hoorn e outros cientistas datam estes episódios do início da época do Mioceno (23 milhões a 16,3 milhões de anos atrás) e do Mioceno médio (14,9 milhões a 12,9 milhões de anos atrás). Desde então, estas “invasões do mar” têm sido objeto de vários estudos tentando aprofundar seu tempo, duração, intensidade e origem.

O último estudo, publicado em março de 2022 por pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos, defende que existiu um período muito mais intenso de incursões marítimas durante o final do Mioceno (11,1 milhões a 8,8 milhões de anos atrás). A pesquisa também apresenta evidências fósseis de que a fonte desta inundação foi o Mar do Caribe, com a água fluindo pelo que é hoje a Bacia do Rio Orinoco, na Venezuela.

“Pesquisadores falaram sobre seis rotas possíveis para as incursões marítimas”, disse a autora líder do estudo, Lilian Leandro, pesquisadora da Universidade Unisinos, do Rio Grande do Sul. “Mas agora conseguimos bater o martelo que a origem é o Mar do Caribe”.

Para desvendar o mistério, Leandro e seus colegas compararam microfósseis de amostras de três núcleos em alto mar nos oceanos Atlântico e Pacífico a seis amostras de núcleos retirados de locais na costa, na Bacia do Rio Solimões. O Solimões é o trecho do Rio Amazonas no oeste da Amazônia que vai da fronteira com o Peru até a cidade de Manaus, onde encontra o Rio Negro.

“A semelhança entre os conjuntos de microfósseis da Bacia do Solimões e do Mar do Caribe e a evidência do aumento do escoamento do sistema de drenagem do Rio Orinoco sugerem fortemente o Mar do Caribe como a principal área de origem das incursões marinhas”, diz o estudo.

Carlos D’Apolito, que estuda esporos fossilizados e pólen na Universidade Federal do Mato Grosso (UFMG), mas não estava envolvido no recente estudo, disse que a mistura de ambientes de água doce e salgada, os nutrientes trazidos com águas dos Andes e o clima tropical foram todos combinados para gerar “um caldeirão pronto para produzir a espetacular biodiversidade [amazônica]”.

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Pôr-do-sol amazônico. Foto: Rhett A. Butler/Mongabay.

O estudo de Leandro também ajuda a dar corpo ao que os pesquisadores agora entendem sobre a intensidade e o tempo deste fenômeno. Desde 1993, quando Hoorn encontrou evidências de pólen fossilizado de manguezais costeiros durante seu trabalho de campo no interior do noroeste do Brasil, tem havido um consenso geral entre os pesquisadores de que a região recebeu repetidas incursões marinhas por pelo menos dois períodos de tempo, no início e no meio do Mioceno.

A possibilidade de um terceiro e mais recente período de incursões, durante o final do Mioceno, já foi sugerida por pesquisadores como Ana Paula Linhares, do Museu Paraense Emílio Goeldi, em 2017, e Bruno Espinosa, da Universidade Federal de Mato Grosso, em 2021. O novo estudo, co-autoria de Linhares, não só confirma essa hipótese como também aponta que o terceiro episódio foi muito mais intenso do que os anteriores.5y

“Durante este intervalo de tempo, vimos uma magnitude maior desta incursão marinha, o que significa que ela durou mais do que em períodos anteriores”, disse Leandro. “Encontramos escamas de tubarão do final do Mioceno na Amazônia”.

D’Apolito, co-autor do estudo de Espinosa em 2021, disse que o novo estudo confirma suas pesquisas anteriores e acrescenta uma quantidade muito maior de dados ao registro científico. O que torna esta terceira incursão tão importante, disse ele em uma chamada de vídeo, é que “significa que a duração e o impacto deste evento sobre a formação da biodiversidade amazônica é maior do que pensávamos”.

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De acordo com cientistas, as incursões marinhas introduziram animais e plantas do Oceano Atlântico na região amazônica, onde se adaptaram a um ambiente de água doce ao longo de milhões de anos. Os exemplos mais emblemáticos são as diversas espécies de golfinhos de rio, ou botos, encontradas hoje nos rios da Amazônia. Foto: Thomas Henningsen/Greenpeace.

Todos os pesquisadores entrevistados pela Mongabay concordaram que os efeitos deste período de inundações marinhas ainda são visíveis na floresta tropical, na forma de animais e plantas que se originaram no oceano e que se adaptaram ao longo de milhões de anos à água doce.

“Os golfinhos de rio fazem parte dessa história, são uma relíquia da conexão com o oceano”, disse Hoorn. “E há muita coisa que ainda não sabemos”.

O trabalho de Leandro também levanta a possibilidade de um quarto e ainda mais recente período de incursões marinhas, durante o Plioceno inicial (4,7 milhões a 3,8 milhões de anos atrás), mas Hoorn disse que isto ainda precisa ser confirmado.

Um vasto pântano com animais gigantes

Há duas explicações plausíveis para as incursões marinhas na Amazônia, dizem os especialistas: um período de aquecimento global, que levou ao derretimento das geleiras e à consequente elevação do nível do mar; e a formação da Cordilheira dos Andes, que criou uma vasta área de terras baixas na Amazônia ocidental. “Transformou a Amazônia em um grande dreno, uma área inferior que se tornou um canal para estas incursões marítimas”, disse Leandro.

As características precisas desta paisagem ainda são incertas, mas vários estudos apontam para um vasto pântano, conhecido como Pebas Mega, que foi permanentemente inundado por água doce e que periodicamente recebia pulsos de água do mar.

“Esta paisagem tem sido moldada ao longo dos anos, mas os dados indicam que a Amazônia ocidental era um ambiente lacustre com ocasionais registros salinos e salobros”, disse Linhares .

Este pântano era o lar de uma impressionante variedade de animais, disse D’Apolito: “Há registros de um crocodilo do tamanho de um dinossauro, com quase 12 metros de comprimento [39 pés], e uma tartaruga do tamanho de um carro. Era um incrível sistema de pântano”.

A mesma elevação dos Andes que permitiu a entrada da água do mar no continente acabou impedindo mais incursões marinhas, de acordo com o estudo. O surgimento da última parte da cordilheira há cerca de 1,8 milhões de anos, na atual região de Mérida, na Venezuela, fechou o canal costeiro que havia permitido o aumento da água do mar no interior. E o acúmulo de sedimentos andinos criou novos terrenos na bacia do pântano, elevando a altitude de grande parte da Amazônia ocidental e reduzindo o gigantesco lago do Plioceno até que se tornasse o Rio Amazonas como o conhecemos hoje, de acordo com as descobertas. Um período de resfriamento global, que baixou ainda mais o nível do mar, também contribuiu para acabar com a ligação entre o oceano e a floresta, dizem os pesquisadores.

A história da Amazônia, no entanto, ainda guarda muitos mistérios.

“A maior dificuldade para estudar a Amazônia é a obtenção de sedimentos”, disse Leandro. “Muitos desses sedimentos só conseguimos obter nas margens do rio durante a estação seca. Mesmo estes afloramentos não atingem idades muito antigas.”

Na maioria das vezes, a única saída é analisar amostras perfuradas para fins comerciais, especialmente provindas de mineração, como as que Leandro e seus colegas tiveram que utilizar em seu estudo.

Para preencher esta lacuna, um grupo internacional de cientistas iniciará o maior projeto de amostragem já realizado na Amazônia, perfurando núcleos de rochas de três lugares: nas bacias do Acre, Solimões e Marajó. Hoorn, que está participando do projeto, disse que o início da perfuração foi atrasado por causa da pandemia, mas deve começar até o final deste ano.

“O objetivo é perfurar alguns locais chave para obter novas amostras de sedimentos capazes de oferecer informações muito mais precisas sobre o passado, para que possamos ver como a floresta respondeu à mudança climática, por exemplo”, disse ela.

One of the biggest difficulties in studying the Amazon history is the lack of sediment samples, researchers say. Most of the time, they have to resort to samples collected by private mining and oil companies for economical purposes. Image courtesy of Lilian Leandro.
Uma das maiores dificuldades para estudar a história da Amazônia é a falta de amostras de sedimentos, dizem os pesquisadores. Na maioria das vezes, eles têm que contar com amostras coletadas por empresas privadas de mineração e petróleo para fins comerciais. Foto: Lilian Leandro.

Amazônia sob dupla ameaça

Os cientistas dizem que a compreensão do que aconteceu na Amazônia no passado distante pode nos dar uma pista do que pode acontecer no futuro próximo, especialmente quando o assunto é a mudança climática. O Mioceno viu temperaturas médias em torno de 14 °C acima dos níveis pré-industriais – muito acima do aumento de 2 °C que a comunidade internacional está tentando evitar com o Acordo de Paris.

A diferença é que o atual aquecimento global está ocorrendo muito mais rapidamente do que durante o Mioceno, disse D’Apolito.

“Estas são escalas de tempo muito diferentes. Em nossos estudos, analisamos mudanças que ocorreram ao longo de centenas de milhares de anos. O que estamos vendo agora é um processo de décadas”, disse ele.

O resultado, ele acrescentou, é um risco maior de extinção em massa. “Em centenas e milhares ou milhões de anos, as espécies têm tempo para se adaptar”, disse ele. “Em algumas dezenas de anos, não”.

Na Amazônia, este processo está sendo intensificado por índices recordes de incêndio e desmatamento.

“As ações desenfreadas do homem prejudicam outras espécies, principalmente através da destruição de seus habitats naturais, prejudicando ainda mais o enfrentamento da crise climática já existente”, disse Linhares.

“Ao desmatar a floresta”, disse Hoorn, “você muda a paisagem de uma forma muito mais problemática do que com a mudança climática. Isso muda a superfície e cria processos erosivos que impossibilitam o retorno da vegetação.”

Por: Fernanda Wenzel 
Fonte: Mongabay